Introdução à Filocalia e à Vida Monástica

18 02 2015

16825_643216435806387_5361945845632147164_n

A Filokalia é um livro clássico da literatura da Igreja Ortodoxa – coletânea de textos de autores diversos sobre a Oração do Coração. Filocalia significa “amor à beleza”, “amor pelo belo”, “amor pelo bom-bem”, essa beleza que se confunde com o bem.

Em 1782 foi publicada em Veneza sob o nome de Filocalia uma grande compilação de autores espirituais gregos das mais variadas épocas. Com textos de mais de trinta autores, desde os Padres do Deserto até autores bizantinos do século XIV.

O sucesso, em português, do livro da Pequena Filocalia, deve-se ao livro Relatos de um Peregrino Russo. Filocalia é, antes de tudo, o livro da Oração do Coração ou Oração de Jesus.

Relatos de um Peregrino Russo é o título em português de um livro cujo autor é um russo anônimo do século XIX. Trata-se da narração de sua jornada pelo país, descobrindo os Padres do Deserto como eremitas, ascetas, monges e monjas vivendo majoritariamente no deserto da Nítria (Cétia), no Egito a partir do século III d.C.

O mais conhecido dentre eles foi Santo Antão (ou Santo Antônio, o Grande), que mudou-se para o deserto em 270-271 e se tornou conhecido tanto como o pai quanto o fundador do monasticismo no deserto. Quando Antão morreu em 356, milhares de monges e monjas tinham sido atraídos para a vida no deserto seguindo o exemplo do grande santo. Seu biógrafo, o Padre da Igreja, Santo Atanásio de Alexandria, escreveu que “o deserto tinha se tornado uma cidade”.

Praticando a Oração de Jesus devotamente, com ajuda de um rosário e estudando a Filocalia. Os Padres do Deserto tiveram uma enorme influência no desenvolvimento do cristianismo primitivo. As comunidades monásticas do deserto que cresceram destes encontros informais de monges eremitas se tornaram o modelo para o monasticismo cristão. A tradição monástica oriental, representada no Sinai, Monte Athos e outros pólos monásticos, bem como aquela de caráter ocidental, sob a Regra de São Bento, foram ambas fortemente influenciadas pelas tradições iniciadas no deserto. Todos renascimentos monásticos da idade média buscaram no deserto alguma inspiração e orientação. Muito da espiritualidade da Cristianismo Ortodoxo, incluindo o movimento hesicasta, tem as suas raízes nas práticas dos Padres do Deserto.
Paulo de Tebas é geralmente creditado como tendo sido o primeiro monge eremita a ir para o deserto, mas foi Santo Antão que efetivamente lançou a semente ao movimento monástico. Em dado momento, por volta do ano de 270 d.C., Antônio ouviu um sermão de domingo afirmando que a perfeição poderia ser alcançada vendendo-se todas as posses, doando o resultado aos pobres e seguindo Cristo (tratando de Mateus 19:21, parte dos conselhos evangélicos). Ele aceita a mensagem e tomando ainda o passo adicional de se mudar para o deserto em busca da mais completa solidão.
Antão viveu num tempo de transição para o Cristianismo – as perseguições de Diocleciano em 303 d.C. foram as últimas grandes perseguições formais aos cristãos no Império Romano. Apenas dez anos depois, ele foi legalizado no Egito pelo sucessor de Diocleciano, Constantino I.

Aqueles que tinham partido para o deserto formavam uma sociedade cristã alternativa ao martírio, que era na época visto por muitos cristãos como a forma mais alta de sacrifício. Nesta mesma época, o monasticismo no deserto apareceu quase simultaneamente em diversas áreas, incluindo o Egito e a Síria. Com o passar do tempo, o modelo de Antão e outros eremitas atraiu muitos seguidores, que viviam sós no deserto ou em pequenos grupos. Eles escolheram a vida de extremo ascetismo, renunciando a todos os prazeres dos sentidos, ricas comidas, banhos, descanso e todos os demais confortos. Milhares se juntaram a eles no deserto, a maioria homens, mas também um punhado de mulheres. As pessoas começaram a ir para o deserto em busca de conselhos e recomendações dos primeiros Padres do Deserto. Quando Antão morreu, havia tantos homens e mulheres vivendo no deserto que ele foi descrito como uma “cidade” pelo biógrafo de Antão, Atanásio de Alexandria.

