Tratado sobre a sobriedade e a oração, para a salvação da alma.

21 09 2013

monje

Hesiquio Batos Centuria 1

1. A sobriedade é um método espiritual que, com a ajuda de Deus e mediante uma prática regular e firme, liberta-nos inteiramente dos pensamentose palavras apaixonadas, bem como das ações más. Dá um conhecimento seguro do Deus incompreensível e resolve de maneira secreta os divinos e secretos mistérios. Ela cumpre todos os mandamentos do Antigo e do Novo Testamento e consegue todos os bens da vida futura. A sobriedade é, antes de tudo, aquela pureza do coração que sua excelência e sua beleza, ou mais exatamente nossa negligência e nessa desatenção tornaram tão rara entre os monges destes tempos e que Cristo beatificou: “Bem-aventurados os corações puros porque verão a Deus” ( Mt 5,8 ). Por essa razão, ela é de grande valor. A sobriedade guia o homem que a pratica com perseverança, numa vida justa e agradável a Deus. É, além disso, uma escada que conduz à contemplação; ensina-nos a reger convenientemente os movimentos das três partes da alma (razãoirascível e concupiscível), avigiar com segurança os nossos sentidos; e aumenta, de dia para dia, as quatro grandes virtudes.

2. Moisés o Grande Legislador, ou melhor o Espírito Santo, querendo nos mostrar quanto esta virtude é excelente, pura, universal e nos eleva, e nos ensinar como é preciso a pôr em ação desde o início, depois a levar à perfeição, disse: “Cuida que não te venha ao coração um pensamento secreto” ( cf. Dt 15,9 ). Moisés, ou antes, o Espírito Santo, entende que isso é a simples aparição de um objeto mau, em repulsa a Deus, o que os Padres chamam de sugestão. Oferecida ao coração pelo diabo, logo após ser apresentada à inteligência, é seguida por nossos pensamentos, que começam então uma conversa apaixonada com ela.

3. A sobriedade é o caminho de todas as virtudes e de todos os mandamentos de Deus. Consiste na tranquilidade do coração e num espíritoabsolutamente preservado de qualquer imaginação.

4. O cego de nascença não vê a luz do sol. Assim aquele que não anda na sobriedade e na vigilância não vê em todo sua riqueza as cintilações dagraça do alto. Não será também liberado das ações, das palavras e dos pensamentos maus e iras de Deus. De tais homens, quando deixam estavida, não passarão impunemente diante dos príncipes do inferno.

5. A atenção é um coração em permanente repouso ( hesíquia ) de todo pensamento, que só respira e invoca ininterruptamente o Cristo JesusFilho de Deus; que combate, intrépido, a seu lado, e confessa Aquele que tem poder de perdoar os pecados. Que a alma, através de uma invocação constante, abrace Cristo, que escruta em segredo os corações; que ela se aplique em esconder completamente, aos homens, sua alegria e combateinteriores. O Maligno não encontra mais passagem por onde introduzir sua malícia no coração e destruir a obra perfeita, entre todas.

6. A sobriedade é uma sentinela imóvel e perseverante do espírito, à porta do coração, para perceber sutilmente os que se apresentam, escutar suas conversas, espiar as manobras desses inimigos mortais; para reconhecer a marca demoníaca que tenta, pela imaginação, devastar nosso espírito. Essa obra, corajosamente conduzida, vai dar-nos, se quisermos, uma experiência muito prudente do combate interior.

7. O duplo temor, os desamparos e as provas pedagógicas que Deus usa conosco têm, como efeito natural, criar uma continuidade sólida deatenção, no espírito do homem que se esforça para obstruir a fonte dos maus pensamentos e ações. É a razão dos desamparos e das tentaçõesinopinadas, enviadas por Deus, para corrigir nossa conduta, principalmente se, depois de provar a doce paz da atenção, caímos na negligência. O esforço incansável gera o hábito; este, uma certa continuação da sobriedade que, por sua vez, consegue pouco a pouco uma visão direta do combate, seguida da oração perseverante de Jesus, o suave repouso de um espírito livre de imaginação e do estado estabelecido ( NT: ao mesmo tempo estabelecido por, resultante de, “composto de” Jesus, se se pode dizer assim ) por Jesus.

8. A reflexão que se imobiliza, que invoca o Cristo contra os adversários e que se refugia junto dele, é como uma besta selvagem cercada por uma matilha de cães e que resiste tal uma fortaleza. Ela prevê de longe em sua inteligência as emboscadas inteligíveis dos inimigos invisíveis. E porque não cessa de invocar contra eles Jesus que dispensa a paz, ela permanece invulnerável.

9. Se tens a experiência, e se te foi dado desde a manhã diante de Deus em no despertar, mas também de contemplar, sabes o que quero dizer. Senão, seja sóbrio e vigilante, e compreenderás.

10. Os mares são feitos de muita água. O que faz e conforta a sobriedade e a vigilância, a moderação, a profunda hesychia da alma, este abismode contemplações extraordinárias e inefáveis, de humildade consciente, de retidão e de amor, é uma extrema atenção e a oração de Jesus Cristo, sem pensamentos. E isso com fervor e continuidade, e não cedendo jamais ao desencorajamento.

11. “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no reino dos céus, mas aquele que pratica a vontade de meu Pai” ( Mt 7,21 ). Ora, avontade de Deus é “detestar o mal” ( Sal 97,10 ). Pela oração de Jesus, detestemos os maus pensamentos, e está cumprida a vontade de Deus!

13. Vou indicar, em seguida, de quantas maneiras, a meu ver, a sobriedade purifica o espírito dos pensamentos apaixonados…

14. A primeira forma de sobriedade consiste em vigiar rigorosamente a imaginação e a sugestão, pois sem a imaginação Satã é incapaz de formarpensamentos, para apresentá-los ao nosso espírito e iludi-lo com sua mentira.

15. A segunda forma consiste em guardar sempre o coração num silencio e numa profunda trégua de tudo. E orar.

16. A terceira consiste em chamar Jesus em nosso auxílio incessantemente, com moderação|sophrosyne|moderação.

17. Outra, em conservar ininterruptamente na alma a lembrança da morte.

18. Todas essas práticas detêm os maus pensamentos, à maneira dos janízaros. Sobre o método importante, que consiste em olhar apenas para océu e considerar a terra como nada valendo, vou alongar-me mais em outra ocasião, se Deus quiser.

20. O combatente espiritual deve, a todo instante, possuir quatro coisas: moderação, extrema atençãoespírito crítico e oração. A moderação, porque esse combate opõe-nos aos demôniosinimigos da moderação, de modo a conservar, ao alcance do coração, o Senhor, que detesta osorgulhosos. A atenção, para impedir que o coração encerre qualquer pensamento, sejam quais forem suas boas aparências. O espírito crítico, para que, vendo perfeitamente o recém-chegado, seja possível replicar-lhe com ira, no mesmo instante. A oração, logo após discernimento, para gritar do fundo do coração, para Cristo, com inexprimível gemido. Então, o combatente verá o |inimigo dissipar-se no nome santo e adorável de Jesus, como a poeira ao vento, e desaparecer como fumaça, com suas imaginações.

21. Quem não tem a oração pura de pensamentos, está desarmado para o combate; quero dizer, a oração praticada incessantemente no santuário profundo da alma, para expulsar a chicotadas e eliminar o inimigo invisível, pela invocação de Jesus Cristo.

22. Que os olhos do vosso espírito permaneçam sempre vivos e atentos para reconhecer os recém-chegados. Uma vez reconhecidos, esmagai a cabeça da serpente com o discernimento, ao mesmo tempo em que, gemendo, chamareis Cristo. Recebereis então o sentimento direto do socorro invisível e vereis distintamente a integridade do vosso coração.

23. Quem tem nas mãos um espelho e está no meio de outras pessoas enquanto olha nesse espelho, vê nele o seu próprio rosto e os dos outros, que ali se refletem. Assim também, quem olha dentro de seu coração com muita atenção, vê o estado próprio e as faces dos demônios invisíveis.

24. O espírito, entregue a seus próprios meios, é incapaz de vencer a imaginação demoníaca. Que ele não se arrisque! Temos inimigos tão astutos, que fingem a derrota, para nos fazer tropeçar na vaidade; mas, diante da invocação de Jesus, não vão agüentar-se nem usar de astúcia um só minuto mais.

27. Aqui estão um exemplo e uma regra para o silêncio ( hesíquia ) do coração. Se quereis lutar, tomai como exemplo esse bichinho, a aranha. Se não ( se não vos conduzis como a aranha ), ainda não tendes todo o necessário silêncio de espírito. Esse animalzinho apanha pequenas moscas. Se imitais sua quietude ( hesíquia ), com a alma compungida, não cessareis de exterminar os filhos da Babilônia…

29. Se passais todo o tempo em vosso coração, na moderação|sophrosyne|moderação de pensamento, na lembrança da morte, nodiscernimento e na invocação de Jesus Cristo; se, todo dia, seguis na sobriedade e munidos dessas armas, o caminho interior, estreito mas gerador de alegria, atingireis as santas contemplações das santas realidades. “Cristo, em quem se acham escondidos todos os tesouros da sabedoria e doconhecimento” ( Col 2,3 ) iluminará para vós os mistérios profundos… Então percebereis, em Jesus, que o Espírito Santo precipitou-se sobre vossocoração; Aquele que ilumina o espírito do homem para fazê-lo “ver com a face descoberta a glória do Senhor” ( 2Cor 3,18 ).

