Nascimento e a Juventude de Antão

6 04 2015

s-antonioabade18

Antão foi egípcio de nascimento. Seus pais eram de boa linhagem e abastados. Como eram cristãos, também o menino cresceu como cristão. Quando menino viveu com seus pais, só conhecendo sua família e sua casa; quando cresceu e se fez moço e avançou em idade, não quis ir à escola [7], desejando evitar a companhia de outros meninos; seu único desejo era, como diz a Escritura acerca de Jacó (Gn 25,27), levar uma simples vida no lar. Supõe-se que ia à igreja com seus pais, e aí não demonstrava o desinteresse de um menino nem o desprezo dos jovens por tais coisas. Ao contrário, obedecendo aos pais, prestava atenção às leituras e guardava cuidadosamente no coração o proveito que delas extraía. Além disso, sem abusar das fáceis condições em que vivia como criança, nunca importunou seus pais pedindo manjares caros ou finos, nem tinha prazer algum em coisas semelhantes. Ficava satisfeito com o que se lhe punha adiante e não pedia mais [8].

2.3 – A VOCAÇÃO DE ANTÃO E SEUS PRIMEIROS PASSOS NA VIDA ASCÉTICA

Depois da morte de seus pais ficou só com sua única irmã, muito mais jovem. Tinha então uns dezoito a vinte anos, e tomou cuidado da casa e de sua irmã. Menos de seis meses depois da morte de seus pais, ia, como de costume, a caminho da igreja. Enquanto caminhava, ia meditando e refletia como os apóstolos deixaram tudo, e seguiram o Salvador (Mt 4,20;19,27); como, segundo se refere nos Atos (4,35-37), os fiéis vendiam o que tinham e o punham aos pés dos Apóstolos para distribuição entre os necessitados, e quão grande é a esperança prometida nos céus para os que assim fazem (Ef 1,18; Col 1,5). Pensando estas coisas, entrou na igreja. Aconteceu que nesse momento se estava lendo o evangelho, e ouviu a passagem em que o Senhor disse ao jovem rico: “Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres, depois vem, segue-me e terás um tesouro no céu ” (Mt 19,21). Como se Deus lhe houvera proposto a lembrança dos santos, e como se a leitura houvesse sido dirigida especialmente a ele [9], Antão saiu imediatamente da igreja e deu a propriedade que tinha de seus antepassados: trezentas “aruras” [10], terra muito fértil e formosa. Não quis que nem ele nem sua irmã tivessem algo que ver com ela. Vendeu tudo o mais, os bens móveis que possuía, e entregou aos pobres a considerável soma recebida, deixando só um pouco para sua irmã [11].

3. De novo, porém, entrando na igreja, ouviu aquela palavra do Senhor no evangelho: “Não se preocupem do amanhã” (Mt 6,34). Não pôde suportar maior espera, mas foi e distribuiu aos pobres também este pouco [12]. Colocou sua irmã entre virgens conhecidas e de confiança, entregando-a para que a educassem [13]. Então ele dedicou todo seu tempo à vida ascética, atento a si mesmo e vivendo de renúncia a si mesmo, perto de sua própria casa. Ainda não existiam tantas celas monásticas no Egito, e nenhum monge conhecia sequer o longínquo deserto. Todo o que desejava enfrentar-se consigo mesmo, servindo a Cristo, praticava sozinho a vida ascética, não longe de sua aldeia. Naquele tempo havia na aldeia vizinha um ancião que desde sua juventude levava na solidão a vida ascética. Quando Antão o viu, “teve zelo pelo bem” (Gl 4,18), e se estabeleceu imediatamente na vizinhança da cidade. Desde então, quando ouvia que em alguma parte havia uma alma esforçada, ia, como sábia abelha, buscá-la e não voltava sem havê-la visto; só depois de haver recebido, por assim dizer, provisões para sua jornada de virtude, regressava. Aí, pois, passou o tempo de sua iniciação, se afirmou sua determinação de não voltar à casa de seus pais nem de pensar em seus parentes, mas a dedicar todas as suas inclinações e energias à prática contínua da via ascética. Fazia trabalho manual pois tinha ouvido que “o que não quer trabalhar não tem direito de comer” (2 Ts 3,10). Do que recebia guardava algo para sua manutenção e o resto dava-o aos pobres. Orava constantemente [14], tendo aprendido que devemos orar em privado (Mt 6,6) sem cessar (Lc 18,1; 21,36; 1 Ts 5,17). Além disso, estava tão atento à leitura da Sagrada Escritura, que nada se lhe escapava: retinha tudo [15], e assim sua memória lhe servia de livros.