Os três principais tipos de monasticismo se desenvolveram no Egito à volta dos Padres do Deserto. Um foi a vida austera do eremita, como praticado pelo próprio Antão e seus seguidores no Baixo Egito. Outro foi a vida cenobítica, formada por comunidades de monges e monjas no Alto Egito, organizados primeiramente por São Pacômio. O terceiro foi uma vida semi-eremita vista principalmente na Nítria e em Cétia, ao oeste do Nilo, iniciada por Santo Amum. Estes últimos eram pequenos grupos (de dois a seis) de monges ou monjas com um Ancião em comum – os grupos separados se reuniam em aglomerações maiores para a celebração dos sábados e domingos. Este terceiro grupo monástico foi responsável pela maior parte dos ditados que foram compilados na obra “Ditados dos Pais do Deserto”.

As pequenas comunidades que formaram à volta dos Padres do Deserto foram o início do Monasticismo Cristão. Inicialmente, Antão e outros viveram como eremitas, formando ocasionalmente grupos de dois ou três. Pequenas comunidades informais começaram a se desenvolver até que o monge Pacômio, percebendo a necessidade de uma estrutura mais formal, estabeleceu um monastério com regras e uma organização. Seu regulamento incluía disciplina, obediência, trabalhos manuais, silêncio, jejuns e longos períodos de oração.

O primeiro monastério totalmente organizado sob Pacômio incluía homens e mulheres vivendo em celas (quartos) separados, até três pessoas em cada. Eles se apoiavam tecendo e fazendo cestos, além de outras tarefas. Cada novo monge ou monja tinha um período probatório de três anos, que terminava com a aceitação completa no grupo. Todas as posses eram mantidas comunitariamente, as refeições eram feitas em conjunto, em silêncio. Duas vezes por semana jejuavam e se vestiam com roupas simples de camponeses, com um capuz. Diversas vezes por dia se reuniam para rezar e para as leituras, e se esperava que cada um dedicasse períodos de tempo sozinhos, em meditação sobre as Escrituras Santas. Havia também programas específicos para os que chegassem ao monastério sem saber ler.

Pacômio também formalizou o estabelecimento de um Abba (pai) ou Amma (mãe), responsável pelo bem-estar espiritual dos seus monges e monjas, com a implicação de que os que se juntassem o monastério estariam também se juntando a uma nova família. Membros também formavam grupos menores, com diferentes tarefas comunitárias e com a responsabilidade de cuidar do bem-estar uns dos outros. Esta nova maneira de viver cresceu a ponto de haver dezenas de milhares de monges nestas comunidades organizadas nas décadas seguintes à morte de Pacômio.

Um dos mais antigos peregrinos ao deserto foi doutor da igreja Basílio de Cesareia, que levou a “Regra de Pacômio” para a Igreja Oriental. Basílio também expandiu a ideia de uma comunidade ao integrar os monges e monjas na comunidade mais ampla de cristãos, com os monges e monjas atuando sob a autoridade de um bispo e servindo os pobres e necessitados. Conforme mais e mais peregrinos visitavam os monges do deserto, a literatura que ali se originava começou a se espalhar. Versões latinas de histórias originais gregas e ditados dos Pais do Deserto, assim como as primeiras regras monásticas que saiam do deserto, guiaram o desenvolvimento monástico inicial do mundo bizantino e, eventualmente, no ocidente também.

