Hesíquio o Sinaíta

21 09 2013

 

antony-and-feodosyHigumeno de Nossa Senhora da Sarça (Batos), no Sinai; autor de duas centúrias Sobre a sobriedade e a virtude (P.G. t. 93, c. 1480). Posterior aJoão Clímaco e a São Máximo, que utiliza.

Hesíquio ensina uma noção muito simples da vida espiritual, que ele repete incansavelmente ao longo de seus 200 capítulos. Para ele, tudo está naatenção, na sobriedade ou ainda na hesychia, da qual as duas primeiras são o objeto, o meio e o fim ao mesmo tempo.

Combata os pensamentos, não haverá mais pecado, pois o pecado é atraído pela inclinação criada por uma primeira representação (prosbole) que não se conteve por não se ter sabido distingui-la. É uma questão de atenção. E de graça: daí vem o segundo princípio, da invocação de Jesus, daoração monológica a Jesus. A resistência (agon) ao pensamento se desenrola em três tempos: em guarda, para desmascarar o pensamentointruso, bom ou mauresistência e mobilização da cólera sadia (a “cólera segundo a natureza”) contra o indesejável; enfim, a simples invocação, atada à respiração, que saneia e purifica o ar do coração.

história dessa atenção articulada à oração de Jesus, é a mesma do progresso espiritual. Começa por uma escada (a observação dosmandamentos, as virtudes – arete), depois ela nos abre um livro (a ciência dos seres, as contemplações inferiores); em fim introduz, na Jerusalémespiritual, a visão de Cristo (a “teologia”) na luz de nossa alma.

As duas centúrias já apresentam essa simplificação que surpreende em um Nicéforo, o Solitário: a perfeição espiritual é absorvida pela atenção e aoração de Jesus. Sem a famosa técnica e, mais tarde, o aporte palamita sobre a visão da luz do Tabor, Nicéforo e o pseudo-Simeão não passariam de pura e simples reedição de Hesíquio. (Jean Gouillard, Pequena Filocália)


Segundo a tradução inglesa da Philokalia,Nicodemos o Hagiorita identifica estes escritos como sendo de Hesíquio de Jerusalém, autor de comentários bíblicos, que viveu na primeira metade do século V. Hoje em dia se reconhece, como sendo de Hesíquio de Batos, que viveu em época desconhecida, mas provavelmente depois (séculos VIII ou XIX) de João Climaco (séculos VI ou VII). Hesíquio referencia também Marcos o Asceta eMáximo o Confessor. Nicodemos recomenda especialmente seus ensinamentos sobre a vigilância (nepsisepimeleia), atenção (prosoche) eguarda do coração (kardia). A devoção de Hesíquio pelo Santo Nome de Jesus, valoriza esta seleção para quem se interessa pela oração de Jesus(Kyrie Eleison).

Na tradução francesa da Philokalia, trata-se de um abade do mosteiro da Sarça Ardente, no Sinai, donde seu nome Hesíquio de Batos (gr. batos = sarça). os tradutores franceses entendem que o tratado é mais um trabalho de uma escola monástica, indubitavelmente esta do Sinai, do que de umindivíduo. A ênfase na obra é de um “recolhimento por inteiro na cripta da purificação do coração”. A ascese do corpo aí se refina em ascese dainteligência. Fazer monge o homem interior é o grande trabalho que implica graça e confiança, apelo contínuo a Deus, antes de tudo o exercício dahumildade real: ampliar em nós as vantagens dos outros, e nos considerar a nós mesmos como terra e cinzas. Tudo se concentra na guarda dainteligência ou do intelecto (nous), na “porta do coração”.

Os capítulos ilustram um “método espiritual” de purificação, fundamental na Philokalia. Destacam-se três modos de ascese: a nepsis, a hesychia e aoração de Jesus. A nepsis, traduzida por vigilância, mas também significando sobriedade, é a virtude crucial da inteligência que se volta para si mesma (arrependimento = metanoia) para não ser mais que total atenção à pureza do coração e alcançar a transparência original e última. Esta nepsis da inteligência leva à hesychia do coração, este repouso, quietude, silêncio, signo do estado divino. Na hesychia do coração se instala aoração de Jesus.