4. Assim vivia Antão e era amado por todos.Por seu lado, submetia-se com toda sinceridade aos homens piedosos que visitava, e se esforçava por aprender aquilo em que cada um o avantajava em zelo e prática ascética. Observava a bondade de um, a seriedade de outro na oração; estudava a aprazível quietude de um e a afabilidade de outro; fixava sua atenção nas vigílias observadas por um e nos estudo de outro; admirava um por sua paciência, a outro por jejuar e dormir no chão, considerava atentamente a humildade de um e a paciente abstinência de outro; e em uns e outros notava especialmente a devoção a Cristo e o amor que mutuamente se tinham [16]. Havendo-se assim saciado, voltava a seu lugar de vida ascética. Então se apropriava do que havia obtido de cada um e dedicava todas as suas energias a realizar em si as virtudes de todos (17). Não tinha disputas com ninguém de sua idade, nem tampouco queria ser inferior a eles no melhor; e ainda isto fazia-o de tal modo que ninguém se sentia ofendido, mas todos se alegravam com ele. E assim todos os aldeões e os monges com os quais estava unido viram que classe de homem era ele e o chamavam “o amigo de Deus” (18), amando-o como filho ou irmão. Leia Mais

2.4 – PRIMEIROS COMBATES COM OS DEMÔNIOS

Mas o demônio, que odeia e inveja o bem, não podia ver tal resolução num jovem, e se pôs a empregar suas velhas táticas também contra ele (19). Primeiro tratou de fazê-lo desertar da vida ascética recordando-lhe sua propriedade, o cuidado de sua irmã, os apegos da parentela, o amor do dinheiro, o amor à glória, os inumeráveis prazeres da mesa e todas as demais coisas agradáveis da vida. Finalmente apresentou-lhe a austeridade e tudo o que se segue a essa virtude, sugerindo-lhe que o corpo é fraco e o tempo é longo. Em resumo, despertou em sua mente toda uma nuvem de argumentos, procurando fazê-lo abandonar seu firme propósito. O inimigo viu, no entanto, que era impotente em face da determinação de Antão, e que antes era ele que estava sendo vencido pela firmeza do homem, derrotado por sua sólida fé e sua constante oração. Pôs então toda a sua confiança nas armas que estão “nos músculos de seu ventre” (Jo 40,16). Jactando-se delas, pois são sua preferida artimanha contra os jovens, atacou o jovem molestando-o de noite e instigando-o de dia, de tal modo que até os que viam Antão podiam aperceber-se da luta que se travava entre os dois. O inimigo queria sugerir-lhe pensamentos baixos, mas ele os dissipava com orações; procurava incitá-lo ao prazer, mas Antão, envergonhado, cingia seu corpo com sua fé, orações e jejuns. Atreveu-se então o perverso demônio a disfarçar-se em mulher e fazer-se passar por ela em todas as formas possíveis durante a noite, só para enganar a Antão. Mas ele encheu seus pensamentos de Cristo, refletiu sobre a nobreza da alma criada por Ele, e sua espiritualidade, e assim apagou o carvão ardente da tentação. E quando de novo o inimigo lhe sugeriu o encanto sedutor do prazer, Antão, enfadado com razão, e entristecido, manteve seus propósitos com a ameaça do fogo e dos vermes (cf Jd 16,21; Sir 7,19; Is 66,24; Mc 9,48) (20). Sustentando isto no alto, como escudo, passou por tudo sem se dobrar. Toda essa experiência levou o inimigo a envergonhar-se. Em verdade, ele, que pensara ser como Deus, fez-se louco ante a resistência de um homem. Ele, que em sua presunção desdenhava carne e sangue, foi agora derrotado por um homem de carne em sua carne. Verdadeiramente o Senhor trabalhava com este homem, Ele que por nós tornou-se carne e deu a seu corpo a vitória sobre o demônio. assim, todos os que combatem seriamente podem dizer: “Não eu, mas a graça de Deus comigo” (1 Cor 15,10).