A Regra de São Bento foi fortemente influenciada pelos Padres do Deserto, com São Bento clamando seus monges a lerem as obras de João Cassiano sobre os Padres do Deserto. Os “Ditados dos Pais do Deserto” foram também amplamente lidos nos primeiros mosteiros beneditinos. Muitos dos monges e monjas criaram uma reputação de santidade e sabedoria, com pequenas comunidades seguindo determinados Anciãos santos e sábios, que era o seu “pai” espiritual (Abba, ou Abade).

O mandamento do amor era o guia primário da vida dos Padres do Deserto e formou a maior parte das histórias e relatos dos “Ditados…”. As suas práticas incluíam não apenas o mandamento de amar a todos, mas também o de ser transformado pelo amor divino. Para os que viviam a vida comunitária monástica, isso era especialmente proeminente. Seus esforços para viver sob este mandamento não eram vistos como sendo fáceis – muitas das histórias daquele tempo recontam as suas batalhas internas para vencer as emoções negativas, como a raiva e o julgamento dos outros. Ajudar um irmão monge que estava doente ou em luta interna era visto como prioritário sobre quaisquer outras considerações. Eremitas frequentemente saíam de longos jejuns quando recebiam visitas, pois a hospitalidade e o carinho eram mais importantes do que manter as práticas ascetas que eram tão predominantes na vida dos Padres do Deserto.

Hesicasmo do grego para “quietude, silêncio, descanso, tranquilidade” é uma tradição mística e um movimento que se originou com os Padres do Deserto e era central às suas práticas de oração. Para eles era primordialmente a prática do “silêncio interior e da oração contínua”. Ele não se tornaria um movimento formal com práticas específicas até pelo menos as práticas de oração meditativas bizantinas do século XIV, ao aproximar-se da Oração de Jesus ou “Oração do Coração”. A origem desta oração também deve suas origens aos Padres do Deserto – a “oração de Jesus” foi encontrada inscrita nas ruínas de uma cela daquele período no deserto egípcio. A mais antiga evidência escrita à prática pode ser um texto da “Filocalia”, por Abba Filemon, um Padre do Deserto. A oração “hesicasta” era tradicionalmente praticada em silêncio, com os olhos fechados – não como “uma forma de meditação discursiva sobre diferentes incidentes da vida de Jesus Cristo”. As palavras “hesicasta” e “hesíquia” foram frequentemente usadas nas obras dos séculos IV e V dos Padres do Deserto, como Macário do Egito, Evágrio Pôntico e Gregório de Nissa. O título hesicasta foi utilizado nos primeiros anos como um sinônimo de “eremita”, contrapondo os cenobitas, que viviam em comunidades.

As vidas dos Padres do Deserto eram preenchidas com a recitação das Escrituras – durante a semana, eles cantavam os salmos enquanto realizavam os trabalhos manuais e, durante os finais de semana, eles realizavam Liturgias e serviços religiosos comunitários. A experiência dos monges na cela ocorria de várias maneiras, mas o papel da meditação sobre as Escrituras era central. Para eles, a meditação era a recitação oral das escrituras. As práticas em grupo eram particularmente proeminentes nas comunidades mais organizadas formadas por São Pacômio. O objetivo destas práticas foram explicados por João Cassiano, outro Padre do Deserto, que descreveu o objetivo da recitação e do ascetismo como sendo a ascensão para uma profunda oração e contemplação mística.

A legalização do Cristianismo pelo Império Romano em 313 d.C. deu ainda mais força à resolução de Antão sobre ir para o deserto. Ele, que era um nostálgico pela tradição do martírio, via o isolamento e o ascetismo como uma alternativa. Quando membros da Igreja começaram a encontrar formas de trabalhar com o estado romano, os Padres do Deserto também viram nisso um comprometimento entre “as coisas de Deus e as coisas de César”. As comunidades monásticas eram essencialmente uma sociedade cristã alternativa. Os eremitas duvidavam que religião e política poderiam algum dia produzir uma sociedade cristã verdadeira. Para eles, a única possível era espiritual e não mundana.

por Aurora

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: