Vilmuason: o Padre Tijon

7 06 2013

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Era a festa da Ascensão que cai na primavera, exatamente no final de Maio. Dia suave e cheio de sol, os lilases já tinham florescido e nos pomares viam-se pequenas pêras e maçãs. Sentei-me com o Padre Tijon num banco do jardim.

Faz calor. Temos que viver e nos alegrar, pois quem se dedica à oração de Jesus como o peregrino, terá sempre a primavera na sua alma. Não devemos apegar-nos a nada nem viver no passado, tampouco no futuro, mas viver no presente e agradecer tudo a Deus. E assim, tudo vai passando. Meu padroeiro, São Tijon de Zadonsk, escreveu: “Tudo é como a água que corre. Fui pequeno, órfão, pobre e isto passou. Freqüentei a escola gratuita, zombavam de mim, mas isto já passou. Terminei o seminário sendo o primeiro, fui professor, me respeitaram, mas isto também passou. Fizeram-me prior de um grande mosteiro, depois reitor do seminário. As pessoas que me rodeavam buscavam os meus favores, mas isto passou. Fui arcipreste, viajei em veículos luxuosos, vivi na corte, vi muitas coisas boas e más, adularam-me, e isto passou. Retirei-me, sofri pressões e chegaram as doenças, mas isto passou. Depois virá a velhice e o descanso eterno”.

Aí tem você, Sérgio Nicolaevich, nossa vida. Nasci de uma família pobre, mas estudei num bom Instituto, saí como oficial, estive na corte, pude provar todas as coisas da vida e saciar-me delas, mas isto passou. Logo vieram os fracassos na Academia, meu casamento com uma divorciada, intrigas, fui levado a juízo, vieram calamidades sobre calamidades, mas isto passou. Cheguei a ser coronel, mas já tinha perdido interesse em minha carreira. Dei-me conta de que tudo é apodrecido e passageiro. Em seguida veio a guerra, a revolução, a guerra civil, a emigração, uma dolorosa doença da qual quase morri. Logo, outra mais dolorosa e incurável se abateu sobre minha mulher e ela morreu. Veio o trabalho pesado como operário, mas isto passou. Todas estas dores e todos estes sofrimentos me levaram ao mosteiro e me levaram à fé, e aprendi a arte da oração contínua e da alegria em tudo. Sem o sofrimento nunca teria alcançado a fé.

Padre Tijon – perguntei ao monge – como se alcança a paz da alma? como se evitam lamentações inúteis e ilusórias esperanças?

– Precisamente como lhe disse: vivendo o presente. “A cada dia basta o seu mal”. Sobretudo você deve dedicar-se à oração e então se abrirá para você um mundo novo e milagroso. Que dizer? Você conhece as borboletas noturnas? Elas nos parecem cinzentas e pouco atrativas, mas para as outras borboletas que as olham com olhos distintos, são maravilhosamente belas, brilhantes, com as tonalidades do arco-íris. Assim também, o mundo parece outro àqueles que alcançaram a luz, como o peregrino. Em tudo vêem a majestade do Criador e sua inesgotável misericórdia. E quando se começa a assimilar a oração, chega-se com prazer a penetrar na essência das coisas de um modo inexprimível. Só se pode compreender isto com a experiência.

– Há perigo de se cair na soberba?

– Claro que sim, mas pode evitar-se. São Macário, o Grande, ensinava justamente que há salvação ainda para os que não possuem todas as virtudes, mas que sem humildade a salvação é impossível. O publicano e o bom ladrão nada possuíam, mas se salvaram pela sua humildade. Satanás tinha tudo, menos humildade e se perdeu para sempre. O pensamento de Deus é bom e também as meditações sobre os grandes mistérios que nos rodeiam, mas feito tudo com humildade e sem condenar os outros, pois é muito perigoso. Os heresiarcas eram pessoas capazes, mas não tinham alcançado a humildade. Caíram na soberba, rebelaram-se contra a Igreja e pereceram.

– Li, Padre Tijon, que os anacoretas do Tibet que se exercitam repetindo os “mantras” (orações), como “Tesouro do lótus, eu te saúdo”, chegam pouco a pouco à calma e ao êxtase. Quando chegam a uma situação-limite, então, pouco a pouco vão encurtando os “mantras”, até que finalmente chegam a fazê-la uma vez durante a noite; contemplando desde a gruta a majestade do céu estrelado, dizem: “Oh!” E chegam, por meio da contemplação, à grandeza revelada.

Perguntaram uma vez a Albert Einstein se ele tinha fé. Respondeu o cientista: “Se por fé se entende a admiração diante da sabedoria e da grandeza que reinam no mundo, tenho fé”. Mas não reconhecia os dogmas. Que me diz disto, Padre Tijon?

– Não julguemos o que vêem os anacoretas do Tibet, nem como Einstein entende a divindade. Nós temos a Sagrada Escritura, a Dobrotolubie (Filocalia) e a experiência de muitos justos. Exercitando-nos na oração de Jesus, chegaremos humilde e pacientemente, a seu tempo, a conhecer o que é conveniente. De outro modo, nos enfraqueceremos. O principal é tender a este amor, amor à Verdade, isto é, amor a Deus e amor ao próximo. Deus é amor. Aqui está a diferença entre nós e os justos hinduístas e budistas: para eles o principal é o conhecimento e o mal é a ignorância, e para nós, o principal é o amor. No Juízo Final não seremos interrogados sobre onde, quando e como oramos ou meditamos, mas se demos de comer, de beber, se vestimos e visitamos o nosso próximo. Com base nisto, é que seremos condenados ou absolvidos, mas não significa que não possamos entregar-nos à contemplação. Isto convém sobretudo na velhice, quando já não temos a força para praticar a caridade ativa, e também a quem Deus chamou para a vida contemplativa. Os anacoretas não devem isolar-se completamente, mas devem responder verbalmente ou por escrito às perguntas espirituais que lhes sejam feitas. Os grandes anacoretas, como Antônio, Macário e outros, assim o fizeram. E tudo isto deve ser feito com alegria.

Peregrinando para Deus

Sérgio N. Bolshakov

Fonte:http://www.ecclesia.com.br

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