A escada para o céu – Amor

28 08 2015

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“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque a caridade vem de Deus. Todo o que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é caridade” (1Jo 4:7-8).

Nos níveis mais baixos de formas de vida — no mundo dos micróbios, onde impera uma luta inclemente pela existência suprema — tudo parece lógico e compreensível. Em contraste com a auto-abnegação e o amor, não são nada, mas estranhas e misteriosas contradições para o instinto cego da auto-preservação.

Paradoxalmente, no estado mais elevado de desenvolvimento de um animal na escala da existência, são observados os mais freqüentes exemplos de auto-sacrifício ou manifestações de suaves e altruísticos sentimentos. Muitas vezes isto é expressado através de ajuda mútua entre animais da mesma espécie, como por exemplo: lobos e leões vivem em famílias e caçam em bandos. Machos e fêmeas distribuem entre si os cuidados pelos filhotes e às vezes manifestam mutuamente sentimentos de muita ternura.

Se nos níveis mais baixos de vida de alguns animais eles demonstram crueldade entre si como por exemplo, um crocodilo comendo seus filhotes ou um peixe devorando suas ovas durante a fome; nos níveis mais elevados, o amor materno alcança total abnegação. Aqui com certeza pode ser dito, que tal comportamento altruístico é essencial para a continuação das espécies e portanto pode também ser racionalizado dentro dos parâmetros das leis da evolução; porém, no nível mais elevado da existência, os humanos podem atingir altitudes nobres, tais como generosidade e abnegação-própria, que são impossíveis de se esclarecer pelos princípios biológicos-evolutivos.

Certamente, os seres humanos são capazes de se sacrificarem não somente para o bem de seus filhos, mas também para os estranhos, como por exemplo: distribuir seus próprios recursos para o bem dos famintos, cuidar dos órfãos, tratar dos doentes ou cuidar dos enfermos individualmente acometidos por doenças contagiosas. Com essas atividades altruísticas essas pessoas não obtém nenhum ganho pessoal, mas colocam-se em uma posição, onde estão ameaçados não só o seu bem-estar mas também as suas vidas. Além do mais, os humanos são capazes de amarem os seus inimigos — pessoas que em princípio são perigosas para eles; isto vai totalmente contrário às leis da natureza e da própria-preservação.

Uma observação mais profunda dos mistérios da existência, revela que a ascensão na escala da vida dos micróbios até dos animais mais complexos e finalmente dos seres humanos, vai não só pela linha do aperfeiçoamento físico e crescimento do intelecto, mas pela “espiritualidade” e altruísmo.

O aspecto mais marcante disto, é que o processo de perfeição desses atributos não é limitado ao nosso mundo físico, mas passa para a esfera dos anjos e finalmente termina no Ser Supremo e Criador de todas as coisas, Aquele, O qual nós denominamos Deus!

De fato, quanto maior é o desenvolvimento do ser, tanto maior é a sua capacidade para amar. Desta maneira fica claro que, se o princípio de auto-preservação decorre de cegas leis físicas, então a maravilhosa capacidade de amar é essencialmente um atributo não físico, o qual nós conseguimos à medida que nos aproximamos Dele, que é Perfeição e Amor inexplicável. “Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é caridade” (1Jo 4:8).

Conseqüentemente, o verdadeiro progresso consiste não somente no desenvolvimento do intelecto e da espiritualidade, porém mais especificamente no aperfeiçoamento de si mesmo a um amor não egoísta.

Neste contexto o maior exemplo pode ser visto em Nosso Senhor Jesus Cristo, pois, sendo o Filho de Deus e vivendo na Sua inalcançavel glória, Ele deixou Seu mundo maravilhoso e fez parte do nosso “vale de lágrimas,” dividindo conosco nossos fardos e aflições. Ele sofreu, para que nós fôssemos libertados do sofrimento. Ele morreu, para que nós pudéssemos ter a vida.

“Mas Deus manifesta a Sua caridade para conosco, porque, quando ainda éramos pecadores, no tempo oportuno morreu Cristo por nós… Porque se, sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua vida” (Rom 5:8-10).

Assim a nossa capacidade de amar não pode ser deduzida das leis físicas. Amor é uma característica do nosso Criador, o Qual implantou-o em nós junto com a Sua imagem e semelhança. Deus dotou os animais até um certo grau com a capacidade de amar, porque Ele predestinou o homem a ser o representante dos dois mundos (físico e espiritual) e isto fez a passagem da vida inferior à superior, tranqüila e consecutiva. Dando-nos esta maior capacidade de amar, Deus elevou-nos acima do resto da criação e uniu-nos ao mundo espiritual.

Entretanto, o movimento na escala para o aperfeiçoamento moral pode ser somente ascendente em direção a Deus, porém, quando esse movimento vai em sentido descendente, em direção contrária a Deus, há o desaparecimento das qualidades espirituais e por fim dos sentimentos nobres. Conseqüentemente, é possível ao homem descer ao nível mais baixo dos animais e insetos, onde impera uma impiedosa luta pela sobrevivência, quando ele possui um desinteressado amor cristão. Mas este não é o limite mais inferior da escala; ainda mais abaixo pode ser encontrado o desenvolvimento antinatural de hostilidade e ódio. Uma pessoa quando se distancia dos caminhos de Deus submerge no abismo da maldade demoníaca — o abismo do desejo estúpido e insensato de destruir e matar.

Se o sentimento de amor aquece, constrói e traz a vida; o ódio tudo destrói, invalida e prejudica. O aspecto mais assustador, é que a maioria das pessoas assemelham-se aos demônios em seus comportamentos, a maioria delas começam na experiência do prazer sádico em suas ações, provocando sofrimento às outras. Ao mesmo tempo, matando os outros não apresenta nenhum benefício direto, como por exemplo no mundo dos micróbios onde um come o outro por causa da sobrevivência. Aqui, o objetivo, é o processo atual de escárnio e destruição. Isto é um abismo satânico assustador, um buraco negro, do qual é impossível livrar-se.

É por isso que Cristo nos chama a lutarmos com todas as nossas forças, contra as nossas más tendências e a nos esforçarmos a amar a todos, inclusive aos nossos inimigos. Apesar do nosso bom senso e das razões práticas nos indicarem que devemos nos defender do inimigo; para o nosso bem espiritual é mais correto respondermos ao ódio, com amor. Nós precisamos aprender como o sacrifício temporário nos traz benefícios em prol das recompensas eternas. Deixemos que as pessoas nos olhem como seres estranhos, a vida futura revelará quem era realmente sensato. Deus sabe como é difícil ir contra o óbvio e superar os nossos instintos comuns para com nossos inimigos, por isso Ele nos dá assistência orientando-nos a orar por eles.

A oração possui uma enorme força espiritual. Em primeiro lugar ela nos ajuda a vencer os maus sentimentos que nos levam ao abismo do ódio. Em segundo lugar, orações pelo inimigo podem ajudá-lo a perceber os seus erros e a levá-lo a retomar o caminho verdadeiro. Desta maneira, salvando a ele e a si próprio, nós podemos participar da grande obra da salvação da humanidade, pela qual Nosso Senhor Jesus Cristo veio a Terra.

Conseqüentemente, cada vez que nós sacrificarmos um benefício e uma satisfação própria, a qual manifesta amor para com o próximo, nós subiremos um degrau mais próximo a Deus.

