A Cruz em Santa Teresinha do Menino Jesus

18 02 2015

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Por:  Souer Genevieve Devergnies 

Como para qualquer cristão, a cruz é para Santa Teresinha o símbolo da fé na obra redentora  do Filho de  Deus. Para não trair o verdadeiro significado cruz, ela considera as duas faces do mistério cristão. De um lado, o acontecimento histórico do Calvário: Deus escolhe a morte ignominiosa de seu Filho inocente para resgatar a humanidade pecadora; de outro lado, a exaltação, por Deus,  do Filho encarnado, ao qual  ressuscita e senta-O à sua direita: “Para me conquistar, Te fizeste mortal, igual a mim;  derramaste teu sangue, mistério supremo” (P 23,5). “Antes de entrar na celeste glória, o Deus-Homem tinha que sofrer. Quantos desprezos sofreste por meu amor, em terra estrangeira” (P 31,3).

Tratemos agora de alguns aspectos que iluminam o conteúdo espiritual da cruz em Teresinha:

1. O mistério da cruz. Esta realidade do cristianismo está profundamente integrada em sua vida. “A cruz me tem acompanhado deste o berço” (A 36v); e da graças a Deus por ela:”vou cantar a inefável graça de ter sofrido e carregado a cruz. Compreendi que pela cruz se salvam os pecadores. Pela cruz minha alma viu abrir-se um horizonte novo” (P 16)

Na cruz Teresinha contempla o mistério de Cristo:”Nosso Senhor morreu na cruz entre angústias, e apesar disso, essa  foi a mais bela morte de amor” (U.C 4.7.2). Por outra parte, Teresinha quer deixar bem claro que não é a cruz o que oferece a verdadeira dificuldade, senão o desapego de si mesmo através do qual a pessoa se entrega a Deus. “As cruzes exteriores, o que são? Cruz verdadeira é o martírio do coração, o sofrimento íntimo da alma…” (Carta 167).

2. A cruz é uma fonte inesgotável de devoção para Teresinha, desde a idade de 13 anos: “Num domingo, ao olhar uma estampa de Nosso Senhor na cruz, senti-me profundamente impressionada com o sangue que caía de uma de suas divinas mãos. Senti grande aflição pensando que esse sangue caía no chão sem que ninguém se apressasse em recolhê-lo. Tomei a resolução de estar sempre, em espírito, ao pé da cruz…” (A 45v)

Semelhante a São Paulo, Teresinha quer conhecer, seguir e imitar a “Jesus Cristo, e este crucificado” (1Cor 2,2). Isso traz consigo a adesão da vontade e a resposta de toda a pessoa: ” Jesus me fez amar apaixonadamente essa cruz”. (Carta 253).

A humanidade de Cristo crucificado, mais concretamente a sua “Santa Face” é o objeto inesgotável de sua contemplação: “Olha para Jesus na sua Face… Aí verás quanto ele nos ama”. (Carta 87).

3. Teresinha encontra uma autêntica alegria espiritual na “mística da cruz”, no fato de aceitar “levar sua cruz”, as cruzes exteriores (tais como a forma de vida que escolheu, a falta de saúde, o sofrimento físico e moral, não escolhidas livremente): “Que alegria inefável a de carregar nossas cruzes debilitadamente” (Carta 82). “As pequenas cruzes são as que constituem toda nossa alegria” (Carta 148).

4. O livro “a imitação de Cristo”, que Teresinha conhece de memória, expressa esta mística na qual a mortificação se inscreve dentro da teologia paulina do sacrifício (cf. R 6,8). Entre os numerosos ecos desta doutrina J.R Caussade,  seguidor da espiritualidade do abandono, confere grande importância à cruz para a santificação das almas; considera as cruzes como graças exteriores particularmente eficazes. A ascese cristã, por sua parte, deve ao mistério da cruz a marca específica que domina a luta contra o pecado e a busca da união divina. A humildade, recurso essencial do progresso espiritual, é um elemento indispensável no exercício da fé, da esperança e da caridade.

5. Em Teresinha,  a união com Jesus é missionária, buscada de forma privilegiada na cruz redentora: ” Tomei a resolução de estar sempre, em espírito, ao pé da cruz para receber o divino orvalho que se desprendia dela, e compreendi que, a seguir, teria que derramá-lo sobre as almas” (A,45v).

Seu desejo da cruz é aprofundado no martírio:”Quisera plantar tua cruz gloriosa em solo infiel. Quisera derramar por tia até a última gota de meu sangue. O martírio! É o sonho da minha juventude. Um sonho que cresceu comigo nos claustros do Carmelo” (B 31,r)

Finalmente, a união à cruz redentora de Jesus se manifesta no grito de Teresinha, no momento de morrer: “Nunca poderia crer que fosse possível sofrer tanto. Não consigo explicações para isso, a não ser pelos ardentes desejos que tenho de salvar almas” (UC. 30,9)

A alta santidade de Teresinha arraiga-se na conformidade com Jesus Cristo morto na cruz e ressuscitado.

