Experiência do Deserto

26 05 2015

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“… e esses homens estão longe de si mesmos, como ébrios de bebida, ébrios em espírito de mistério e de Deus”. (Pseudo-Macário, Homilias Espirituais).

Solidão, silêncio e oração incessante configuram o conceito central da espiritualidade do deserto, que tem grande valor para nós que vivemos situações sempre novas e desafiadoras como cristãos. Já ensinava São Paulo apóstolo: “Orai incessantemente” (1 Ts 5,17) foi fundamental para vida ascética dos Padres do Deserto, eremitas, monges e monjas.

Os Padres do Deserto foram eremitasascetasmonges e monjas que viviam majoritariamente no deserto da Nítria (Scetes), no Egito a partir do século III d.C. O mais conhecido deles foi Santo Antão (ou Santo Antônio, o Grande), que mudou-se para o deserto em 270-271 e se tornou conhecido tanto como o pai quanto o fundador do monasticismo no deserto. Quando Antão morreu em 356, milhares de monges e freiras tinham sido atraídos para a vida no deserto seguindo o exemplo do grande santo. Seu biógrafo, o doutor da Igreja Santo Atanásio de Alexandria, escreveu que “o deserto tinha se tornado uma cidade”.

Nos séculos III e  IV da era cristã os desertos da Síria e do Egito viram afluir em grande número homens como Santo Antão, São Pacômio, São Macário e Paulo de Tebas  que, respondendo ao chamado de Jesus Cristo, deixaram a vida do mundo para se dedicarem a uma vida com Deus no deserto,  na solidão e na oração, ali fundando os primeiros mosteiros da história cristã. Estes monges se tornaram conhecidos como os padres (ou pais) do deserto. Surgia, assim, uma nova sociedade à margem da antiga; comunidades de ascetas que, com o nome de lauras, sketes, coenobia, se tornariam, na solidão do deserto, o modelo da cidade vindoura, a Jerusalém Celeste.

Três principais tipos de monasticismo se desenvolveram no Egito à volta dos Padres do Deserto. Um foi à vida austera do eremita, como praticado pelo próprio Antão e seus seguidores no Baixo Egito. Outro foi a vida cenobita, comunidades de monges e monjas no Alto Egito formadas por São Pacômio. O terceiro foi uma vida semi-eremita vista principalmente na Nítria e em Scetes, a oeste do Nilo, iniciada por Santo Amum. Estes últimos eram pequenos grupos (de dois a seis) de monges e freiras com um ancião em comum – os grupos separados se reuniam em aglomerações maiores para a celebração dos sábados e domingos. Este terceiro grupo monástico foi responsável pela maior parte dos ditados que foram compilados na obra “Ditados dos Pais do Deserto”.

Sinclética, Mãe do Deserto, disse: “No começo, há luta e muito trabalho para os que se aproximam de Deus. Mas, depois disso, há uma indescritível alegria. É como acender uma fogueira: no início há muita fumaça e seus olhos lacrimejam, mas depois você consegue o resultado desejado. Assim devemos acender o fogo divino em nós mesmos, com lágrimas e esforço”.

Charles de Foucauld

Um dos principais fatores da caminhada do Padre Charles de Foucauld (1858-1916),  foi a redescoberta do deserto. Ele era uma pessoa prática, de ação e inquieto, vai descobrir que apesar de toda técnica e conhecimento moderno, o bom Deus ainda deve ser encontrado na solidão e no silêncio do deserto. Ele escreveu: “É no deserto que nos despojamos, que afastamos de nós o que não é Deus, esvaziando completamente a pequena morada de nossa alma, para deixar todo o lugar exclusivamente só para Deus”.

“Nos primeiros anos do século XX, um francês amante da literatura e da vida de aventuras, renomado explorador, teve a oportunidade de viver uma das mais sugestivas aventuras cristãs do século passado. Charles de Foucauld, o monge que sozinho construía tabernáculos no deserto argelino para “transportar” Jesus para o meio àqueles que não o conheciam nem o buscavam, e que morreu assassinado por aqueles mesmos tuaregues entre os quais escolhera viver, em silêncio e oração, sem ter ganhado entre eles ne­nhum novo cristão. Sua história tão irrepetível constitui um dom de alento e de conforto”, escreveu o jornalista e escritor italiano Gianni Valente (1).

Charles de Foucauld recusou por muito tempo o termo missionário: “A minha vida aqui não é a de um missionário, mas a de um eremita” escreveu a Henry de Castries 28 out 1905 (2). A 2 de Julho de 1907, que mesmo escreveu a Mgr. Guérin, destacando as palavras “Eu sou um monge, não um missionário, feita para o silêncio, para não falar ” (3). Esta recusa em ser chamado missionário levou-o a querer desenvolver um apostolado da presença silenciosa, “incógnito”. Em correspondência, Charles acredita que esta presença é essencial, a fim de “gritar com a vida o Evangelho de Cristo”.

Charles de Foucauld afirmou: “Quero passar sobre a terra de maneira obscura como um viajante à noite”. “Viver na pobreza, na abjeção, no sofrimento, na solidão, no abandono para estar na vida com o meu Mestre, o meu Irmão, o meu Esposo, o meu Deus, que viveu assim toda a sua vida e me dá esse exemplo desde o nascimento”. “A vossa vocação: Pregar o Evangelho silenciosamente como eu fiz na minha vida escondida, e como também fez Maria e José”.

Se para o Bem-Aventurado Charles de Foucauld o deserto foi de fato e de verdade o deserto do Saara, onde viveu 16 anos, para seus filhos espirituais este “deserto” consiste agora em participar de retiros espirituais, retirar-se em lugares isolados, de preferência em contato com a natureza, para assim despojamos diante de Deus, poder melhor escutá-lo, adorá-lo e amá-lo eternamente.

A experiência do deserto é um profundo encontro com Deus e uma comunhão de amor em prol da missão de gritar o Evangelho de Cristo com a vida.

Pe. Inácio José do Vale

Fraternidade Sacerdotal JesusCáritas

Notas:

(1) Fonte: http://www.30giorni.it/articoli_id_7974_l6.htm

(2)  Foucauld, Letters to Henry de Castries , Paris, Grasset, 1938, p. 177.

(3) Citado em J.-F. Six. Itinerário espiritual de Charles de Foucauld , Paris, Seuil, 1958, p. 280.

Bibliografia

NOUWEN, Henri J. M. A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo – O Caminho do Coração. São Paulo: Ed. Loyola, 2000.

HAMMAN, E. Os Padres da Igreja, São Paulo: Ed. Paulinas, 1980.

LACARRIÈRE, Jacques. Padres do Deserto. São Paulo: Ed. Loyola, 1996.

CHRYSSAVGIS, John.  Ware, Kallistos. Ward, Benedicta. In the Heart of the Desert: Revised Edition: The Spirituality of the Desert Fathers and Mothers (Treasures of the World’s Religions). Bloomington, Ind.: World Wisdom, 2008.

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