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São Maximus, Confessor

17 02 2013
St.Maximus, Confessor

St.Maximus, Confessor

VIDE: WikipediaOrthodoxWiki(external link)

Segundo a tradução francesa da Philokalia a vida de Máximo (580-662) se aparenta de certo modo a do Apóstolo Paulo. O que Paulo foi entre osapóstolos, Máximo foi entre os monges. Poderia ter sido o oposto a um monge: nascido em uma família nobre de Constantinopla, e muito instruído, foi inicialmente um dos mais altos funcionários do Império Bizantino e sem dúvida os secretário do imperador Heraclius. mas, passados trinta anos, em 614, entrou em um mosteiro, inicialmente em Chrysopolis, do outro lado do Bósforo, depois em Cyzique. Desde 626, a invasão persa e a conquista árabefizeram dele um errante. Passou grande parte de sua vida esclarecida na África. Tendo estudado muito os Padres e a Escritura, cultivou profundas amizades ortodoxas, em particular com Sophrone, o patriarca de Jerusalém, e assim guardou de sua frequentação com o poder um sentido agudo de sua responsabilidade de homem engajado na história. Acabou por se opor radicalmente ao compromisso doutrinal buscado pelo poder em Constantinopla para impedir as comunidades do Oriente seguidoras do monofisismo de bandear para o Islã.

Defendendo o dogma de Calcedônio (duas naturezas, logo também duas energias e duas vontades do Cristo, em uma única pessoa plenamente divina e plenamente humana), Máximo confirmava em nome de Cristo o direito do homem a liberdade de Deus. Mas, como o Cristo e como Paulo, deixou-se enredar em um processo político. Levado à força a Constantinopla em 653, várias vezes condenado, diversas vezes exilado, intratável, morreu em seu último exílio, no Cáucaso, aos 82 anos de idade, com a língua e mão decepadas.

A seleção constante da Philokalia demonstra o reconhecimento dos compiladores ao propósito que comungam: transmitir ao mundo e confiar àhistória a silenciosa profecia dos monges e seu amor da beleza divina. O material escolhido (quatro centúrias sobre a caridadesete centúrias sobre ateologia, e um comentário sobre a oração dominical) são acima de tudo filocálicos. Eles só levam em consideração nossa relação fundamental com omistério e a revelação do Deus vivo.

As quatro centúrias sobre a caridade são sem dúvida uma das primeiras obras de Máximo, composta na calma do mosteiro de Cyzique, antes de 626. Máximo condensou aí sete séculos de vida cristã atestando a preeminência absoluta do amor. As sete centúrias sobre a teologia são elas mesmas a reunião de duas obras diferentes: uma (duas primeiras centúrias) foi escrita provavelmente no início do exílio na África, entre 630-634; a outra (capítulos diversos da terceira à sétima centúria) é uma compilação que data provavelmente do século XI, onde se sucedem excertos de obras de Máximo (Cartas, Questões a Thalassius, Ambigua), comentários do compilador e algumas passagens dos escritos de Dionísio o Areopagita. Nestes últimos escritos percebe-se claramente uma posição fundamental de Máximo: “Só conhecer o Verbo na carne, para progredir para a glória”. A energia divina que criou omundo está em operação e se realiza em nós no sexto dia porque lhe foi dado passar do sexto ao sétimo, da criação à hesychia, e do sétimo ao oitavo, da hesychia à deificação.Assim tudo é dado, mas tudo deve ser recebido, assumido, realizado. Máximo o afirma: “Cada um é o intendente de sua própria graça”.

A interpretação do “Pai Nosso” foi sem dúvida escrita por volta de 630. É uma obra forte e densa — ao mesmo tempo meditação e exortação — que faz passar e brilhar através das palavras da oração dominical o alento da vida e da luz do conhecimento (gnosis): uma lição de teologia humilde e magistral.


O teólogo Hans Urs von Balthasar apresentando o espírito de Máximo cita um episódio de sua vida. Em seu julgamento, diante da acusação de Theodosius a respeito das duas vontades em Cristo, Máximo ateve-se às “palavras simples” da Escritura, sem entrar em elaboradas especulações, a resposta de Máximo define bem sua cristologia, que ora pretendemos captar:

“Dizendo isto, Theodosius, tu estás introduzindo novas regras para exegese, estranhas à tradição da Igreja. Se não se pode aprofundar nos ditos da Escritura e dos Padres com uma mente especulativa, toda a Bíblia se desmantela, Antigo e Novo Testamento. Ouvimos por exemplo que Davi diz: ‘Abençoados aqueles que estudam seus testemunhos, que o buscam de todo seu coração’ (Salmo 119:2); isto significa que ninguém pode buscar e encontrar Deus sem um estudo penetrante. De novo ele diz, “Dá-me compreensão, para que possa estudar sua lei, e assim possa guardá-la com todo meu coração” (Salmo 119:34); pois o estudo especulativo dirige para um conhecimento da lei, e este conhecimento edifica o amor e o desejo, e faz com que aqueles que têm valor possam guardar a lei em seus corações pela observação de seus santos comandos.” (retirado do livro de von Balthasar, “Liturgia Cósmica”)








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