O SOFRIMENTO

Teresinha sofreu muito durante toda a sua vida. Desejou o sofrimento porque estava convencida de que toda provação, aceita por a amor a Deus, é fecunda, e que, unido ao sacrifício redentor, o sofrimento é um tesouro para a salvação das almas. Na manhã do dia de sua morte dirá: “O cálice está cheio até à borda. Nunca poderia crer que fosse possível sofrer tanto. Não consigo explicações para isso, a não ser pelos ardentes desejos que tenho de salvar almas” (UC. 30,9). E assim ora: “Te dou graças, meu Deus, por todos os benefícios que me concedeste, em especial por ter-me feito passar pelo crisol do sofrimento” (Oração 6,11)

1. O que é o sofrimento para Santa Teresa do Menino Jesus?

Teresa não é masoquista, não ama o sofrimento em si mesmo, mas como um meio de mostrar seu amor a Jesus: “não desejo nem o sofrimento nem a morte, embora ame os dois; mas é só o amor o que me atrai”. Durante muito tempo os desejei; tive o sofrimento,… agora só o abandono me guia” (A 83 f)

Para Teresinha, o sofrimento é uma alegria: “O sofrimento passa a ser a maior das alegrias quando é buscado como o mais precioso dos tesouros” (C 10v)

Não escolhe os sofrimentos quer deseja suportar, quer os que Deus quer para ela: “Eu gosto do que Ele faz” (UC 27.4.4). “Eu gosto de tudo o que Deus me dá” (U.C 14.8.1). “Jesus não pode desejar para nós sofrimentos inúteis” . (A 84V)

2. O Valor do sofrimento para Teresinha

Dois pontos essenciais: a Paixão de Cristo, e em consequência a redenção, deve ser “completada com nosso sofrimento. “Vejo que só o sofrimento pode gerar as almas, e que mais do que nunca, essas sublimes palavras de Jesus me revelam sua profundeza: ‘Se o grão de trigo, lançado na terra, não morrer…’ ” (A 81 f).

Teresinha aprecia em seu justo valor santificante e redentor o preço do sofrimento. “O sofrimento tornou-se meu atrativo, possuía encantos que me enfeitiçavam, embora não os conhecesse direito” (A 36f) . “Quantos tesouros o sofrimento nos faz ganhar! É nossa fraqueza, nosso meio de ganharmos a vida” (Carta 89)

Para ela o sofrimento tem sempre sentido e valor apostólicos: para agradar a Jesus, Teresinha trabalha salvando almas: “Ofereçamos nossos sofrimentos a Jesus” (Carta 213)

Quando sua vida espiritual se aprofunda, Teresinha valoriza o sofrimento como prolongamento da paixão buscando desde agora o gozo dos favores da Redenção: “Se houvesse par ao homem algo melhor e mais útil que sofrer, Jesus Cristo no-lo haveria ensinado com sua palavra e com seu exemplo. Quando chegares a encontra o doce sofrimento e a amá-lo por Jesus Cristo, então crê que és ditoso, porque encontraste o paraíso sobre a terra” (Imitação II,12).

3. A alma de Teresinha sofre por suportar o peso e a intensidade da ternura de Jesus

Não se pode viver no amor sem sofrer, porém tudo sofrimento é doce quando se ama: “Estou verdadeiramente contente por sofrer” (C 4v).

Sofrimento por sentir sua impotência frente ao amor infinito: “Ah! Bem sei que todas nossas justiças não têm nenhum valor ante seus olhos” (P 23,7)

Sofrimento por pensar que é desprezado o amor misericordioso de Deus, que quer transbordar sobre todos os homens: “Oh, meu Deus! vosso amor desprezado vai ficar em vosso coração? Em todo lugar é desconhecido, rejeitado” (A 84f).

Aos olhos de Teresinha, sofrimentos (e alegrias) são ocasiões providenciais para testemunhar a Deus a qualidade a quantidade do amor que a consome por inteiro: “Minhas dores mais profundas, minha felicidade e minhas penas… acariciam teu rosto e te dizem que é teu todo o meu coração” (P 34, 1-3).

O dom da fortaleza lhe faz aguentar os maiores sofrimentos (enfermidades, oposições, provas morais): “no dia de minha Confirmação recebi fortaleza para sofrer, pois em seguida, ia começar o martírio de minha alma” (A 36v).

Porém, em nossos dias, o sofrimento continua sendo um problema. Os homens progrediram mais na luta contra a dor que na compreensão do sofrimento que Teresinha tão perfeitamente assimilou: “O sofrimento me estendeu os braços e eu me lancei neles com amor” (A 69v). Atualmente abre-se caminho a uma nova perspectiva: o sofrimento dos “pobres” é apresentando pela teologia da libertação como lugar privilegiado do amor.

Porém, o sofrimento de Deus é ainda muito mais incompreensível que o dos homens. Muito reservado sobre o sentido que dá ao seu próprio sofrimento, Jesus se submete totalmente à vontade do Pai. Como um eco seu Teresinha diz: “Meu coração está por completo colocado na vontade de Deus, por isso permaneço em profunda paz” (U.C. 15.7.9)

“Tanto amou Deus o mundo que deu seu próprio Filho” (Jo 3,16). Ao entregar seu Filho aos homens, o Pai é o primeiro a sofrer com isso. Há, por acaso, um sinal mais claro do poder salvífico do sofrimento?

Fonte: Nuevo Diccionario de Santa Teresa de Lisieux. Editorial Monte Carmelo. España

Tradução: Província Carmelitana Pernambucana

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