Sobre os Santos Jejuns

18 02 2015
jejum
159. Na Lei, Deus tinha prescrito aos filhos de Israel oferecer cada ano o dízimo de todos os seus bens (cf. Num. 18, 25). Assim fazendo, seriam abençoados em todas as suas obras. Os Santos Apóstolos, sabendo disso, a fim de obter para nossas almas uma ajuda proveitosa, decidiram transmitir-nos este preceito sob uma forma mais excelente e elevada, a saber, a oferta do dízimo dos dias de nossa vida, ou em outras palavras, sua consagração a Deus, para sermos também nós, abençoados em nossas obras e expiar anualmente as faltas do ano inteiro. Tendo feito o cálculo, santificaram para nós, entre os trezentos e sessenta e cinco dias do ano, as sete semanas de jejum, pois não designaram para o jejum senão sete semanas. Foram os Pais que depois concordaram em acrescentar mais uma semana, tanto para praticá-lo com antecipação como para preparar aqueles que vão se entregar aos jejuns, e para honrar esse jejuns com o número da santa quarentena que nosso Senhor passou jejuando. Pois as oito semanas somam quarenta dias, excluindo os sábados e os domingos, sem levar em conta o jejum privilegiado do Sábado Santo que é sagrado. Porém as sete semanas, sem os sábados e os domingos, dão trinta e cinco dias. Acrescentando-lhes o jejum do Sábado Santo e da metade constituída pela noite gloriosa e luminosa, obtém-se trinta seis dias e meio, o que é exatamente a décima parte dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano. Pois a décima parte de trezentos é trinta; a décima parte de sessenta é seis; e a décima parte de cinco é um meio: o que dá trinta e seis dias e meio, como dissemos 1. É, por assim dizer, o dízimo de todo o ano que os Santos Apóstolos consagram à penitência, para purificar as faltas do ano inteiro.
160. Feliz então, irmãos, aqueles que nesses dias santos se conduz bem e como convém; pois se lhe aconteceu, como homem que é, de pecar por fraqueza ou por negligência, Deus concedeu precisamente esses santos dias para que ocupando-se cuidadosamente de sua alma com vigilância e humildade, e fazendo penitência durante esse período, seja purificado dos pecados de todo o ano. Então sua alma é aliviada de seu fardo, e ele se aproxima com pureza do santo dia da Ressurreição; tendo-se tornado um homem novo pela penitência desses santos jejuns, participa dos Santos Mistérios sem incorrer na condenação, permanece no gáudio e na alegria espiritual, celebrando com Deus todos os cinquenta dias da Santa Páscoa, que é, já foi dito, “a ressurreição da alma” 2 e é para assinalá-lo que não ajoelhamos na igreja durante todo tempo pascal.
161. Quem quiser ser purificado dos pecados do ano inteiro por meio desses dias, deve primeiramente se precaver da indiscrição na comida, pois, conforme os Pais, a indiscrição na comida gera todo o mal no homem. Deve também tomar cuidado para não romper o jejum sem uma grande necessidade, nem procurar os alimentos agradáveis, nem se tornar pesado por excesso de alimentos ou de bebidas. Há, com efeito, duas espécies de gulodices. Podemos ser tentados pela delicadeza da comida: não se deseja necessariamente comer muito, mas sim, os alimentos saborosos. Quando um guloso come um alimento que lhe agrada, é de tal modo dominado por seu prazer que o guarda por muito tempo na boca, mastigando-o longamente e só engolindo-o a contra-gosto por causa do grande prazer que experimenta. É o que se chama guloso (laimargia). Um outro é tentado na quantidade; não deseja alimentos agradáveis e não se preocupa com o seu sabor. Que sejam bons ou maus, não tem outro desejo senão comer. Quaisquer que sejam os alimentos, sua única preocupação é de encher a barriga. É o que se chama de voracidade (gastrimargia) ou glutonaria. Vou lhes dizer a razão destes nomes. Margaineinsignifica entre os autores pagãos “estar fora de si” e o insensato é chamado margos. Quando ocorre a alguém essa doença e essa loucura de querer encher o ventre, chamamo-la gastrimargia, isto é, “loucura do ventre”. Quando se trata apenas do prazer da boca, chamamo-la laimargia, isto é “loucura da boca”.