As pessoas valorizam o sucesso no esporte, nas ciências e nas artes, entretanto elas progredindo na capacidade de amar terão a mais elevada e autêntica forma da perfeição.

Portanto, vamos pedir a Deus a nos ensinar a amar, especialmente a Ele — Nosso Criador e Salvador.

A natureza mística do amor.

O que é amor? Como podemos definir este sentimento tão diverso em seus elementos e intensidade? Por exemplo, quando nós dizemos: “Eu amo café com leite, quente,” ou “Eu amo meus filhos,” nós expressamos sentimentos muito diferentes. No primeiro caso falamos da nossa preferência por algo que nos dá prazer; no segundo, falamos do nosso apego paternal às pessoas que nos são queridas.

Enquanto o nosso amor a Deus provem de nossos sentimentos de gratidão e veneração para com Ele, o nosso amor a um infeliz, a um órfão por exemplo, origina-se de nossas emoções de piedade e compaixão. O amor entre marido e mulher emerge de sentimentos totalmente distintos que são fundamentados biologicamente. O amor à família, ao seu povo, ou a sua pátria, também contem formas diferentes deste bom sentimento. É verdade que uma forma de amar não exclue a outra. Pode-se amar alguém pela aparência agradável, mas também pelas qualidades morais e ao mesmo tempo sentir piedade deste alguém.

O amor quase sempre vem imperceptivelmente como se fosse por si só. É fácil amar alguém que nos é agradável ou nos faz algum bem. Mas às vezes o amor exige algum esforço interior — por exemplo, quando temos que amar alguém que nos é desagradável ou que nos fez algum mal. Se a palavra “amor” traduz sentimentos tão diversos — deveríamos talvez chamá-la de diversas maneiras. Existe para isto em grego três palavras: “eros” que designa atração física, carnal; “agape” que significa o amor sublime, espiritual e a palavra “filia” que se traduz por sentimento de amizade. A lingua grega não permite confundir estes termos.

No entanto, não podemos negar, que embora as formas de amar sejam diferentes, elas tem algo que as une. Este algo comum é o sentimento agradável, luminoso e de felicidade que o amor concede a quem ama e ao amado. Leibnitz definiu o amor como: “Um sentimento de alegria, que procede da felicidade do próximo.” Na verdade, a natureza do amor é indefinível: ele parece ser um visitante daquele mundo ideal e perfeito, ao qual a nossa alma é atraída instintivamente, mas o que na sua plenitude e perfeição é ainda inacessível para nós.

Outra característica notável do amor é que ele parece formar uma ponte invisível entre os que se amam, tanto que os sentimentos e desejos parecem se transmitir de forma espontânea entre eles. Quem é que não conhece casos em sua vida, quando a alegria ou a tristeza da pessoa amada eram por si, recebidas como se fossem suas?

O Livro Histórico da Biblia 1Samuel ilustra essa natureza “unificante” do amor com o exemplo de Jônatas e Davi. Jônatas sendo filho de rei tinha todas as riquezas e luxos da vida, porém nada o confortava quando seu amigo Davi estava em perigo e para ajudá-lo ele era capaz dos maiores sacrifícios:

“E Jônatas fez a Davi este novo juramento, pelo amor que lhe tinha; porque o amava como a sua própria alma” (1Sam 20:17).

O amor tem ainda a força de atração e força criativa. Mais claramente observamos isto na atração mútua entre dois apaixonados. A Bíblia nos dá exemplos freqüentes de amor entre noivos, como semelhante ao amor entre Deus e pessoas justas. Todo o Livro Cântico dos Cânticos (supostamente escrito pelo rei Salomão) é dedicado ao tema do amor:

“Põe-me como selo sobre teu coração, como um selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte; o zelo do amor é tenaz como o inferno; as suas chamas de fogo, uma chama do Senhor. As muitas águas não puderam extinguir o amor, nem os rios terão força para o submergir. Ainda que um homem dê todas as riquezas de sua casa pelo amor, ele as desprezará como um nada” (Cânt 8:6-7).

Para resgatar Raquel, Jacó trabalhou para seu pai Labão durante 14 longos anos e fez isso com a maior alegria, porque a amava muito (Cf. Gên 29:20-30). O amor de Sansão à Dalila é um exemplo deste envolvente sentimento (Cf. Jz 16).

Em geral o amor é um sentimento excelente, até no seu nível imperfeito. Os primeiros indícios de amor podem ser observados no reino das criaturas irracionais. O amor natural ou instintivo se baseia na reciprocidade e se alimenta de gestos amistosos, favores, ações de auxílio mútuo e de prazer. Ele aparece em forma de amor familiar, parentesco, tribal, amizade e de comunidade. Ele reúne as pessoas e une-as em sociedade.

Se o próprio Deus é amor, então obviamente Seu Reino no Céu é impregnado de amor e respira amor. Este amor, como os raios do sol, enche tudo de harmonia e alegria.

Infelizmente o nosso mundo inferior ainda está muito afastado dessa perfeição, em muitos de nós este sentimento divino acha-se ainda em uma condição inacabada e fraca. Muitas vezes por causa da nossa falta de experiência ou por nossos pecados, o amor pode tomar um rumo errado e nos trazer mais danos do que bens. Às vezes o nosso amor é fraco e não vai além de um sentimento benevolente. Basta o nosso próximo sofrer algum pesar que requeira a nossa ajuda e solidariedade — aqui então nosso amor aparentemente se evapora e nós nos afastamos dele. Os maiores obstáculos do amor são o egoísmo e a vaidade, com os quais cada um de nós estamos contaminados em maior ou menor grau. Como Cristo profetizou às pessoas nos últimos dias:

“Por causa de se multiplicar a iniquidade, se resfriará a caridade de muitos” (Mat 24:12).

Se nós não refrearmos e não dirigirmos nossos desejos físicos, eles podem tomar a forma de uma vergonhosa paixão animal, a qual nada tem a ver com o verdadeiro amor. Há um fato conhecido na Bíblia, de um forte mas impuro amor de Amnon, um dos filhos do rei Davi, para com sua meio-irmã Tamar. Inflamado de paixão por ela Amnon não podia encontrar a paz, perdendo todo o interesse pela vida, deixando de comer, emagrecendo. Finalmente atraindo-a com artimanhas aos seus aposentos ele a possuiu. E o que resultou? Satisfeito os seus desejos, ele sentiu aversão para com aquela, sem a qual “ele não podia viver,” chegando a expulsá-la de perto de si:

“Amnon ganhou-lhe uma extrema aversão, de sorte que o ódio que concebeu contra ela excedia muito o amor que antes lhe tivera. E Amnon disse-lhe: Levanta-te e vai-te” (2Sam 13:15).

O amor para ser firme, deve estar baseado em sentimentos como: confiança, respeito, amizade… É difícil amar alguém a quem não se tem respeito e nem confiança. O amor é bom quando existe interesses e ideais mútuos.

O amor dos pais também requer o processo de direção e purificação espiritual. Não é bom para os pais fazerem de seus filhos pequenos “ídolos” — satisfazerem todos os seus caprichos e não freiarem suas más tendências. Acostumadas a serem o centro das atenções, essas crianças quando crescem tornam-se pessoas mimadas, não se adaptando na vida do dia a dia na sociedade. A Bíblia nos dá como bom exemplo o amor paterno excessivo do alto-sacerdote Heli. Ele nunca reprimia seus filhos quando eles faziam algo de errado. Tornando-se a si próprios sacerdotes, eles o auxiliavam no templo e ofendiam as pessoas que vinham orar e trazerem as suas oferendas a Deus. Heli sabia disto, mas não tentava nada para impedí-los dessas más ações e nem para mudar seus comportamentos. Eventualmente Deus puniu não somente os dois filhos, mas também ao próprio alto-sacerdote Heli, negando-lhe descendentes que fossem capaz de servir no templo:

“O arco dos fortes quebrou-se, e os fracos foram revestidos de força” (1Sam 2:4).

