O valor da Comunhão – São Basilio, o Grande

18 07 2013
Monge Norbertino

Monge Norbertino

É evidente, portanto, que o amor para com Deus nos estimula a buscar a sua amável presença no mundo, no meio dos homens. E tal desejo corresponde à lei que determina, no fundo, a estrutura da sociedade. Pois para todos que tiverem bom senso, não há dúvidas de que a humanidade se distingue pelo relacionamento pessoal dos seus membros. “Quem não sabe que o homem é um ser manso, que procura a comunhão com os outros”, diz Basílio, “e não uma fera, que busca a solidão?” E por isso é óbvio: as pessoas que preferem uma vida isolada se colocam fora da realidade. “Nada é tão peculiar à nossa natureza”, continua Basílio, “como a vida comunitária, na qual precisamos dos outros e ficamos preocupados pela sorte de todos que pertencem ao nosso gênero.” Mas o cristão sabe que isto é só um primeiro passo. Ele tem de alcançar a perfeição. “Depois de termos recebido aquelas sementes, o Senhor reclama agora os frutos adequados”, frisa Basílio. “Ele diz: Dou-vos um novo mandamento. Amai-vos uns aos outros!,” No próximo se encontra aquele Deus que destarte quer ficar perto de nós.

Trata-se de um mandamento que vale para todos os fiéis. Mas o monge sabe que este chamado é para ele a pedra de toque do seu engajamento. E daí fica claro que se planeja toda a vida em função deste ideal.

Evidencia-se, porém, que isso exige, em primeiro lugar, cabeça fria. “Pois não dá para forjar metais exercitando-se em cerâmica.” Um bom conhecimento profissional é indispensável. E essa regra pode também ser aplicada na educação ascética.

Mas em seguida o artesão deve levar em consideração qual é o intento da pessoa que fez a encomenda. E isso tem de novo conseqüências. “Da mesma maneira que um ferreiro faz o seu trabalho, por exemplo, a produção de um machado, pensando no homem que o encomendou e na forma e tamanho por ele indicados, e executando-o conforme à vontade do mandante”, diz Basílio, “assim também o cristão deixa determinar todos os seus atos pela vontade de Deus, tanto faz que sejam de grande importância ou não”. O monge não é diferente dos outros. Ele pensa no projeto concreto, que tem de orientar a vida dos ascetas.

Eis uma visão que vai ser articulada. Mas é significativo que Basílio não deixe de salientar a importância do fundamento que sustenta todos os outros elementos. É preciso que se forje, antes de tudo, uma sólida comunidade.

Um dos motivos é simplesmente a disposição, que domina a nossa existência. “Estou convicto”, coloca Basílio, “de que a vida comunitária é para as pessoas que têm a mesma intenção, um modelo, que é muito útil para a solução das mais diversas questões.” Acerca disto, a experiência humana não deixa dúvida nenhuma. “Ninguém é capaz de suprir sozinho às suas necessidades corporais.” Para isso precisamos dos outros. “Pois exatamente como os pés têm algumas qualidades, mas não possuem outras, e a sua energia, privada da ajuda dos outros membros, não é bastante forte nem bastante durável e não é capaz de suplementar por si mesmo aquelas deficiências”, enfatiza Basílio, “assim também a vida na solidão faz com que se torne inútil o que possuímos e inencontrável que nos falta.” Pela vida comunitária se criam ótimas condições para atingir os nossos objetivos.

Mas não fica nisso. Os monges têm ainda um motivo mais profundo. Pois o Deus, que criou os homens para viverem em dependência mútua, revelou-nos em Cristo qual é o seu plano fundamental. Não é só a necessidade, que liga as pessoas. Somos chamados a sustentar-nos uns aos outros!

Ao ver de Basílio é, portanto, claro, que a vida eremítica não está em conformidade com a mensagem que Cristo nos deixou. “Ela entra em conflito com o mandamento do amor”. Cada um deve entender que a imitação de Cristo não é possível para gente que atende somente às próprias necessidades. “A quem você servirá”, pergunta Basílio, “quando mora sozinho?”

Entende-se, por isso, que a primeira comunidade de Jerusalém tenha escolhido um outro estilo de viver. Os cristãos eram um só coração, enquanto que não consideravam nada como sua propriedade privada, mas partilhavam tudo com os outros. Basílio fica entusiasmado. Eis um exemplo de fraternidade, que deve inspirar os monges. O campo está aberto. Todos podem engajar-se com as qualidades que o Criador lhes deu.

E o que é mais conforme à nossa condição humana do que dar graças ao Deus que preside o nosso destino? Basílio não tem dúvidas. “A natureza e a razão demonstram que isto é necessário.” Mas essa atitude brota, no meio dos fiéis, do íntimo do coração. Por isso, a comunidade dos monges se reúne, cada dia, para as horas da oração. Pois é destarte que se pode manifestar a sua gratidão para com o Deus, que sustenta a nossa vida, os nossos propósitos.

JUNTOS AO TRABALHO!

Os monges se sentem amparados pela oração. Mas já pudemos constatar que o compromisso da fé abrange mais. “Não é lícito pensar”, observa Basílio, “que a vida religiosa nos proporcione pretexto para a preguiça, que fuja ao esforço”. Pois a gratidão dos monges se dirige a um Deus, que constituiu o homem como dono da Criação. E isto significa que somos responsáveis pelo mundo, pela humanidade. Trata-se de uma tarefa, que exige a colaboração de todos. Temos de unir as nossas forças no trabalho!

Sim, ficou claro que, desta maneira, se favorece também o próprio interesse. Mas é significativo que Basílio não insista nisso. O nosso duro labor se torna agora só um meio para estabelecer o reino do amor desinteressado. E é óbvio que os monges têm de dar o exemplo. “O fim do trabalho deve ser o serviço aos necessitados”, acha Basílio, “e não a preocupação com o próprio abastecimento.” É nesses infelizes que se encontra o Cristo mesmo! E por isso se ouve na Igreja primitiva o apelo, que todos se dediquem ao trabalho. Pois daquele modo se cria também a oportunidade para sustentar os pobres.

Basílio acha, portanto, que os monges têm de aprender as mais diversas profissões. O mosteiro precisa de tecelões, ferreiros, pedreiros, carpinteiros e sobretudo de lavradores. Até mesmo os órfãos que são acolhidos na comunidade devem ser formados para tomar parte no trabalho. A única restrição é que o labor não atrapalhe a piedade, a paz da vida monástica.

É evidente, no mais, que tal engajamento ajudará a confirmar a credibilidade do cristianismo. Não somente porque o lucro da venda dos produtos serve também para ajudar aos pobres, mas também porque a própria inventividade, com a qual o homem é capaz de melhorar a sua sorte, merece, ao ver dos sábios, a admiração de todos. Aqui se vê como a nossa inteligência, a nossa perspicácia tiram proveito das leis, que dominam a natureza. E podemos constatar que Basílio valoriza também este aspecto. Mas o motivo é mais fundamental. Aquelas profissões nos mostram, antes de tudo, qual é a tarefa que o Criador nos delegou!

“Deus nos deu a ajuda das diferentes artes para suprir às deficiências da natureza”, acredita Basílio. “A agricultura, por exemplo: porque os frutos da terra não são espontaneamente tão numerosos, que bastem para prover as nossas necessidades. A tecelagem, porque precisamos de vestidos, tanto para a decência quanto para proteger-nos contra o mau tempo. O mesmo vale para a construção. E a medicina nos proporciona também uma ajuda essencial, visto que o corpo está sujeito a vários males.”

Não há dúvidas: além das outras profissões, Basílio aprecia especialmente a arte medicinal. Ela merece um grande interesse dos monges. É verdade, sim, que há também curandeiros. Mas ninguém pode negar que a pesquisa dos médicos teve ótimos resultados. E isto é para o cristão um motivo a mais para ser grato. “Pois não foi por acaso que as ervas, que se usam para curar as diversas doenças, germinaram da terra”, observa Basílio. “Ao contrário, a vontade do Criador fez com que fossem produzidas para o proveito dos homens”. O mesmo vale, aliás, para a força natural, que há nas raízes, nas flores, nas folhas e nos frutos. E quem se atreveria a menosprezar tal ajuda?

Entende-se, porém, que os fiéis entregam, apesar de tudo, a sua vida nas mãos da divina misericórdia. “Mas como cultivamos a terra, enquanto que rezamos a Deus pela fertilidade da plantação”, observa Basílio, “assim também recorremos, quando for preciso, a um médico, sem perdermos a confiança no Deus da nossa salvação.” Revela-se em tudo um amor carinhoso, que não vai abandonar-nos.

Fonte: MEULENBERG, Leonardo. Basílio Magno: Fé e Cultura. Petrópolis, RJ. Ed. Vozes, 1998.

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: