Da Vida de São Francisco de Assis

4 10 2013

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“Para louvor e glória de Deus todo-poderoso Pai, Filho e Espírito Santo. Amém
Conduta e mentalidade mundanas de Francisco
1. Vivia na cidade de Assis, na região do vale de Espoleto, um homem chamado Francisco. Desde os primeiros anos foi criado pelos pais insensatamente, ao sabor das vaidades do mundo. Imitoulhes
por muito tempo o triste procedimento e tornou-se ainda mais frívolo e vaidoso.
Essa mentalidade péssima difundiu-se por toda parte, entre os que se dizem cristãos, como se fosse lei, confirmada e preceituada por todos que procuram educar seus filhos desde o berço com muita moleza e dissolução. Apenas nascidas, mal começam a balbuciar e a falar, as crianças aprendem, por gestos e palavras, coisas vergonhosas e verdadeiramente abomináveis. Na idade de abandonarem o seio materno, são levadas não só a falar mastambém a fazer coisas indecentes e lascivas. E nenhuma delas ousa, nessa idade, comportar-se honestamente, pois isso as poderia expor a castigos severos. Bem disse o poeta pagão: “Como crescemos no meio das depravações de nossos pais, desde a infância
acompanham-nos todos os males”.
Este testemunho é bem verdadeiro, pois quanto mais perniciosa é para as crianças a condescendência dos pais, tanto mais elas se sentem felizes em lhes obedecer. Quando crescem mais um pouco,
caem por si mesmas em práticas cada vez piores. Uma árvore de raízes más só pode ser má, e o que foi pervertido uma vez dificilmente poderá ser endireitado. Quando chegam à adolescência, que poderão ser esses jovens?
Então, no turbilhão de toda sorte de prazeres, sendo-lhes permitido fazer tudo que lhes apraz, entregam-se de corpo e alma aos vícios.
Assim, escravos voluntários do pecado, fazem de seus membros instrumentos de iniquidade. Sem nada conservar da religiosidade cristã em sua vida e em seus costumes, defendem-se apenas com o nome de cristãos. Esses infelizes muitas vezes até fingem ter feito coisas piores do que de fato fizeram, para não passarem por mais vis na medida em que forem mais inocentes.
Nesses tristes princípios foi educado desde a infância o homem que hoje veneramos como santo, porque de fato é santo. Neles perdeu e consumiu miseravelmente o seu tempo quase até os vinte e cinco anos. Pior ainda: superou os jovens da sua idade nas frivolidades e se apresentava generosamente como um incitador para o mal e um rival em loucuras. Todos o admiravam e ele procurava sobrepujar aos outros no fausto da vanglória, nos jogos, nos passatempos, nas risadas e nas conversas fúteis, nas canções e
nas roupas delicadas e luxuosas. Na verdade, era muito rico, mas não avarento, antes pródigo; não ávido de dinheiro, mas gastador; negociante esperto, mas esbanjador insensato. Mas era também muito humano, muito jeitoso e afável, embora para seu próprio mal. Porque era principalmente por isso que muitos o seguiam, gente que fazia o mal e incitava para o crime. Cercado por bandos de maus,adiantava-se altaneiro e magnânimo, caminhando pelas praças de Babilônia até que Deus o olhou do céu. Por causa do seu nome, afastou para longe dele o seu furor e pôs-lhe um freio à boca com o seu louvor, para que não perecesse de vez. Desde então esteve sobre ele a mão do Senhor e a destra do Altíssimo o transformou para que, por seu intermédio, fosse concedida aos pecadores a confiança na obtenção da graça e desse modo se tornasse um exemplo de conversão para Deus diante de todos.”

(Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1.)

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