O Deserto da Cartuxa

30 07 2014
A Grande Cartuxa - França

A Grande Cartuxa – França

Bruno, quando chegou a Grenoble, não tinha nenhuma idéia preconcebida sobre o lugar onde implantaria seu eremitério. Só deseja encontrar um lugar adequado para esse tipo de vida.

Anda em procura; sua idéia da vida eremítica é clara, mas não sabe onde realizá-la. Espera encontrar esse lugar na diocese de Hugo, onde abundam as montanhas, mas não está seguro disso. Em caminho, está convicto de que encontrará em Hugo um homem verdadeiramente de Deus, que compreenderá seu projeto e cujo trato e conversa, como os de Roberto de Molesmes, estimularão seu fervor.

Sete são os que formam o pequeno grupo que se apresenta ante o Bispo. Desconhecemos onde e quando aderiram a Bruno seus colegas; nenhum documento nos revela, mas os sete estavam decididos a levar juntos vida eremítica e já desde algum tempo procuravam um lugar propício para realizar seu projeto.

Bruno os conduz até o Bispo que, inspirado por um sonho, os guiará até o deserto do maciço montanhoso de Chartreuse. É Guigo, o quinto prior da Cartuxa, autor da “Vida de Santo Hugo”, quem nos refere e autentica a realidade do sonho, e sua provada austeridade no-lo confirma.

Se, finalmente, Bruno e seus colegas se instalam no deserto de Chartreuse , não é porque eles mesmos tenham escolhido o lugar, foi Deus mesmo quem o escolheu por mediação de seu intérprete, o bispo Hugo.

Numa manhã de junho, durante a festa de São João Batista, um pequeno grupo de homens, com rostos graves e pobre vestimenta, saía da residência episcopal de Grenoble, guiados pelo jovem bispo Hugo. Dirigiam-se para o norte e tomaram a rota do Sappey. Deixando atrás as últimas casas do povo, penetraram no imenso bosque.

Neste lugar solitário penetraram corajosamente nossos viajantes pela porta da Cluse e, como se procurassem o ponto mais selvagem, subiram até o extremo norte, onde o ermo termina numa garganta fechada por montanhas tão altas que o sol mal penetra ali durante a maior parte do ano. Ainda hoje as árvores se esticam para o céu entre as fendidas rochas, como fantásticas lanças, para conquistar ao menos com suas copas o ar puro, a luz e o calor.

Ali se deteve a pequena caravana; tinham chegado. O lugar escolhido vem de encontro à ânsia ardente dos sete primeiros cartuxos pela vida solitária. Porque é certo que não esperavam encontrar outra coisa no lugar onde se estabeleceram! A presença de uma fonte determinou provavelmente a localização.

Ficavam no deserto sete homens: Maestro Bruno, Maestro Landuino, toscano de Luca e renomado teólogo; Estevão de Bourg e Estevão de Die, cônegos ambos de São Rufo; Hugo, a quem chamavam o capelão por ser o único que entre eles exercia as funções sacerdotais, e dois laicos, Andrés e Guerín, que seriam os conversos.

* * * * * * *

Bruno queria a vida eremítica pura, com solidão estrita, suavizada somente por alguns atos de vida comunitária. Uma vida eremítica, portanto, cujos perigos e inconvenientes se vejam equilibrados por elementos de vida cenobítica.

A comunidade será pouco numerosa, o suficiente para garantir a subsistência, mas evitando que seu aumento desproporcionado condicione necessidades impossíveis de cobrir. Admirável solidariedade espiritual de um grupo de homens, apaixonados de Deus, que se organizam entre si para que de suas vidas unidas brotasse a contemplação pura.

A parte de vida comunitária não é uma simples concessão à fragilidade da natureza humana, senão que constitui um verdadeiro intercâmbio espiritual e humano. Uma amizade santa une entre si aos membros do grupo. Amizade que se faz entre fortes personalidades de grande mérito, doutrina e santidade, cujo protótipo é Bruno. Estes três rasgos parecem caracterizar ao cartuxo, tal como o quer São Bruno.

A contemplação deve nutrir-se na fonte da Sagrada Escritura e os santos Pais; por sua vez, este conhecimento deve encontrar um estímulo na contemplação. Conhecimento cheio de amor, e amor que leva ao conhecimento. O cartuxo vive, em seu espírito e em seu coração, o mistério de Deus. E o vive com grandeza de alma. Nada há de mesquinho nesta vocação. Tudo está marcado com esse caráter de absoluto, de exigência, de totalidade, de plenitude, que dá sua verdadeira talha ao homem de Deus.

Daí a importância do lugar escolhido, porque semelhante forma de vida não se pode realizar em qualquer parte. Precisam-se umas condições especiais: um deserto, uma separação do mundo, um número reduzido de ermitões, uma proporção razoável entre “pais” e “irmãos”. A Chartreuse oferecia uma ocasião excepcional, quiçá única, para realizar sem nenhum obstáculo semelhante ideal.

Nestas circunstâncias é difícil imaginar que Bruno e seus colegas tivessem tido nem a mais remota idéia de fundar uma Ordem. Não, só formaram um grupo reduzido de solitários, com umas exigências concretas e numas condições únicas que podiam esperar continuassem muito tempo depois. Tinham uma consciência demasiado viva da originalidade de seu estilo de vida e, sobretudo, tal amor ao silêncio, à humildade, ao esquecimento e à abnegação que não sonhavam em estendê-lo a outras partes e a outras pessoas. A idéia de multiplicar sua experiência no espaço e, sobretudo, no tempo, era-lhes totalmente estranha. Convinha que a primeira geração de cartuxos, e o mesmo Bruno, vivessem e morressem sem outra intenção que a de viver como perfeitos ermitões contemplativos, a fim de que seu ideal levasse à experiência de uma pureza absoluta. Mais tarde, o Senhor disporia as coisas de modo diferente ao que tinham pensado, mas isto seria obra de Deus…

 

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