Deserto vivo

10 09 2013

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“Antigamente, houve uma moda de desprezar tudo
quanto fosse relacionado com mosteiros e vida
monástica. Livro que saísse da pena de algum
monge não merecia ser lido: “Monasticum est, non
legitur; tem cheiro de mosteiro? Não se leia!”. Hoje,
os investigadores sérios, entre os quais um dos
maiores historiadores atuais, Arnold Toynbee,
afirmam que alguns dos momentos culturais mais
ricos e mais lúcidos da Igreja e do mundo foram
vividos durante a época do monaquismo oriental e
ocidental!
Evidentemente, este livro não versa sobre
monasticismo de qualquer época da Igreja; ele
pretende apenas mostrar como a busca de Deus, a
fome de procurá-lo é uma constante na vida
humana, em qualquer século da história. Pouco a
pouco, os homens e as mulheres foram descobrindo,
por experiência pessoal, a verdade daquela outra
frase da Bíblia: “Non in commotione Dominus: O
Senhor não se encontra no barulho” (39 Reis 19,11).
Catarina mostra, então, a comovente caminhada dos
peregrinos do seu país em busca deste Deus e a
heróica reclusão dos “poustinikki” que se afastam do
mundo para ficarem mais perto do céu.
Mas, nesta mesma reclusão ou afastamento, existe
um aspecto inesperado e profundamente
gratificante: o poustinik, o poustiniano (homem ou

mulher que se recolhe a uma cabana isolada para
meditar) não tranca nunca a única porta da sua
cabana. Tal medida pretende lembrar-lhe que ele
não foi à solidão do poustinia somente para
locupletar-se de Deus e depois aboletar-se numa
contemplação inativa, reclinado numa espécie de
nuvem branca de paz, muito perto do céu, mas
esquecida da terra que deveria regar com sua chuva!
Igualmente a porta fica aberta ou destrancada para
que os homens de fora possa entrar e o “retirante”
possa repartir com eles o grande pão vivo descido do
céu que é Deus e sua serena alegria. Catarina repete
muitas vezes esta idéia exatamente para prevenir
qualquer argumento dos ativistas modernos, para os
quais todo tempo dedicado ao retiro e à oração é
alienante! O poustiniano nunca foi nem será um
alienado!
Nos dias que correm, atira-se com muita facilidade,
como pedrada, a acusação de alienado ou alienante
contra qualquer pessoa ou instituição que se dedique
a um trabalho mais de oração do que de atividade
externa ou de “linha de frente”. Em que pese a seus
costumes estranhos, a certas extravagâncias — aliás
muito exageradas pelas lendas populares — e a
algumas de suas idéias, hoje inadmissíveis, os
padres do deserto podem ensinar-nos, melhor do
que ninguém, o sentido do absoluto na busca de
Deus: o que significa seguir Jesus Cristo em pobreza
e humildade, a teoria e a prática da oração.
Em nossa época de otimismo cósmico, suscitado pelo
incrível progresso tecnológico, com freqüência, nos
esquecemos de uma realidade tremenda que está

viva nos ensinamentos dos velhos monges e
eremitas: eles falam da presença do mal no coração
do mundo, no coração do próprio progresso material
e da necessidade de lutar contra este mal com
“oração e jejum”.
Disse muito bem santo Agostinho que “somente
através da amizade se pode conhecer alguém”. O
movimento de Madonna House, seu esforço
maravilhoso de dar aos homens de hoje uma
possibilidade para se encontrarem com Deus, no
silêncio e na meditação dos poustinias, tem que ser
visto com muita amizade e benevolência e não com
julgamentos a distância e preconcebidos. Aliás,
nosso homem moderno, derramado pelos cinco
sentidos do corpo, a despeito de toda a sua técnica,
não está em condições de criticar nenhuma forma de
experiência como esta do poustinia que se apresenta
como tentativa de restaurar o primado do espírito.
A busca da solidão, com vistas a um
aperfeiçoamento interior, é, provavelmente, quase
tão antiga quanto o próprio homem. Todos os
grandes fundadores e legisladores religiosos fizeram
esta experiência, desde Moisés que, na solidão do
Sinai, recebeu de Deus o primeiro grande código
moral da humanidade. Buda estruturou seu
pensamento religioso-filosófico vivendo na solidão.
São conhecidos os elogios de Pitágoras à vida de
silêncio e meditação e, segundo um dos seus
biógrafos antigos, ele próprio custumava levar uma
existência solitária no deserto (monázein en tais
eremíais). Marco Aurélio, o Imperador filósofo e
asceta, já nos princípios da era cristã, mas sem ser

cristão, expressa a inveja que sentia daqueles que
tinham possibilidade de se afastarem do bulício das
cidades a fim de viverem a sós com seus
pensamentos e meditações. Não podendo fazer isso,
ele diz, em uma de suas Meditações, que “Só lhe
restava retirar-se para dentro de si mesmo”. (Nestas
páginas, Catarina irá falar-nos do “poustinia
interior”.)
Mais ou menos na mesma época de Marco Aurélio,
dizia Díon Crisóstomo que “a instrução e a filosofia
requerem muita solidão e retiro”. Outras máximas
parecidas corriam entre os gregos, raça filosófica por
excelência. Pode-se, pois, dizer, sem exagero, que
antes da anachóresis (poustinia) cristã, ou ao
mesmo tempo que ela, existiu uma anachóresis
filosófica. A idéia do poustinia vem, portanto, de
muito longe.
Mas será que ela tem ainda um lugar nos tempos
modernos? Estariam os homens de hoje tão
irremediavelmente mergulhados na banalidade, que
não haja esperança para a reflexão e para a
oração?… “Uma imensa desolação caiu na terra,”
disse o Profeta Jeremias (12,11), “porque não há
ninguém que se recolha em seu coração”;
entretanto, nem por isso Jesus Cristo deixou de dar
mais uma “chance” à humanidade com sua vinda,
paixão e morte!
Não somos melhores nem piores do que os séculos
que já se foram. O “Homem Eterno” de Chesterton é,
hoje, a mesma mescla de luzes e sombras, altos e
baixos, avanços e retrocessos do homem de ontem.
Se, por acaso, ele se apresenta, agora, mais

horizontal, pelas preocupações do progresso
meramente material, também é verdade que se
sente enojado da sua horizontalidade e,
continuamente, deixa transparecer, para o bom
observador, o desejo de refluir sobre suas águas
derramadas e dispersas, em busca da própria fonte:
Deus dentro de si!
Catarina de Hueck Doherty tem afirmado isso
mesmo em vários livros dos quais já traduzimos
dois: Evangelho sem Restrições e SOBORNOST,
União na Fraternidade. Agora, em POUSTINIA, ela
apresenta aos leitores brasileiros o fabuloso refluxo
das águas! O fenômeno que se está verificando em
Madonna House não tem explicação humana:
homens e mulheres, moços e velhos — mas
sobretudo moços — que fazem fila, nas listas,
esperando uma vaga no “deserto vivo”, no poustinia,
numa cabana de troncos, escondida entre pinheiros,
para se encontrarem com Deus e consigo mesmos. É
sim, porque o maior problema dos homens de hoje é
que vivem eternamente fora de casa, fora de si
mesmos!
Aos que defendem a teoria da “ação a todo custo”,
convém lembrar que a oração ainda é a Alma de
todo Apostolado. E aqui Catarina se encontra com
Dom Chautard.
Um dos últimos Gerais da Companhia de Jesus,
numa carta sobre a vida interior, dizia que
aventurar-se a uma ação apostólica com os homens,
sem longa e diligente preparação de vida espiritual,
seria copiar, no apostolado, o trabalho dos antigos
limpadores de chaminés que se sujavam na própria
ação de limpeza que realizavam! Ora, as chaminés
do homem moderno estão ficando cada vez mais
sujas!…

O Tradutor
Pe. Héber Salvador de Lima, SJ
Combermere, Ontário, 15 de julho de 1979
(Festa dos quarenta mártires jesuítas do Brasil)

Fonte pesquisada: Catarina de Hueck Doherty Deserto Vivo (Poustinia)

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