Estes e outros exemplos semelhantes provam que o amor necessita de auto-disciplina e direcionamento espiritual, caso contrário até os sentimentos mais benéficos podem levar a resultados trágicos. A outra deficiência em nosso amor, é que surgindo dentro de nós através de causas naturais e altruísticas, ele não é constante e é imperfeito.

Como não podemos amar aqueles os quais nós gostamos e que estão favoravelmente predispostos para conosco? Este tipo de amor instintivamente natural não requer nenhum esforço e não traz nenhum crescimento espiritual. Portanto:

“Porque, se amais (somente) os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis (nisso) de especial? Não fazem também assim os gentios? (Mt 5:46-47).

No entanto Deus quer que nosso sentimento de amor seja aperfeiçoado, se fortaleça dentro de nós e que sejamos atraídos para mais perto Dele a fim de obtermos o Seu amor.

“Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem. Deste modo sereis filhos do vosso Pai que está nos céus, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e manda a chuva sobre justos e injustos… Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5:44-48; Lc 6:27-36).

Tal amor cristão assim perfeito não vem por si só. Primeiro de tudo ele requer esforço interno e segundo a ajuda do Espírito Santo. Pessoas que não foram espiritualmente renovadas, são portanto incapazes de alcançarem esse nível elevado de amor. Deus chama-o “O Novo Mandamento”:

“Dou-vos um novo mandamento: Que vos ameis uns aos outros, e que, assim como eu vos amei, vos ameis também uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:34-35).

Nosso Senhor Jesus Cristo e Seus apóstolos mandam-nos chamar, a nos amarmos uns aos outros, porque o amor é a característica distintiva do verdadeiro cristão:

“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque a caridade vem de Deus. Todo o que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é caridade” (1Jo 4:7-8).

Aqui o critério de perfeição depende do nosso nível de altruísmo e de renúncia própria: quanto mais puro e forte for o nosso amor, tanto maior é a nossa disposição em ajudar a pessoa amada — até a conduta de total abnegação própria, sacrificando sua própria vida. Nosso Senhor Jesus Cristo diz sobre isto:

“O Meu preceito é este: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus amigos. Vós sois Meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando” (Jo 15:12-14).

A capacidade de amar com um amor cristão puro, vem especificamente do Espírito Santo e é testemunhado pelo apóstolo Paulo: “Ao contrário, o fruto do Espírito é a caridade…” (Gál 5:22).

A característica maravilhosa da primeira comunidade cristã, foi justamente seu forte amor mútuo, dado através da descida do Espírito Santo sobre eles:

“A multidão dos que criam tinha um só coração e uma só alma, e nenhum dizia ser sua coisa alguma daquelas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Os apóstolos, com grande coragem, davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus; e era grande em todos eles a graça. Não havia nenhum necessitado entre eles, porque todos os que possuíam campos ou casas, vendendo-os, traziam o preço do que vendiam, depunham-no aos pés dos apóstolos e distribuía-se por cada um segundo a sua necessidade” (At 4:32-35).

O nítido indício do amor pode ser claramente observado no estado de espírito dos fiéis: alegria, luminosidade interior, crescimento espiritual e a comunhão de sentimentos (quando a felicidade ou a tristeza de alguém é assimilada por outros como se fossem suas). Se esses indícios são raramente e ineficazmente sentidos nas escalas mais inferiores do desenvolvimento espiritual, nas escalas superiores eles emergem com toda sua força e clareza.

É importante lembrar que o autêntico amor cristão não é um atributo normal da nossa natureza, mas é concedido pelo Espírito Santo a todos aqueles que o procuram e que o alcançam. Sobre os efeitos invisíveis da graça do Espírito Santo no coração de um cristão São Macário disse:

“Assim como a abelha constrói o favo na colméia invisível para o olho humano, assim a graça divina constrói secretamente o amor no coração de uma pessoa, mudando o rancor para a afetuosidade e um coração cruel para um coração bondoso. Como um mestre ourives criando uma filigrana em uma gravura, aos poucos ele a cobre de ornamentos, mostrando-a em toda a sua beleza somente depois que ele completou o seu trabalho. Assim do mesmo modo nosso verdadeiro Artesão, o Senhor, embeleza nossos corações com uma filigrana, renovando-os misteriosamente, até o tempo em que nós emigrarmos de nosso corpo, revelando a beleza de nossa alma” (Philokalia, Ed. russa, v.1).

Enquanto o amor físico requer estímulo e razões externas agradáveis para ser fortalecido, o amor espiritual não necessita de condições externas; ele vem através do caminho misterioso de Deus e conduz o coração da pessoa para sua fonte primária. Conseqüentemente, a pessoa que está farta desse amor, sente uma crescente sede de contato com Deus. Se o amor físico é às vezes tão forte que nos impele a grandes sacrifícios pela pessoa amada, quanto imensuravelmente mais forte pode ser o amor espiritual que nos conduz a Deus. É esse amor espiritual que motivou muitos fiéis a distribuírem suas riquezas aos necessitados, a deixarem suas famílias e posições favoráveis na sociedade e a dedicarem suas vidas a Deus.

Sentindo um forte estímulo deste amor, o apóstolo Paulo escreveu:

“Quem nos separará, pois, do amor de Cristo? A tribulação? ou a angústia? ou a fome? ou a nudez? ou o perigo? ou a perseguição? ou a espada?… Mas de todas estas coisas saímos mais que vencedores por Aquele que nos amou. Porque eu estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo Nosso Senhor” (Rom 8:35-39; 1Cor 13).

Muitas pessoas honradas estavam familiarizadas com tais tipos de emoções. Por exemplo, São Macário o Grande descreve esta condição do seguinte modo:

“A alma que ama sinceramente a Deus, mesmo que tenha realizado milhares de boas obras, devido sua insatisfeita ansiedade por Deus, considera a si própria como se nunca tivesse realizado nada. Embora tenha debilitado o seu corpo através do jejum e do trabalho, ainda assim ela pensa que não começou a acumular boas obras. Mesmo que ela tenha alcançado a honra de ter muitas graças espirituais, de revelação, de mistérios divinos, por causa do seu enorme amor a Deus ela julga que nada adquiriu” (Philokalia, Ed. russa, v.1).

Portanto, a capacidade de amar é implantada em nós pelo nosso Criador. É neste sentimento de amor que são baseadas todas as formas de vida familiar e social. O amor une as pessoas, incentiva-as a fazerem o bem, lhes dá energia, alegria e as estimula a terem um objetivo na vida. No entanto, somente o amor natural, é insuficiente. Para se ter êxito neste sentimento divino, tem que se convencer a si mesmo a amar aqueles dos quais não gostamos, ou aqueles os quais nos causam ofensas. Este amor espiritual nos guiará ao longo do caminho do progresso até a nossa fonte primária — Deus. No entanto, é preciso ser lembrado, que sem a graça do Espírito Santo, nossa natureza corrompida é incapaz de um amor puro.

