Onde Deus Escavou o Poço

22 07 2013
Santa Clara

Santa Clara

Quando Deus terminou o céu e a terra,
as plantas e os animais, o homem e a mulher,

e  viu que “tudo era muito bom”,  Gn 1, 31
fez uma coisa nova: inventou o repouso.
Não era propriamente o doce fazer nada,
não havia nenhum sabor de cansaço,
não possuía o enfado de nossas tardes dominicais:
era simplesmente o estupor amoroso de Deus,
frente à beleza brotada de suas mãos,
o seu olhar sorridente sobre a bondade das coisas.
Era uma vida diferente: a vida contemplativa.
Deus não queria somente para si este privilégio
de gozar, do alto, de todas as maravilhas
onde deixou refletida a sua imagem.
É uma necessidade do amor condividir a alegria.
E Deus chamou o casal humano,
no qual beleza e força faziam síntese,
e convidou-o a participar da festa.
O homem e a mulher recusaram o convite
quando pretenderam fazerem-se ‘deus’ com as suas próprias mãos.
E, desde então, a humanidade não conhece mais repouso.
Mas Deus, que não renuncia nunca à alegria,
tentou de muitos modos convencer o seu povo
A deixar o Egito de obras cansativas
para “celebrar uma festa no deserto”, Ex 5,1
junto com Ele , na intimidade do amor.
Mas esse preferiu as cisternas rachadas
de seu inútil afã,
à fonte de água viva da contemplação de Deus.
Por isso, Ele “jurou no seu furor:
Não entrarão no lugar do meu repouso”. Sl 94,11
Então Deus sonhou o Homem novo e a Mulher nova
e o seu sonho fez-se carne em Jesus Cristo,
no seio de uma humilde jovenzinha: Maria de Nazaré.
O casal regenerador do novo povo de Deus
conheceu a estrada do deserto – angústia e solidão –
antes de alcançar a terra prometida do repouso,
e tornar-se modelo da humanidade do ‘sim’
ao longo do tempo para a Igreja em caminho no mundo.
É sobre este caminho que se entrelaçam as vidas
de Francisco e de Clara de Assis, o homem e a mulher
chamados juntos a proclamar o Amor que cria e se repousa,
que salva como Cristo e regenera como Maria.
Não se compreende o misterioso fascínio do ‘poverello’
sem a secreta beleza de Clara;
não está completa a sua mensagem eloqüente,
se não se compreende que esta mesma Palavra
se encarnou também, e silenciosamente, nela.
A água  purificadora e fecunda da simplicidade evangélica
que Deus quis derramar sobre a terra ressequida do século XIII
em um dilúvio benéfico que dura até hoje,
brota do sorriso de Clara no coração de Francisco.
A este, como ao primeiro homem, o Amor se revela
como convite ao repouso, ao louvor,
à ação de graças: um convite à contemplação.
Quando Francisco começou a restaurar a igreja de São Damião,
respondendo com zelo de menino ao chamado do Crucificado,
é que Deus estava ali, escavando o poço
de onde jorraria a veia de água contemplativa
da Senhora Clara e de suas irmãs.
É ali que a visão profética
de “mulheres santas e famosas” Testamento de Santa Clara 14
chamadas  juntamente com ele, por um único carisma,
a serem  “um povo humilde e pobre”,  Sf 3,12
“felizes de não possuir nada além de Deus”,  Legenda Perusina
o exalta e lhe assinala o espírito para sempre.
Francisco e Clara: esta nova edição atualizada e gratuita
da incessante obra criadora e redentora de Deus,
onde, não por acaso, não paralelamente,
mas segundo a misteriosa e inefável reciprocidade,
que sela o relacionamento homem – mulher,
a mesma experiência de fé, a idêntica seiva contemplativa
tomando diversamente corpo, forma e matiz.
Francisco e Clara: o novo casal
em cuja unidade humana aparece, em transparência, o divino;
ele, o sol inflamado do amor paterno de Deus,
ela, a água regeneradora do amor materno de Deus;
ele, queimado do desejo de contemplação
no seu incansável peregrinar de apóstolo,
ela, transbordante de ardor missionário
na silenciosa fecundidade de uma existência escondida.
Porque o amor é assim, quando é verdadeiro amor:
pede a luta e a quietude, a busca e o repouso,
o olhar adorador e o gesto operativo.
Não que Francisco proclame apenas uma dimensão e Clara a outra:
ambos são síntese viva e palpitante
de contemplação e ação,
mas o acento tônico de sua vida cotidiana
respeita a sua condição de homem e mulher
projetada no albor do mundo,
quando Deus presenteou ao casal humano
o paraíso para o tempo do trabalho,
e o repouso para o tempo do amor.
E Clara, que amou definir-se
“plantinha” de Francisco,  Testamento de Santa Clara 37 
quase surgida dele como Eva da costela de Adão,
compreendeu e viveu o seu compromisso de mulher
à insígnia do ‘sétimo dia’.
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