6. Finalmente, quando o dragão não pôde conquistar Antão nem por estes últimos meios, mas viu-se arrojado de seu coração, rangendo seus dentes, como diz a Escritura (Mc 9,17), mudou, por assim dizer, sua pessoa. Tal como é seu coração, assim lhe apareceu: como um moço preto (21); e como inclinando-se diante dele, já não o molestou com pensamentos – pois o impostor tinha sido lançado fora – mas usando voz humana disse-lhe: “A muitos enganei e venci; mas agora que te ataquei a ti e a teus esforços como o fiz com tantos outros, mostrei-me demasiadamente fraco”. “Quem és tu que me falas assim?”, perguntou-lhe Antão. Apressou-se o outro a replicar com a voz lastimosa: “Sou o amante da fornicação. Minha missão é espreitar a juventude e seduzi-la; chamam-me o espírito de fornicação. A quantos eu enganei, decididos que estavam a cuidar de seus sentidos! A quantas pessoas castas seduzi com minhas lisonjas! Eu sou aquele por cuja causa o profeta censura os decaídos: “Foram enganados pelos espírito da fornicação” (Os 4,12). Sim, fui eu que os levei à queda. Fui eu que tanto te molestei e tão a miúdo fui vencido por ti”. Antão deu, pois, graças ao Senhor e armando-se de coragem contra ele, disse: “És então inteiramente desprezível; és negro em tua alma e tão débil como um menino. Doravante já não me causas nenhuma preocupação, porque o Senhor está comigo e me auxilia: verei a derrota de meus adversários” (Sl 117, 7). Ouvindo isto, o negro desapareceu imediatamente, inclinando-se a tais palavras e temendo acercar-se do homem.

2.5 – ANTÃO AUMENTA SUA AUSTERIDADE

Esta foi a primeira vitória de Antão sobre o demônio; ou melhor, digamos que este singular êxito em Antão foi do Salvador, que “condenou o pecado na carne, a fim de que a justificação prescrita pela Lei, fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8,3-4). Mas Antão não se descuidou nem se acreditou garantido por si mesmo pelos simples fato de se ter o demônio lançado a seus pés; tampouco o inimigo, ainda que vencido no combate, deixou de estar-lhe à espreita. andava dando voltas em redor, como um leão (1 Pd 5,8), buscando uma ocasião contra ele. Antão, porém, tendo aprendido nas Escrituras quão diversos são os enganos do maligno (Ef 6,11), praticou seriamente a vida ascética, tendo em conta que, se não pudesse seduzir seu coração pelo prazer do corpo, trataria certamente de enganá-lo por algum outro método; porque o amor do demônio é o pecado. Resolveu, por isso, acostumar-se a um modo mais austero de vida. Mortificou seu corpo sempre mais, e o sujeitou, para não acontecer que, tendo vencido numa ocasião, perdesse em outra (1 Cor9,27). Muitos se maravilhavam de suas austeridades, porém ele próprio as suportava com facilidade. O zelo que havia penetrado sua alma por tanto tempo transformou-se pelo costume em segunda natureza, de modo que ainda a menor inspiração recebida de outros levava-o a responder com grande entusiasmo. Por exemplo, observava as vigílias noturnas com tal determinação, que a míudo passava toda a noite sem dormir, e isso não só uma vez mas muitas, para admiração de todos. Assim também comia só uma vez ao dia, depois do cair do sol; às vezes cada dois dias, e com freqüência tomava seu alimento só depois de quatro dias. Sua alimentação consistia em pão e sal; como bebida tomava só água. Não necessitamos sequer mencionar carne ou vinho, porque tais coisas tampouco se encontravam entre os demais ascetas. Contentava-se em dormir sobre uma esteira, embora regularmente o fizesse sobre o simples chão. Despreza o uso de unguentos para a pele, dizendo que os jovens devem praticar a vida ascética com seriedade e não andar buscando coisas que amolecem o corpo; deviam antes acostumar-se ao trabalho duro, tendo em conta as palavras do Apóstolo: “É na fraqueza que se revela minha força” (2 Cor 12,10). Dizia que as energias da alma aumentam quanto mais débeis são os desejos do corpo. Além disto estava absolutamente convencido do seguinte: pensava que apreciaria seu progresso na virtude e seu conseqüente afastamento do mundo não pelo tempo passado nisto mas por seu apego e dedicação. Assim, não se preocupava com o passar do tempo, mas dia por dia, como se estivesse começando a vida ascética, fazia os maiores esforços rumo à perfeição. Gostava de repetir a si mesmo as palavras de S. Paulo: “Esquecer-me do que fica para trás e esforçar-me por alcançar o que está adiante” (Fl 3,13), recordando também a voz do profeta Elias: “Viva o Senhor em cuja presença estou neste dia” (1 Rs 17,1; 18,15). Observava que, ao dizer “este dia”, não estava contando o tempo que havia passado, mas, como que começando de novo, trabalhava duro cada dia para fazer de si mesmo alguém que pudesse aparecer diante de Deus: puro de coração e disposto a seguir Sua vontade. E costumava dizer que a vida levada pelo grande Elias devia ser para o asceta como um espelho no qual poderia sempre mirar a própria vida.