30. Os que gostam de se instruir devem saber que os demônios muitas vezes nos distraem, por inveja, e reduzem nosso combate interior; porque vêem, com despeito, a preciosa ajuda que ele presta à subida para Deus, e o conhecimento que nos consegue. Desse modo, por causa de nossa negligência, apossam-se de repente de nosso espírito e tornam alguns de nós desatentos ao coração. Toda a sua ambição e todos os seus esforços visam a impedir que nosso coração seja atento: eles sabem que enriquecimento traz à nossa alma a prática diária da atenção. Mas apliquemo-nos, então, às contemplações espirituais com a lembrança de Nosso Senhor Jesus Cristo, e o combate se reavivará em nosso espírito

41. Quanto mais abundante for a chuva, mais amolecerá a terra. Quanto mais assiduamente invocarmos o nome de Cristo, independente de todos ospensamentos, mais ele amaciará a terra de nosso coração, mais a penetrará de júbilo e de alegria.

42. É útil que as pessoas de pouca experiência saibam ainda isto: quando estamos abatidos, quando o corpo e a razão nos arrastam para a terra, temos inimigos invisíveis e imateriais, astutos e hábeis para nos prejudicar. Temos um único meio de vencê-los: a constante sobriedade de espírito e a invocação de Cristo, nosso Deus e Criador. Que os inexperientes encontrem, na oração de Jesus, um excitante para sentir e conhecer o bem. Quanto aos que adquiriram experiência, o melhor ensinamento e a melhor prática do bem consistem em praticá-lo e em repousar nele.

43. A criança sem malícia se deixa seduzir pelo charlatão e, em sua simplicidade, segue-o. Da mesma forma nossa alma, simples e boa — seu bom Mestre assim a criou — encontra prazer nas sugestões do demônio; ela se deixa seduzir e corre para o malvado, como se ele fosse bom, assim como a pomba cerre para o caçador de pássaros que arma arapucas para seus filhotes. Desse modo, nossa alma mistura seus próprios pensamentos àimaginação proposta pelo demônio. Seja o rosto de uma linda mulher ou alguma outra coisa absolutamente proibida pelos mandamentos de Cristo, a alma procura o meio de traduzir em ato o objeto que viu… Identifica-se então com seu pensamento e executa, no corpo, para a própria condenação, o objeto proibido que viu mentalmente.

44. Assim procede o Maligno?; é com essas flechas que ele envenena todas as suas vítimas. Por isso, é mais prudente, enquanto o espírito ainda não possui uma longa experiência da guerra, não deixar os pensamentos entrarem no coração. Especialmente no começo, quando nossa alma ainda sente inclinação pelas sugestões dos demônios, encontra prazer nelas e segue-as com avidez. É indispensável, logo que se percebem ospensamentos, suprimi-los imediatamente, no mesmo instante em que nos atingem e em que os identificamos. Quando o espírito tiver adquirido uma grande experiência desse exercício admirável e souber tudo o que é necessário saber; quando estiver habituado a essa guerra, a ponto de discernircom exatidão entre os pensamentos; e quando for capaz, conforme a palavra do Profeta, de “apanhar as raposinhas”, então ele poderá dispensar-se a astúcia de deixá-los avançar, e em seguida iniciar, com a ajuda de Cristo, o combate de desmascará-los e empurrá-los para fora.

46. A sugestão é o começo. Depois, vem a ligação: nossos pensamentos misturam-se com os do espírito mau. Depois, a união: as duas espécies de pensamentos deliberam e acertam o plano do pecado a ser cometido. Finalmente, vem o ato visível, o pecado. Se o espírito se encontra em estado de atenção e de sobriedade e, através da discriminação e da invocação de Jesus Cristo, impede que a sugestão imaginativa progrida, ela não terá conseqüências. Porque o Maligno, sendo um espírito puro, para perder as almas, tem apenas a imaginação e os pensamentos… ‘

49. Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato ( proibido ), nem sensato ( permitido ): não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios.

51. A sobriedade lembra a escada de Jacó, sobre a qual Deus permanece, e que os anjos escalam. Ela destrói todo mal em nós, suprime tagarelice, injúrias, distrações e toda a sua seqüela de paixões sensíveis. Porque não suporta privar-se da própria suavidade, em favor delas, nem mesmo por um instante.

53. Entre os outros bens que ele vai encontrar no exercício assíduo da guarda do coração, o espírito que não descuida de seu exercício secreto, esvaziará dos pecados exteriores os cinco sentidos do corpo. Inteiramente aplicado à sua própria virtude, desejoso de regozijar-se continuamente em bens pensamentos, ele não se deixará pilhar pelos cinco sentidos, que são o caminho de acesso aos pensamentos vãos e materiais; ele os dominará de dentro, por meio de um vigoroso esforço da vontade.

54. Permanecei em vossa inteligência e não tereis que vos afligir nas tentações. Vós vos afastais dela? Suportai as conseqüências.


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