Por isto vamos pedir e implorar a Deus para aumentar em nós o amor cristão. Porque somente através da posse desse tesouro em nossos corações, estaremos aptos a olhar os dons materiais com apatia e indiferença — mas o mais importante, é nós termos compreendido e sentido realmente com grande clareza, que a comunicação com Deus é a mais elevada forma de benevolência e alegria.

Lembrando-nos Daquele que nos ama.

“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados…” (Ef 5:1).

Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é caridade” (1João 4:8).

Deus é um mar infinito e abrangente de amor, que tudo vivifica. Do maior ao menor, tudo que existe — visível ou invisível, inclusive cada molécula do nosso ser — é obra do amor imponderável e da sabedoria Dele. Por isso, seria natural que a nossa maior prioridade fosse agradecermos constantemente o nosso Criador — não só porque ele tirou-nos da inexistênca, dando-nos a vida, mas também pelo Seu zelo paternal conosco.

Mesmo sem precisar de ninguém, Deus criou-nos somente pela bondade Dele, para que pudéssemos tomar parte da vida eterna no paraíso. Seu amor paternal torna-se evidente no cuidado com a criação da nossa natureza humana e daquela morada onde deveríamos viver. Tendo um ser humano a necessidade de tão pouco para viver, podia se limitar ao mais essencial. Mas não, Deus, em Sua grande generosidade criou este universo infinito com as suas galáxias e sistemas estelares incontáveis, com toda a opulência e grandiosa beleza que tanto encantam a nossa mente e deliciam o coração.

Quem é suficientemente digno de descrever a beleza da criação de Deus e apreciá-la devidamente: o azul do céu, o calor revigorante do sol, a imensidão dos mares, a grandiosidade das montanhas, a vastidão das planícies, a brancura da neve, a fragrância das ervas e flores, o canto dos pássaros e o murmúrio dos riachos…? Como uma mãe carinhosa cuidando do filho, o Criador enriqueceu o nosso mundo com uma variedade imensa de alimentos, que nos fortalecem e dão prazer, e com uma infinidade de plantas e ervas para curar e fortalecer a nossa saúde. Enfim, tudo ao nosso redor, até a menor partícula, testemunha a generosidade e o cuidado paternal do nosso Criador!

Por isso é que os mais notáveis sábios e filósofos, contemplando a natureza, obtinham as suas mais luminosas idéias, e os poetas, compositores e pintores, os mais sensíveis espiritualmente, inspirados pela sua beleza, criavam suas obras mais geniais. Não somente os seres humanos, mas também tudo o que vive, sente a necessidade de glorificar o Criador pela Sua sabedoria e benevolência. Temos como testemunha o iluminado apóstolo São João, quando ouviu os habitantes celestes entoando os hinos:

“Tu és digno, ó Senhor nosso Deus, de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas, e pela Tua vontade é que elas existem e foram criadas” (Rev 4:11).

“A toda a criatura que há no céu, sobre a terra e debaixo da terra, às que há no mar, a todas as coisas que se encontram nestes (lugares), a todas ouvi dizer: Ao que está sentado sobre o trono e ao Cordeiro, bênção, honra, glória e poder, pelos séculos dos séculos” (Rev 5:13).

Como se juntando ao louvor universal, o sacerdote durante a liturgia também agradece ao Criador em nome de todos, falando: “É digno e justo louvar-Te, abençoar-Te, glorificar-Te, agradecer-Te e adorar-Te em toda a parte do Teu Reino, porque és o Deus inexprimível, inescrutável pela razão, invisível, incompreensível, sempre existente, eternamente o mesmo; Tu e Teu Filho Unigênito e o Teu Espírito Santo. Tu, da inexistência nos conduziste à existência. E depois de nossa queda, levantaste-nos de novo e realizaste tudo para conduzir-nos até o céu, dando-nos o Teu futuro Reino Celeste. Por todas estas graças agradecemos-Te e ao Teu Filho Unigênito e ao Teu Espírito Santo. Agradecemos a todos os Teus benefícios, os que conhecemos e os que não conhecemos, aos revelados e aos não revelados. Agradecemos-Te pela presente celebração deste ofício através de nossas mãos e pela aceitação dele, apesar de Tu seres servido por milhares de Arcanjos e muitos milhares de Anjos, Querubins e Serafins, que alados voam nas alturas celestes.”

Não é somente por sermos presenteados com a vida que devemos louvar ao Senhor, mas pelo Seu constante cuidado conosco e misericórdia — não só no plano universal mas em cada acontecimento em particular, tanto que nem a mínima coisa do nosso cotidiano escapa da Sua atenção paternal, e que cada fio de cabelo nosso é contado por Ele (cf. Luc 12:6-7).

Reconhecendo isto por experiência própria o rei Davi se lembrava:

“Bendize, ó minha alma, o Senhor, e não esqueças nenhum dos Seus benefícios. É Ele quem perdoa todas as tuas maldades, e quem sara todas as tuas enfermidades. É Ele quem resgata da morte a tua vida, e quem te coroa da Sua misericórdia e das Suas graças. É Ele quem sacia com bens o teu desejo, renovar-se-á como a da águia a tua mocidade… O Senhor é compassivo e misericordioso, paciente e de muita misericórdia. Não ficará irado para sempre, nem ameaçará perpetuamente” (Sal 102:2-9).

“… O Senhor dá liberdade aos cativos. O Senhor levanta os caídos; o Senhor ama os justos” (Sal 145:7-8).

Mas a maior e mais imponderável obra da misericórdia de Deus pela qual temos que agradecê-Lo incessantemente, é por Ele nos ter mandado o Seu Único Filho, Senhor Jesus Cristo.

“… para que todo o que crê Nele, não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (João 3:16).

Se os primeiros seres humanos tivessem guardado a retidão moral com a qual Deus os dotou, nós seus descendentes, não conheceríamos nem doenças, nem sofrimentos, nem desgraças e nem a morte, mas iríamos desfrutar para sempre da Vida Eterna no paraíso. Todos os nossos infortúnios são resultados do pecado original de nossos ancestrais e também de nossos próprios pecados.

Pecado — não é simplesmente um capricho ou uma desobediência, mas uma grave e insolente rebelação contra o Legislador Supremo. Seria muito melhor para Deus ter destruído os homens como corrompidos e impuros, mas em vez disso, Ele como é misericordioso, desde o primeiro dia da transgressão de nossos antepassados, começou a conduzir pacientemente o destino da humanidade para a sua renovação espiritual.

Todo o período do Antigo Testamento foi o tempo de preparação da raça humana para a vinda do Messias — o Salvador. Foi um processo longo e complicado de ensinamento às pessoas para a fé e a criação de condições (infra-estrutura) que pudessem promover a disseminação do cristianismo pelo mundo todo.

A essência do grande feito redentor realizado pelo Filho de Deus, é claramente elucidada com a série de parábolas do Evangelho, como por exemplo: a ovelha perdida, a figueira estéril, o filho pródigo e o Bom Pastor. Assim, a humanidade se perdeu como a infeliz ovelha e o Bom Pastor foi procurá-la pelas montanhas e desertos; encontrando-a quase morta Ele não a fez andar mas carregou-a carinhosamente nos ombros. Cristo não nos ensinou somente como crer e viver, mas carregou nos ombros o pesado fardo dos nossos pecados e sofreu os castigos que nós merecíamos sofrer — a Sua incomum misericórdia e amor! Essa grande obra redentora não se refere somente ao passado histórico, mas até hoje, Deus perdoa a cada um de nós e nos renova espiritualmente pelo

sofrimento na Cruz de Seu Filho Unigênito. Apesar de nós transgredirmos diariamente os Seus mandamentos ofendendo-O com nossos pecados, Ele espera pacientemente que no final, criemos juízo; e tudo isso porque: “… O qual quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tim 2:4).