2.6 – ANTÃO RECLUSO NOS SEPULCROS: MAIS LUTAS COM OS DEMÔNIOS

Assim dominou-se Antão a si mesmo. Decidiu então mudar-se para os sepulcros (22) que se achavam a certa distância da aldeia. Pediu a um de seus familiares que lhe levasse pão a longos intervalos. Entrou, pois, em uma das tumbas; o mencionado homem fechou a porta atrás dele, e assim ficou dentro sozinho. Isto era mais do que o inimigo podia suportar, pois em verdade temia que agora fosse encher também o deserto com a vida ascética. Assim chegou uma noite com um grande número de demônios e o açoitou tão implacavelmente que ficou lançado no chão, sem fala pela dor. Afirmava que a dor era tão forte que os golpes não podiam ter sido infligidos por homem algum para causar semelhante tormento. Pela Providência de Deus – porque o Senhor não abandona os que nele esperam – seu parente chegou no dia seguinte trazendo-lhe pão. Quando abriu a porta e o viu atirado no chão como morto, levantou-o e o levou até a igreja da aldeia e o depositou sobre o solo. Muitos de seus parentes e da gente da aldeia sentaram-se em volta de Antão como para velar um cadáver. Mas pela meia-noite Antão recobrou o conhecimento e despertou. Quando viu que todos estavam dormindo e só seu amigo se achava desperto, fez-lhe sinais para que se aproximasse e pediu-lhe que o levantasse e levasse de novo para os sepulcros, sem despertar ninguém.

9. O homem levou-o de volta, a porta foi trancada como antes e de novo ficou dentro, sozinho. Pelos golpes recebidos estava demasiado fraco para manter-se de pé; orava então, estendido no solo. Terminada sua oração, gritou: “Aqui estou eu, Antão, que não me acovardei com teus golpes, e ainda que mais me dês, nada me separará do amor de Cristo (Rm 8,35). E começou a cantar: “Se um exército se acampar contra mim, meu coração não temerá” (Sl 26,3). Tais eram os pensamentos e palavras do asceta, mas o que odeia o bem, o inimigo assombrado de que depois de todos os golpes ainda tivesse valor para voltar, chamou seus cães (23) e arrebatado de raiva disse: “Vêem vocês que não pudemos deter esse tipo nem com o espírito de fornicação nem com os golpes; ao contrário, chega até a desafiar-nos. Vamos proceder contra ele de outro modo”. A função de malfeitor não é difícil para o demônio. Essa noite, por isso, fizeram tal estrépito que o lugar parecia sacudido por um terremoto. Era como se os demônios abrissem passagens pelas quatro paredes do recinto, invadindo impetuosamente através delas em forma de bestas ferozes e répteis. De repente todo o lugar se encheu de imagens fantasmagóricas de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos; cada qual se movia segundo o exemplar que havia assumido. O leão rugia, pronto a saltar sobre ele; o touro, quase a atravessá-lo com os chifres; a serpente retorcia-se sem o alcançar completamente; o lobo acometia-o de frente (24). E a gritaria armada simultaneamente por todas essas aparições era espantosa, e a fúria que mostravam, feroz. Antão, atormentado e pungido por eles, sentia aumentar a dor em seu corpo; no entanto, permanecia sem medo e com o espírito vigilante. Gemia, é verdade, pela dor que atormentava seu corpo, mas a mente era senhora da situação e, como por debique, dizia-lhes: “Se tivessem poder sobre mim, teria bastado que viesse um só de vocês; mas o Senhor lhes tirou a força e por isso se esforçam em fazer-me perder o juízo com seu número; é sinal de fraqueza terem de imitar animais ferozes”. De novo teve a valentia de dizer-lhes: “Se é que podem, se é que receberam poder sobre mim, não se demorem, venham ao ataque! E se nada podem, para que esforçar-se tanto sem nenhum fim? Porque a fé em Nosso Senhor é selo para nós e muro de salvação”. Assim, depois de haver intentado muitas argúcias, rangeram os dentes contra ele, porque eram eles próprios que estavam ficando loucos e não ele.

10. De novo o Senhor não se esqueceu de Antão em sua luta, mas veio ajudá-lo. Pois quando olhou para cima, viu como se o teto se abrisse e um raio de luz baixasse até ele. Foram-se os demônios de repente, cessou-lhe a dor do corpo, e o edifício estava restaurado como antes. Notando que a ajuda chegara, Antão respirou livremente e sentiu-se aliviado de suas dores. E perguntou à visão: “onde estavas tu? Por que não aparecestes no começo para deter minhas dores?” E uma voz lhe falou: “Antão, eu estava aqui, mas esperava ver-te enquanto agias. E agora, porque agüentaste sem te renderes, serei sempre teu auxílio e te tornarei famoso em toda parte”. Ouvindo isto, levantou-se e orou: e ficou tão fortalecido que sentiu seu corpo mais vigoroso que antes. Tinha por aquele tempo uns trinta e cinco anos de idade.


2.7 – NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da “Vida”.

E = versão latina de Evágrio.

As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da “Vida”.

E = versão latina de Evágrio.

[1] O título que traz E é provavelmente o original: Athanasius episcopus ad peregrinos fratres. A palavra latina “frater” (irmão) foi usada pela latinidade cristã com o sentido de “irmão em Cristo”, “cristão”. Na literatura monástica “irmão” chegou a ser sinônimo de “monge”. MEYER 106; LORIE 34 ss.; LAMPE 30.

[2] Trata-se de monges ocidentais, que, parece, pediram a Santo Atanásio esse servió. O patriarca esteve relegado em Tréveris em 336/337; em março de 340 foi de novo deportado; desta vez esteve em Roma. Visitou Milão e voltou a Tréveris.

[3] O sentido original de “monge” é do que vive em solidão. Quando o monaquismo se foi estruturando para maior comunidade de vida, a palavra foi ampliando seu sentido. Denota qualquer monge, viva solitário ou em mosteiro. A insistência de Santo Atanásio em sublinhar a solidão de Santo Antão indica que usa a palavra em seu sentido original. Por outro lado, porém, já devia estar consciente da ampliação do significado, pelas características dos monges ocidentais que conheceu, e também por sua convivência com os monges de São Pacômio, entre os quais passou seus últimos desterros; pois bem, eles não eram solitários, mas monges de vida comunitária. LAMPE 878 SSL; LORIE 24 ss.; COLOMBAS 40 SS.

[4] A “ascesis”, que significa “exercício, prática, treino”, designa em linguagem cristão o estudo das Escrituras, a prática das virtudes, a vida devota, a disciplina espiritual, a vida austera. Como termo técnico designa a vida monástica e suas práticas. Santo Atanásio a utiliza neste sentido, mas com todos os matizes anteriores. É a tarefa própria dos monges, que exige toda classe de virtudes e modificações, requer um exercício contínuo e tem como finalidade a perfeição, não por amor a si mesmo mas por amor a Deus. Seu fruto é a sabedoria espiritual, com a pureza do coração, o discernimento dos espíritos, a consciência da presença de Deus e o gozo de sua comunicação. O sentido fundamental é, no entanto, a austera e difícil disciplina de si mesmo. LAMPE 244; LORIE 55 ss.

