São Siluane

2 10 2013
São Silouane

São Silouane

São Siluan
Em 1938 morria um homem no Monte Athos. Era homem muito simples, um camponês russo que se dirigira para o Monte Athos lá pelos seus vinte anos, e aí permaneceu cerca de cinqüenta. Era homem de extrema simplicidade. Fora para Athos porque tinha lido, num panfleto sobre a Montanha Sagrada, que a Mãe de Deus havia prometido que defenderia todo aquele que servisse o Senhor naqueles mosteiros, e intercederia por ele. Desse modo, ele abandonou a sua povoação, dizendo: “Se a Mãe de Deus está preparada para me defender, lá vou eu, e que ela trate de me salvar.” Foi um homem extraordinário; por muito tempo, esteve encarregado das oficinas do mosteiro. Aí trabalhavam jovens camponeses russos que habitualmente vinham por um ou dois anos, para ganharem algum dinheiro, centavo a centavo, e depois voltarem para suas terras, com pequenas reservas, para constituírem quando muito uma família, casando, construindo uma choupana e comprando o necessário para a sua plantação. Certo dia, outro monge, encarregado de outras oficinas, lhe disse:

— Padre Silouan, como é isso: os que trabalham em suas oficinas, trabalham tão bem, e ninguém os vigia, enquanto nós gastamos o tempo vigiando os nossos, e eles tentam constantemente enganar-nos no seu trabalho?

O Padre Silouan respondeu:

— Não sei. Apenas poderei dizer-lhe o que faço. Quando pela manhã eu chego, nunca venho sem ter rezado por essa gente, e venho com o coração cheio de compaixão e amor por eles; quando entro na oficina, tenho lágrimas na minha alma por amor a eles. Dou-lhes a tarefa que devem executar no dia e, enquanto trabalham, rezo por eles. Dirijo-me à minha cela e começo a rezar por todos e a cada um, individualmente. Coloco-me perante Deus e digo: “Ó Senhor, lembra-te do Nicolau. É jovem, tem apenas vinte anos, deixou a sua aldeia, e a sua esposa é tão jovem quanto ele, e também o seu primeiro filho.

Olha a miséria que há por lá, que o fez deixá-los, porque não podem sobreviver com o trabalho em casa. Protege-os na ausência dele. Defende-os de toda maldade. Dá-lhe coragem para trabalhar ao longo deste ano e regressar na alegria de um reencontro, com bastante dinheiro, mas também com bastante coragem para fazer frente às dificuldades.” E acrescentou: “No começo eu rezava com lágrimas de compaixão por Nicolau, por sua jovem esposa, pela criancinha, mas, enquanto rezava, o sentido da presença divina impressionava-me cada vez mais; a certa altura, cresceu tão fortemente que eu perdi de vista o Nicolau, a esposa, o filho, as suas necessidades, a sua aldeia, e somente conseguia estar atento em Deus; era arrastado pela sensação da presença divina cada vez mais profunda, até que, de repente, no centro dessa presença, encontrei o amor divino sustentando Nicolau, sua esposa e o seu filho. Nessa altura, era com o amor de Deus que eu me punha a rezar por eles, mas de novo era arrastado para o abismo e, no fundo deste, outra vez achava o amor divino. E assim, eu gasto os meus dias pedindo por todos e cada um deles, em rodízio, um após outro; e, ao terminar o dia, eu lhes dirijo algumas palavras, rezamos juntos e eles vão ao seu descanso. E eu volto para terminar o meu ofício monástico.”

Pode-se ver, com isso, até que ponto a oração contemplativa, a compaixão e a oração ativa constituíam um esforço e uma luta, porque não se tratava apenas de dizer: “Lembra-te, ó Senhor, deste, daquele, daquele outro.” Tratava-se de horas e horas gastas precisamente orando com compaixão, orando com amor, tudo ao mesmo tempo.

Fonte:http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/espiritualidade/escola_de_oracao_anthony_bloom.html

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