Nosso Senhor Jesus Cristo nos ama tanto — escreve o ancião Siluan — que nem podemos imaginar como. Ele nos ama como Seus filhos e o Seu amor é mais forte que o amor de mãe, porque até uma mãe pode esquecer seu filho, mas Ele nunca nos esquece…

Ele nos ama de tal maneira, que por nossa causa Se encarnou, derramou o Seu sangue e ofereceu-O para que tomassemos juntamente com o Seu puríssimo Corpo; e assim, pela ingestão de Sua Carne e de Seu Sangue nos tornamos Seus filhos semelhantes a Ele em carne, como os filhos se parecem com os pais independente da idade, e o Espírito Divino testemunha ao nosso espírito, que sempre estaremos com Ele.

A infeliz crueldade do pecado e a terrível dispersão nas preocupações mundanas é que faz o nosso coração insensível, tanto que a maioria das vezes nem sequer notamos as obras da benevolência de Deus, nem damos valor aos cuidados paternos Dele para conosco. De fato, as pessoas estão tão preocupadas em conseguir bens materiais, que não só esquecem de agradecer ao seu Salvador e Criador, mas também nem sequer lembram-se Dele; para eles, é como se Deus não existisse. Mas é paradoxal: quando essas pessoas são atingidas por alguma desgraça ou doença, instintivamente elas se lembram que Deus existe. Infelizmente nesse momento, elas lembram-se Dele não para pedir perdão e ajuda, mas com um sentimento de rancor: “Por que Ele me castiga assim! Tem tanta gente pior do que eu e que está em boa situação e eu é que fui castigado!”

Ter rancor contra Deus — é uma grande loucura e uma injustiça em relação Àquele que tudo faz para o nosso bem. As próprias pessoas se afastaram Dele pecando diariamente, transgredindo todas as normas morais, ofendendo-se mutuamente e depois O culpam pelo mal que elas semearam. Na verdade elas O recriminam por Ele nos ter dado o livre arbítrio e não nos impedir de fazer aquilo que queremos. Deus espera longa e pacientemente e não castiga, porque: “…Diz o Senhor Deus, que não quero a morte do ímpio, mas sim que se converta do seu mau proceder e viva…” (Ez 33:11).

Os infortúnios nesta vida não são castigos mas lembretes de que não somos eternos e que todos seremos postos perante o Juiz, a fim de respondermos por nossas ações como explica o apóstolo Paulo:

“Mas, quando nós somos julgados, somos castigados pelo Senhor, para não sermos condenados com este mundo” (1Cor 11:32).

O pai humano também castiga os filhos não para vingar-se deles, mas para ensiná-los, sofrendo com isso ele próprio, porque ele os quer bem.

A ponderação da misericórdia de Deus é ilustrada na seguinte história Bíblica:

“Davi disse a Deus: Eu cometi um grande pecado em fazer isto, peço-Te que perdoes a culpa ao Teu servo, porque procedi nesciamente. O Senhor falou a Gad, vidente de Davi, dizendo: Vai, fala a Davi e dize-lhe: Eis o que diz o Senhor: Eu te dou três coisas à escolha: escolhe uma qual quiseres, e eu ta farei. Tendo ido Gad à presença de Davi, disse-lhe: Eis o que diz o Senhor: Escolhe o que quiseres: Ou sofrer a fome durante três anos, ou fugir diante dos teus inimigos durante três meses, sem poderes escapar da sua espada; ou estar debaixo da espada do Senhor durante três dias, grassando a peste pelo país, e fazendo estragos o anjo do Senhor em todas as terras de Israel. Vê, pois, agora que ei de responder a quem me enviou. Davi respondeu a Gad: De toda a parte me vejo em grandes angústias; mas para mim é melhor cair nas mãos do Senhor, porque é de muita misericórdia, do que cair nas mãos dos homens. Mandou pois o Senhor a peste a Israel, e morreram de Israel setenta mil homens” (1Crôn 21:8-14).

Santo Antonio o Grande, assim explica o sentido da “ira” em relação a Deus: “Deus é permanentemente benevolente. Se alguém indaga: como Ele se alegra com os bons e repudia os maus? Como Ele se zanga com os pecadores e como Ele lhes é clemente quando eles se arrependem? Para isso é preciso dizer que na verdade, o Senhor não Se alegra e nem Se zanga, que a alegria e a ira — são sentimentos das pessoas limitadas. É absurdo imaginarmos que algo seja para Deus bom ou ruim por causa das ações humanas. Deus é a própria bondade e só faz o bem, nunca faz mal a ninguém, permanecendo sempre igual. Quando nós somos bons, nos aproximamos Dele pela melhança, e quando nós somos maus, nos afastamos Dele pela desigualdade… Deste modo falar que Deus se afasta dos maus é o mesmo que dizer que o sol se esconde dos privados da visão” (Philokalia, v.1).

Toda provação e dificuldade nesta vida deve ser vista como admoestação, que nos é mandada para a nossa reabilitação. “Assim como a mãe ensina sua criança a caminhar,” —esclarece São João de Kronstadt — “assim o Senhor nos ensina a fé viva Nele. A mãe põe a criança em pé e se afasta chamando-a para si. A criança chora sem o apoio da mãe, quer andar até ela, mas tem medo de dar o passo, tenta andar e cai. Assim também o Senhor ensina o cristão a obter a fé Nele. Nossa fé é fraca como uma criança aprendendo a andar. Deus se afasta do cristão por um tempo e deixa acontecer-lhe algumas adversidades e depois quando se torna necessário, Ele o ajuda. O Senhor nos manda olhar e caminhar até Ele. O cristão tenta vê-Lo mas o seu coração não está preparado para ver a Deus, ele se atemoriza, tropeça e cai. Porém o Senhor está ao seu lado e pronto para amparar o fraco cristão em Seus braços. Por isso em qualquer ocasião de sofrimento ou provação (intrigas do diabo), aprenda a ver o Salvador com os olhos do seu coração. Sem temor, olhe para Ele como para um tesouro inesgotável de bondade e implore pela Sua ajuda. Imediatamente, receberá o que pede. A coisa mais importante é ter uma visão sincera de Deus e a esperança Nele como um Ser Todo Bondoso. Isto é verdade por experiência! Assim o Senhor nos ensina a reconhecermos a nossa impotência e a termos fé Nele.”

Por isso, vamos nos lembrar diariamente de quanto fortemente somos amados pelo Senhor, e quanto Ele fez e continua fazendo por nós para nos salvar.

O que não poupou nem o Seu próprio Filho, mas por nós todos o entregou, como não nos dará também com Ele todas as coisas?” (Rom 8:32).

De um lado, estas lembranças fortalecerão em nós o sentimento de gratidão a Deus, por outro lado contribuirão para que tratemos melhor as pessoas ao nosso redor, assim como está escrito:

“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados,…” (Ef 5:1).