162. Aquele que quiser ser purificado de seus pecados deve, com toda circunspeção, fugir desses desregramentos, pois não vêem de uma necessidade do corpo, mas da paixão e se tornam pecado se não forem dominados. No uso legítimo do casamento e na fornicação, o ato é o mesmo, é a intenção que faz a diferença: no primeiro caso, a união tem por objetivo ter filhos, no segundo, é para satisfação de um prazer. Da mesma forma, no uso dos alimentos, é a mesma ação de comer por necessidade e de comer por prazer, mas o pecado está na intenção. Come por necessidade aquele que tendo-se fixado uma ração diária a diminui, se, pelo peso que ela lhe causa, dá-se conta de que é preciso cortar algo. Se ao contrário, essa ração, longe de torná-la pesado, não sustenta seu corpo e deve ser ligeiramente aumentada, então acrescenta um pequeno suplemento. Dessa maneira, avalia justamente suas necessidades e em seguida se conforma ao que foi fixado, não pelo prazer, mas com o fim de manter o vigor de seu corpo. Esse alimento também deve ser tomado com ação de graças, julgando-se em seu coração indigno de tal socorro; e se alguns, em consequência certamente de uma necessidade ou exigência são objeto de cuidados particulares, não o devemos ter em conta nem buscar por si mesmo o bem-estar nem pensar que o bem-estar é inofensivo para a alma.
163. Quando estava no mosteiro (do Abade Séridos), fui um dia ver um dos anciãos – pois ali havia muitos grandes anciãos. Encontrei o irmão encarregado de o servir, comendo com ele e lhe disse em particular: “Sabes, irmão, esses anciãos que vês comer e que têm aparentemente um pouco de alívio, são como homens que adquiriram uma bolsa e não pararam de trabalhar e colocar (moedas) nessa bolsa, até ela ficar cheia. Depois de tê-la fechado, continuaram a trabalhar e juntaram ainda mil outras moedas para ter o que gastar em caso de necessidade, sempre guardando o que se encontra na bolsa. Assim, esses anciãos não pararam de trabalhar e de juntar tesouros. Depois de tê-los lacrado, continuaram a ganhar alguns recursos dos quais poderão se desfazer no momento da doença ou da velhice, sempre guardando seus tesouros. Mas nós, nem mesmo ainda ganhamos a bolsa; como faremos então nossas despesas?” É por isso, disse-lhe, que devemos, mesmo se o tomamos por necessidade, julgar-nos indignos de todo alívio, indignos mesmo da vida monástica e tomar, não sem temor, o necessário. E assim, isso não será para nós um motivo de condenação.
164. Tudo isso se refere à temperança do ventre. Mas não é só nosso regime alimentar que deve ser vigiado, é preciso evitar igualmente qualquer outro pecado e jejuar tanto da língua como do ventre, abstendo-nos da maledicência, da mentira, do falatório, das injúrias, da cólera, em uma palavra, de qualquer falta que se cometa pela língua. É-nos preciso igualmente praticar o jejum dos olhos, não olhando para as coisas vãs, evitando aparrhesia da vista, não encarando ninguém impudentemente. Devemos proibir até mesmo às mãos e aos pés qualquer má ação 3. Praticando assim um jejum agradável (a Deus), como diz São Basílio 4, abstendo-nos de todo mal que se comete através de nossos sentidos, aproximar-nos-emos do santo dia da Ressurreição, renovados, purificados e dignos de participar dos santos Mistérios, como já o dissemos. Sairemos primeiramente ao encontro de nosso Senhor e O acolheremos com palmas e ramos de oliveira, enquanto que, sentado sentado sobre um jumentinho, Ele fará Sua entrada na Cidade Santa (cf. Mc. 11, 1-8; Jo. 12, 13).
165. Que quer dizer: “Sentado sobre um jumentinho?” O Senhor Se sentou sobre um jumentinho a fim de que a alma, conforme o Profeta (cf. Sl. 48, 21), tendo-se tornado estúpida e semelhante aos animais sem razão, seja por ele, o Verbo de Deus, convertida e submetida à sua divindade. E que significa “ir ao encontro com palmas e ramos de oliveira?” Quando alguém sai a combater contra seu inimigo e volta vitorioso, todos os seus vão ao seu encontro com palmas, para acolhê-lo como vencedor. A palma é, com efeito, símbolo da vitória. Por outro lado, quando alguém sofre uma injustiça e quer recorrer a quem pode vingá-lo, leva ramos de oliveira, clamando para implorar misericórdia (compaixão) e assistência, porque as oliveiras são um símbolo de misericórdia. Iremos, então também nós ao encontro do Cristo nosso Senhor com palmas, como diante de um vencedor, uma vez que venceu o inimigo por nós e com ramos de oliveira para implorar Sua misericórdia, a fim de que, como venceu por nós, sejamos nós também, vitoriosos por Ele implorando-O; e que nos encontremos hasteando Seus emblemas de vitória, em honra não só da vitória que trouxe para nós, mas também daquela que teremos por Ele, graças às preces de todos os Santos. Amém.
NOTAS
1. Encontramos o mesmo cálculo em Cassiano, Conf. XXI, 25.
2. Evágrio, Sentença aos monges 40: PG 40, 1279.
3. S. João Crisóstomo diz: “Que não jejua apenas a boca, mas também o olho, o ouvido, os pés, as mãos e os demais membros do corpo” (PG 49, 53).
4. S. Basílio, De Jejunio Hom. II, 7: PG 31, 196 D.
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