[5] Literalmente, “Mosteiros”. Originalmente a palavra designava a habitação de um solitário. Paulatinamente, e passando pela organização de colônias de solitários (44, 2-4), o termo se aplica à residência dos monges de vida comunitária. Para evitar a conotação já demasiado precisa de “mosteiro”, preferimos nesta versão “cela” ou “cela monástica”. LAMPE 878; MEYER 111; LORIE 43 ss.; COLOMBAS 75-76.

[6] Uma variante do texto gego – “já que fui sem companheiro e verti água em suas mãos” – mostra Santo Atanásio como discípulo e companheiro de cela de Sasnto Antão. A maior parte dos críticos se inclina para a variante que traduzimos no texto. MEYER 106; L.V. Hertling, “Studio storici antoniani”, Stud. Ans. 38 (1956), 23; COLOMBAS 51.

[7] Talvez não deva ser isto tomado muito ao pé da letra. É mais provável que Santo Atanásio desde o começo da “Vida” esteja interessado em assinalar a contraposição entre sabedoria divina e rusticidade humana. Cv 20,4; 33,5; 72,1; 73,3. Em todo caso, Santo Atanásio não possuía a cultura grega, uma vez que para falar com gregos necessita de intérprete. Cf também nota (73).

[8] É difícil determinar com segurança a certeza histórica dos detalhes desta descrição da infância de Santo Antão. Este teria sido desde menino um pequeno asceta. Não se pode negar a tendência edificante. A hagiografia posterior abusou amplamente deste recurso até fazer incríveis as infâncias dos santos. Mas ainda assim, a existência concreta de meninos santos e certas indicações da psicologia infantil deveriam acautelar-nos contra uma repulsa absoluta do conteúdo deste capítulo.

[9] Cf Santo AGOSTINHO, Confissões, 8,12.29.

[10] Uma “arura” – m/m 2.700m2. A extensão correspondia mais ou menos a 80 Has.

[11] E (PL 73, 128 A) acrescenta: mais necessitada por seu sexo e idade.

[12] Os “Apoftegmas dos Padres” (Antão 20; PG 65, 81 C; PL 73, 772 C; Guy 25; Dion 87) relatam: “Um irmão havia renunciado ao mundo e distribuído seus bens aos pobres, reservando-se porém um pouco. Veio a Antão que, informado do assunto, disse-lhe: Se queres ser monge, vai à cidade, compra carne, cobre com ela teu corpo nu, e volta. O irmão assim o fez. Vieram então cães e aves e lhe dilaceraram o corpo. De volta a Antão, este lhe perguntou se havia seguido seu conselho. Mostrou-lhe então seu corpo dilacerado. Disse-lhe Antão: Os que renunciam ao mundo e querem guardar dinheiro, são assim dilacerados quando os demônios os atacam”.

[13] Esta seria a primeira vez que aparece a palavra “parthenoôn” no sentido cristão de “casa ou grupo de virgens”. Todavia, nessa época precoce (c 271), as mulheres religiosas viviam geralmente com suas famílias, embora se reunissem para exercícios comuns. Mais tarde, a “Vida” nos diz que a irmã de Antão foi superiora de um grupo de virgens (54,6). Mas uma variante do texto grego, apoiada por diversas versões, traz: consagrou sua irmã “à virgindade’. MEYER, 107; COLOMBAS 58. Seguimos a E, deixando a imprecisão.