Pensemos nesta frase: nós somos criaturas insignificantes, incapazes de imitar a Deus de nenhuma maneira — nem na Sua onipotência, nem na Sua onipresença, nem em qualquer outra de Suas divinas características. No entanto, nós podemos e devemos seguir os passos de Seu amor! E isto para nós, é uma grande honra:

“Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6:36).

Amor a Deus e ao próximo.

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma,” de todo o teu espírito. Este é o máximo e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22:37-39).

Essa maravilhosa declaração resume a essência dos ensinamentos das Escrituras Sagradas, em sua forma extremamente sucínta e compreensível, como explicou nosso Senhor Jesus Cristo: “Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas” (Mt 22:40).

Entretanto, uma dúvida surge imediatamente: Se o amor é um sentimento completo, seria mais simples dizer “ame a todos” e tudo seria conduzido por um simples mandamento. Conforme veremos mais adiante, o amor ao Criador deve ocupar um lugar especialmente sagrado em nosso coração, de modo que nosso amor pela criação não se torne idolatria. De fato, o amor a Deus enobrece, direciona e aquece todas as outras manifestações desse bom sentimento.

Se todo o ensinamento das Escrituras Sagradas resume-se em dois curtos mandamentos, isso significa que o restante Nela é supérfluo? Não é assim, porque sob a simplicidade aparente dos mandamentos existe uma grande profundidade. Aprender a amar verdadeira e autenticamente é uma ciência das ciências, pois: “Sobretudo, porém, tende caridade, que é o vínculo da perfeição” (Col 3:14). A finalidade da Bíblia é instruir-nos como amar correta e verdadeiramente com ensinamentos e exemplos vivos adaptados às mais variadas situações da vida.

Devemos antes de tudo aprender amar a Deus de tal maneira, que esse sentimento preencha e transforme todo nosso ser ― ilumine nossa mente, aqueηa nosso coração, direcione nossos desejos e todas nossas ações ― em outras palavras, que Deus torne-Se a coisa mais procurada e mais importante em nossa vida. É também considerável amar ao próximo como a si mesmo, mas não tão intensamente como se deve amar a Deus.

O pai Doroteus ilustra a relação entre o amor a Deus e ao próximo com o seguinte exemplo: ele diz, “Deixe-nos imaginar um grande círculo. Deixe-nos supor, que o círculo é nosso mundo, que o centro desse círculo é Deus e que os pontos nesse círculo são pessoas. Alguns estão mais próximos do centro, isto é, de Deus, outros estão mais longe Dele. À medida que as pessoas aproximam-se do centro com seu amor a Deus, através dessa mesma medida elas se aproximam entre si. Ao contrário, quanto mais as pessoas afastam-se entre si com desavenças, simultaneamente mais elas se distanciam de Deus. Assim, é a natureza do amor: quanto mais nos aproximamos das pessoas, mais nos aproximamos de Deus.”

Embora Deus limite-Se a um mundo inatingível, Ele está próximo de cada um de nós como Pai e Salvador ao mesmo tempo. Esse é o porquê, podemos e devemos amá-Lo. Nós temos aqui alguns exemplos concretos.

Quando amamos alguém, queremos estar com a pessoa amada e sofremos quando estamos separados dela. Da mesma maneira, se amamos verdadeiramente a Deus, deveríamos encontrar prazer, estando em comunhão com Ele. Por exemplo, orando, entramos em um certo contato misterioso com Ele, porém, um contato real e de sentimento. Nós podemos rezar em qualquer lugar e a qualquer hora: sózinhos em casa, no trabalho, na estrada ou no meio da natureza. Um cristão fiel é favorecido de uma proximidade maior de Deus especialmente na Igreja, pois Ele prometeu: “Porque onde se acham dois ou três congregados em Meu nome, aí estou Eu no meio deles” (Mt 18:20). A pessoa estando em comunhão constante com Deus por meio das orações, ela se torna um templo vivo como explica o apóstolo Paulo:“Porventura não sabeis que os vossos membros são templo do Espírito Santo, que habita em vós, que vos foi dado por Deus, e que não pertenceis a vós mesmos?” (1Cor 6:19) e dessa maneira ela estará sempre junta do Amado.

Quando amamos alguém, tememos ofendê-lo de qualquer modo, tanto que nossas palavras e ações são direcionadas para agradá-lo. Do mesmo modo, devemos condicionar-nos a sermos reverentes perante a Deus (a “temê-Lo”) e evitarmos de todas as maneiras “magoá-Lo” com pensamento ou ato pecaminoso. “Se Me amais, observareis os Meus mandamentos” (Jo 14:15).

Quando amamos alguém profundamente, torna-se-nos mais importante o bem estar e a felicidade desse alguém do que a nossa própria. Igualmente, deveríamos aprender a direcionar todas nossas ações para a glória de Deus e contribuir de todas as maneiras para a propagação de Seu Reino de Bondade entre os homens. “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5:16).

Amar a Deus é entregar-nos totalmente à Sua vontade. Se algum acontecimento desagradável ou alguma tribulação nos atinge, devemos acreditar que Deus permitiu isso para nossa felicidade, salvação e benefício espiritual ― não somente segundo os planos da eternidade, mas também “Para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom 8:28). Em outras palavras, quando nos entregamos com fé à vontade Dele, Ele até mesmo converte as decepções e os infortúnios em nosso benefício.

Nas situações difíceis devemos lembrar que Deus é amor. Por causa de nós pecadores ingratos, Ele entregou Seu Filho Unigênito: “A fim de que todo o que crê Nele tenha a vida eterna” (Jo 3:15).

Sabendo que o amor é um sentimento perceptível e concreto, podemos demonstrar como ele é profundo e sincero a Deus, analisando nossos pensamentos e nossos sentimentos. Por exemplo, se encontramos prazer em pensamentos obscenos, se temos raiva de alguém, se estamos fortemente presos a algo mundano, se não sentimos disposição para orar ou se a leitura das Escrituras Sagradas aborrece-nos, isso significa que nosso amor a Deus é fraco ou que talvez ele esteja morrendo. Então, temos que verificar, se criamos para nós um ídolo mundano, ao qual estamos servindo em lugar de nosso Criador, “Porque onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração” (Mt 6:21).

No início, nosso amor poderá ser fraco e vacilante. Entretanto, se ele for sincero e tiver a ajuda de Deus, ele aumentará na intensidade como uma faísca e começará a transformar nosso mundo interior. Paralela a essa transformação interior, haverá mudanças em nossos interesses, idéias e senso de valores. Aquilo que antes para nós era interessante e agradável, começará a parecer aborrecido e superficial. Assim, começaremos a preferir um bom livro ou a orar em isolamento, em lugar de teatros, danças e filmes. Dinheiro, conforto e outras dádivas terrenas parecerão de importância secundária para nós. Ir à igreja, participar da Santa Comunhão ou realizar uma ação caridosa tornar-se-á uma tarefa agradável e importante.

Dessa forma, passaremos a compreender aquelas pessoas, que por amor a Deus abandonavam suas famílias e todos os bens terrenos, dedicando-se a serví-Lo. Elas suportavam para a glória de Deus todos os tipos de humilhação, assim como, perseguições, ofensas, espancamentos e até mesmo a morte angustiante como mártires. O apóstolo Paulo, por exemplo, era muito rico e teve uma formação brilhante em sua juventude. Todas as portas estavam abertas para ele por ser um cidadão romano. Apesar disso, ele desprezou todas essas vantagens e se submeteu espontaneamente à inúmeras privações, perseguições, espancamentos, trabalhos, sofrimentos e dor para a difusão do Evangelho.

Ele considerava tudo isso uma honra e um privilégio, o que para outros poderia parecer um grande infortúnio.

“Quem nos separará, pois, do amor de Cristo? A tribulação? ou a angústia? ou a fome? ou a nudez? ou o perigo? ou a perseguição? ou a espada? Segundo está escrito: “Por Ti somos entregues à morte todos os dias, somos reputados como ovelhas para o matadouro.” Mas de todas estas coisas saímos mais que vencedores por Aquele que nos amou. Porque eu estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo nosso Senhor” (Rom 8:35-39).

Assim, se pode tornar forte o fogo de nosso amor a Deus!

Mesmo quando esse amor não é tão intenso como no exemplo citado, ele renovará nossas forças espirituais. De fato, o amor a Deus dá-nos a capacidade de amarmos, até mesmo aqueles que não merecem devido aos seus pecados de ingratidão, orgulho, egoísmo, arrogância, capricho, grosseirísmo, engano, individualísmo, etc. Quem ama a Deus tem uma visão espiritual diante de si, Daquele “O Qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e manda a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5:45) e se lembra do que Ele disse:

“Porque, se amais (somente) os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis (nisso) de especial? Não fazem também assim os gentios? Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5:46-48; Lc 6:27-36).

O bem-aventurado Diadoque assim escreveu sobre a força aquecedora do amor: “Quando uma pessoa sente o amor de Deus, ela começa a amar o seu próximo e começando a amar não para mais… Enquanto que o amor carnal evapora-se por qualquer razão insignificante, o amor espiritual permanece. A alma que ama a Deus e que se encontra sob o efeito da ação Divina, não rompe o vínculo do amor mesmo quando é maltratada. Ainda que tenha suportado do próximo alguma mágoa, mas aquecida pelo amor de Deus, ela volta rapidamente à sua condição benevolente anterior e de bom grado restabelece dentro de si o sentimento de amor a seu semelhante. Nessa alma, o rancor da divergência é completamente tragado pela ternura Divina.”

Por outro lado, se não amamos ao nosso próximo, é impossível amarmos a Deus verdadeiramente. O santo apóstolo João o Teólogo escreve:

“Se alguém disser: ― eu amo a Deus ― e odiar o seu irmγo, é um mentiroso. Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a Quem não vê? Temos de Deus este mandamento: que aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4:20-21). “O que tiver bens deste mundo, e vir o seu irmão em necessidade e lhe fechar o seu coração, como está nele a caridade de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra e com a língua, mas por obra e em verdade” (1Jo 3:17-18).

Todas as religiões reconhecem a virtude do amor ― porém, quase todas restringem essa virtude àqueles que lhes são agradáveis ou próximos de si. Por exemplo, a interpretação do Judaísmo no Antigo Testamento e a prática do Torá ensinava claramente: “Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo” (Mt 5:43). Somente o Cristianismo remove todas as barreiras humanas e nos chama amar a todos incondicionalmente. À pergunta quem é o meu próximo, Cristo explica em Sua parábola do bom samaritano, que o próximo é todo aquele que tem necessidade de ajuda independentemente de sua crença religiosa, nacionalidade ou outras características (cf. Lc 10:25-37).

A característica distintiva de um cristão deve ser o amor abrangente a todos e não somente uma vida contemplativa com precisa observância dos rituais e profunda compreensão dos dogmas. Como Cristo ordenou a seus seguidores: “Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:35).

O mandamento ordena amar ao próximo como a nós mesmos. Entretanto, não se pode dizer, que a capacidade de amar aos outros seja diretamente proporcional ao amor que se tem por si. A experiência monstra que ocorre exatamente o contrário: quanto mais uma pessoa se ama, menos ela consegue amar ao próximo. O egoísmo e o egocentrísmo destroem o verdadeiro amor. Nosso Senhor disse: “Por causa de se multiplicar a iniqüidade, se resfriará a caridade de muitos” (Mt 24:12).

O bem-aventurado Diadoque escreveu: “Quem ama a si próprio não pode amar totalmente a Deus, mas quem não ama a si, pela razão de seu profundo amor a Ele, só esse O ama verdadeiramente. Tal pessoa nunca desejaria a glória para si, mas somente para Ele… A alma amante a Deus e repleta de sentimentos Divinos, procura naturalmente a Ele a glória ― e a si o prazer da humildade. Devido ΰ Sua grandeza, Deus merece a glória ― e o homem a humildade.”

Embora o amor de uma pessoa por si própria sirva como medida de seu amor ao próximo, no entanto “Não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus amigos” (Jo 15:13; ver também Mt 5:42-48). Aqui, nosso Salvador vem a ser o maior exemplo: “Nisto conhecemos o amor de Deus: em ter dado a Sua vida por nós; igualmente nós devemos também dar a vida pelos nossos irmãos” (1Jo 3:16). O pai Pimen escreveu o seguinte sobre essa questão subjetiva: “Se alguém ouvir uma palavra ofensiva e ao invés de respondê-la com igual ofensa, controlar seus sentimentos e permanecer em silêncio ou se alguém for trapaceado e suportar isso sem vingar-se, ele estará dando sua vida ao próximo.”

Contrastando com outras religiões, o conceito de amor aos inimigos é uma virtude característica do Cristianismo. Nosso Senhor Jesus Cristo ensina: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem. Deste modo sereis filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:44-45). “Se alguém te ferir na tua face direita, apresenta-lhe também a outra; e ao que quer chamar-te a juízo para te tirar a túnica cede-lhe também a capa” (Mt 5:39-40).

O Antigo Testamento admitia a vingança “olho por olho, dente por dente” (Lev 24:20), pois nos tempos pré cristãos as pessoas não estavam ainda renovadas espiritualmente, elas eram incapazes de se elevar aos sentimentos do perdão e de amor aos inimigos. O cristão é chamado a aniquilar dentro de si todos os sentimentos maléficos ― e isso ι de tamanha importância, que o perdão de nossos pecados é condicionado ao perdão que temos para com o próximo: “Perdoa-nos, as nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido” (Mt 6:12).

Naturalmente que para perdoarmos ao inimigo, requer de nossa parte um grande esforço interno, nobreza e até mesmo ajuda do Alto. Nosso relacionamento com aqueles que consideramos nossos “inimigos,” sem dúvida alguma, abriga muita subjetividade. Algumas pessoas são mais pressupostas e sensíveis que outras; algumas são impetuosas e outras de temperamento calmo. É interessante notar a seguinte tendência: quanto mais uma pessoa é apegada aos bens materiais, quanto mais vaidosa, egocêntrica e orgulhosa, tanto mais rápido ela se ofende com os outros. Ao contrário, quanto mais ela é inclinada para o espiritual, quanto mais modesta e humilde, tanto mais fácil para ela é suportar as mágoas e perdoá-las rapidamente. Conseqüentemente, se temos raiva de alguém, seria benéfico determinarmos porque nos subjugamos a esse sentimento tão mau. Não seria isso o indício de que possuímos alguma coisa má em nossa alma?

Além disso, quando alguém nos magoa ou nos priva de algo, não é uma calamidade tão grande, afinal de contas tudo nesse mundo é temporário. É muito pior levarmos em nossos corações o veneno da raiva, porque a inimizade torna-nos deprimidos, tristes, irritáveis, hostis e incapazes de nos alegrarmos com outras dádivas da vida e de estarmos em contato com Deus. Imaginemos, que uma pessoa tenha sido verdadeiramente má para nós. Porque envenenarmos nossas vidas e arruinarmos nossas almas? É indispensável para nosso bem estar interior eliminarmos todos os sentimentos ruins de nosso ser, exatamente como afirma o Evangelho: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rom 12:21). São Jõao de Kronstadt, o justo, esclarece: “A vida do coração é o amor, e a sua morte ― o ódio e a inimizade. Deus mantém-nos aqui na terra, justamente para que o amor penetre totalmente em nossos corações: esse é o propósito de nossa existência.”

As pessoas muitas vezes têm medo de perdoar aos seus ofensores, porque não querem passar-se por tolas e não querem mais ser atormentadas por eles. Precisamos colocar-nos acima desses medos mesquinhos, que são implantados pelo demônio. O amor aproxima-nos de Deus, assemelha-nos a Ele e traz consigo todo o Seu poder invencível. São João o Teólogo, o apóstolo do amor, escreve: “Nisto é perfeita em nós a caridade de Deus, pelo fato de termos confiança para o dia do juízo, pois, assim como Ele é, também nós o somos neste mundo. Na caridade não há temor; a caridade perfeita lança fora o temor, porque o temor supõe pena; e aquele que teme, não é perfeito na caridade. Nós, portanto, amemos a Deus, porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4:17-19).

De qualquer modo, o amor aos inimigos ― reais ou imaginαrios ― exige sempre um grande esforηo interior. Justamente por essa razão ele é generosamente recompensado por Deus. O apóstolo São Pedro recomenda: “Sobretudo tende uns para com os outros uma caridade ardente, “porque a caridade cobre a multidão dos pecados” (1Pdr 4:8). Os Santos Pais da Igreja aconselham-nos: “Se tu quiseres que Deus ouça a tua oração, ore primeiro pelo teu inimigo.” Em condições normais, as duas formas de amor (a Deus e ao próximo) fortalecem uma à outra. Entretanto, algumas vezes pode surgir um conflito grave, quando temos que escolher entre ser fiéis a Deus ou fazer algo agradável para a pessoa amada. Nesse caso, devemos preferir a lealdade a Deus, porque como o Senhor disse: “O que ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e o que ama o filho ao a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim” (Mt 10:37). Mesmo quando a pessoa é para nós a coisa mais querida do mundo, pela qual somos capazes de dar a vida, não devemos ceder, caso essa pessoa induza-nos ao pecado ou contra os ensinamentos do Evangelho. É melhor perder a sua amizade do que trair a Deus. É esse tipo de sacrifício que Deus exige de nós, como Ele disse: “E, se a tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é melhor para ti que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na geena” (Mt 5:30).

Se Adão não tivesse submetido-se à esposa, mas tivesse permanecido fiel a Deus (cf. Gên 3), certamente não haveria no mundo tanto mal e a história da humanidade tivesse seguido por um caminhocompletamente diferente ― muito melhor. Por isso, nos ι indispensável, não confundirmos as duas formas de amor, e em caso de conflito, devemos manter-nos fiel a Deus custe o que custar, mesmo que esteja em jogo a nossa própria vida.

Muitas pessoas têm medo do amor, porque se sentem incapazes de se entregarem totalmente às boas ações. Elas têm medo de trabalhos, tarefas, sacrifícios e pobreza, que são segundo dizem associados a isso. Devemos compreender ao mesmo tempo, que o amor não é muitas obras, mas sim sentimentos. Quanto fizemos não é tão importante, mas com que sentimento o fizemos. Nós podemos fazer muito, mas por causa de nossa irritabilidade, grosseria, arrogância e outros defeitos ofendemos àqueles, os quais desejávamos ajudar ou então repelimos aqueles que trabalham conosco.

Por isso, é muito importante alimentar dentro de si inicialmente bons sentimentos em relação às pessoas. O apóstolo Paulo explica perfeitamente a essência do amor: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa, ou como um címbalo que tine. E ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e tivesse toda a fé, até ao ponto de transportar montes, se não tivesse caidade, não seria nada” (1Cor 13:1-2).

Mais adiante, ele explica, quais são os sentimentos próprios do amor e quais não o são:

“A caridade é paciente, é benéfica; a caridade não é invejosa, não é temerária; não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. A caridade nunca há de acabar, mas as profecias passarão, as línguas cessarão e a ciência será abolida” (1Cor 13:4-8).

Partindo desses ensinamentos magníficos, chegamos a outros ensinamentos, para os quais devemos nos esforçar:

  • Manter um estado de espírito tranqüilo, prosseguir modestamente e silenciosamente assim como São Serafim de Sarov nos ensinou: “Adquire a paz espiritual e milhares ao redor de ti serão salvos.”
  • Tratar as pessoas com confiança e benevolência.
  • Desejar o bem a todos.
  • Não manifestar superioridade, mas omití-la e fazer concessões às pessoas.
  • Tentar não notar as falhas das outras pessoas e se obrigar sempre a pensar bem delas.
  • Não julgar os outros e não tentar analisar seus defeitos, mas ao contrário, tentar falar alguma coisa boa sobre eles.
  • Suportar pacientemente as ofensas e não se mostrar ofendido.
  • Rezar pelos outros.
  • Ouvir pacientemente uma pessoa aflita e tentar animá-la com uma palavra generosa.
  • Se for necessário falar a verdade na face de uma pessoa, faça isso calmamente sem irritação. Se isso der trabalho, é melhor rezar por ela.
  • Quando ajudar alguém, é importante fazer com delicadeza, de modo que o recebedor não se sinta devedor.

O mais extraordinário de tudo isso é que todas essas manifestações de amor não exigem praticamente nenhum esforço externo, mas somente uma ação benevolente e boa vontade.

Em geral, não nos é necessário tentar “grandes obras” ou façanhas, mas tentarmos entender até certo ponto para o que Deus está nos chamando. Caso contrário, podemos mais prejudicar do que fazer o bem através de nossa precipitação e auto-confiança. Diariamente, em diversas ocasiões, Deus apresenta-nos oportunidades, através das quais podemos realizar pequenas obras de caridade… e muitos grãos de areia podem ter mais valor do que uma pedra grande. Todo ato de bondade que realizamos a outra pessoa através de nossos sentimentos de compaixão, Deus aceita como se nós tivéssemos feito para Ele: “Na verdade vos digo que todas as vezes que vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt 25:40).

Conclusão.

Assim, o amor é uma grande disciplina, que é impossível se aprender durante toda a vida. No entanto, não há necessidade de nos desesperarmos; temos a vida futura pela frente, na qual seremos capazes de progredir nesse sentimento soberano das virtudes.

Citaremos para concluir as palavras de São Máximo o Confessor: “Devemos amar a todas as pessoas com todo nosso coração, depositar nossa confiança em Deus e servir somente a Ele com todas as nossas forças. Porque enquanto Ele nos proteje, todos nossos amigos permanecerão favoráveis e os inimigos sem forças. Quando Ele nos deixar, nossos amigos voltar-se-ão contra nós e os inimigos seguramente predominarão. Os amigos de Cristo amam a todos sinceramente, embora eles próprios não sejam amados por todos.”

Folheto Missionário número P67

Copyright © 2001Holy Trinity Orthodox Mission

466 Foothill Blvd, Box 397, La Canada, Ca 91011

Editor: Bishop Alexander (Mileant)

Fonte: http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/amor_p.htm

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