[14] A doutrina da oração incessante goza de tradição ininterrupta na literatura monástica. O tema como tal, que provém do ensino do N.T., foi desenvolvido especialmente pela escola alexandrina, como Clemente e Orígenes. Conseguiu-se estabelecer que muitas idéias destes dois doutores, ainda que não todas, acham-se na “Vida”. A oração incessante não é, entretanto, um ponto isolado mas acha-se estreitamente unido à prática da virtude e à pureza do coração. Segundo a “Vida”, a vida ascética tende à recuperação, para a alma, do estado em que foi criada por Deus antes do pecado. A isto se chega pela prática constante e decidida da renúncia, da abnegação, da mortificação. Mas em todo esse processo para a pureza do coração, a oração constitui o elemento central que é simultaneamente meio e fim da vida ascética. A oração é, por sua vez, sustentada pela leitura (ou memorização) e meditação da Escritura. A meta final é aquela perfeita paz do espírito que nada, externa nem internamente, pode perturar, por que todo o ser do monge está penetrado das coisas de Deus. A oração incessante é a contemplação amorosa do que Deus fez e lutou no monge e pelo monge. Cf M.J. MARX, “Incessant Pryer in the Vita Antonii”, Stud. Ans. 38 (1956) 208-135.

[15] Reminiscência de Lc 8,15. De mais de um monge se dizia que sabia de cor a Escritura, como por ex. apa Or, apa Amón, ou os monges pacomianos, segundo Paládio em sua “História Lausíaca” MEYER 108.

[16] Conforme o ensinamento do NT. aparece aqui a suma e essência de toda vida santa: o amor a Deus e ao próximo, com a nota tipicamente atanasiana de um marcado cristocentrismo. Tal como no NT, conhecem-se diversas listas de virtudes, e a mesma “Vida” apresenta outra em 17,7.

[17] Sempre foi traço característico dos monges antigos o desejo de aprender de outros, imitando suas virtudes mais salientes. No entanto, é interessante notar que na “Vida” não se trata de um afã exibicionista por estabelecer uma espécie de competição ao respeito. Sempre destaca o perfeito equilíbrio espiritual de Santo Antão e o profundo respeito pelos carismas alheios.

[18] “Amigos de Deus” é o título que a Escritura atribui ao patriarca Abraão e aos profetas ou geral; c. Tiago 2,23; Sb 7,27; 2 Cr 20,7; Is 41,8; Judite 8,22; de Moisés: Ex 33,11; Nm 12,8. Apoiada na linguagem bíblica, a tradição cristã desde os primeiros séculos chamou “amigos de Deus” os justos que gozavam da graça ou do favor particular de Deus (cf Jo 15,15). E.T. BETTENCOURT, “L’idéal religieux de S. Antoine”, Stud. Ans. 38 (1956) 48; B. STEIDLE, “Homo Dei Antonius”, ib. 189 ss.

[19] O tempo e a experiência fizeram o diabo um perito em manhas. Cf S. Cipriano, ad Fortun. 2: “Adversarius vetus est… usu ipso vetustatis edididicit.” Cf também S. Jerônimo, Ep. 22,7.29; Ep. 125,12. Ver também c. 40 da “Vida”. MEYER 108-109.

[20] E (PL 73,129D) acrescenta: Ele lhe oferecia o caminho da adolescência, resvaladiço, fácil para cair; mas este, considerando os eternos tormentos do juízo futuro, conserva incólume a pureza da alma em meio das tentações.

[21] “Negro”: o uso desta palavra era freqüente entre romanos e gregos num sentido moral figurado, para designar malícia ou perversidade. O mesmo no uso cristão primitivo. Dar a cor negra ao autor do mal e de toda iniqüidade era muito comum. Dado que os etíopes e egípcios eram de tez muito escura, o diabo foi muitas vezes designado com tais nomes nacionais. LAMPE 840a. meyer 109.

[22] Os antigos consideram as ruínas de mausoléus, as tumbas e os desertos como ambiente predileto dos demônios. Os três têm em comum ser lugares abandonados, não habitados pelos homens, e onde o demônio não é combatido pelo bem nem pelos exorcismos. Só os malfeitores se refugiam neles (cf At 21,38). Cf Mc 5,2-5; Lc 8,29; 11-24. A morada escolhida por Antão é provavelmente um cemitério abandonado. E. T. BETTENCOURT, o.c. 50; COLOMBAS 59.

[23] Na mitologia antiga, os servidores dos deuses eram freqüentemente chamados “cães”, cf também, 42,1, MEYER 110.

[24] E (PL 73,132B) acrescenta” O leopardo com suas diversas cores indicava a variedade de astúcias de seu autor.

FONTE:Padres do Deserto

Mosteiro da Virgem (Petrópolis-RJ)

http://www.ecclesia.com.br/

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