o Abade João do Novo Valaam (Peregrinando para Deus Sérgio N. Bolshakov)

7 06 2013

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Novo Valaam: o Abade João do Novo Valaam

Um dia de agosto, estávamos sentados conversando no jardim do Novo Valaam, o abade João e eu. Ainda que estivesse o tempo parado e brilhasse o sol, sentia-se já a aproximação do outono. A manhã tranqüila brilhava dourada pelo sol, e o ar era translúcido.

– Padre João, diga-me se há alguém que abandona a Oração de Jesus.

– Como não? O demônio se mete em toda a parte. Se um demônio procura tentar um leigo, ao monge o tentam dois, e ao que pratica a Oração de Jesus, três. Você leu a “Antologia da Oração de Jesus” e “Conversações sobre a Oração de Jesus” que editou o falecido Cariton?

– Li-as.

– Ali se fala muito disto, de sua substância e da necessidade de uma profunda humildade e de não se sobre-valorizar quando se reza esta oração, como fazem alguns. Para que rezamos? Para que lembrando-nos continuamente do Senhor e arrependendo-nos de nossos pecados, cheguemos à serenidade espiritual, ao silêncio interior, ao amor do próximo e à verdade. Então vivemos em Deus, que é amor.

Mas há pessoas que consideram esta oração como uma magia com a qual conseguem a adivinhação de pensamento, o dom de milagres e de cura, etc. Este proceder é muito pecaminoso, e os que assim agem, são enganados pelo demônio que lhes concede certos poderes e logo, com eles, os faz perecer para sempre.

Eu fui abade em Pechenguy, que está muito distante, no litoral do oceano Ártico. No verão o sol não se põe durante três meses, e no inverno, há três meses de noite, e se encontra numa imensa solidão: o oceano tempestuoso, a desolação e, por todas as partes, as melancólicas tundras.

Acontece muitas vezes que os que oram intensamente nestas condições, chegam a desgastar-se. Alguns monges enlouquecem e começam a ouvir vozes e ter visões. Um deles começou a ouvir vozes como de anjos em sua cela. Estas vozes lhe diziam que já havia alcançado grandes alturas espirituais, que poderia fazer milagres como o Salvador e andar sobre as águas. O pobre se deixou convencer e quis comprovar o fato por si mesmo, caminhando por sobre uma fina capa de gelo, como não tivesse peso algum. O resultado foi que se afundou nas águas. Como gritou, o salvaram, mas adoeceu por causa da água gelada e logo morreu arrependido. Este é um caso extremo, mas a outros o demônio os vence de outro modo: rezando e vendo em si mesmos certo progresso espiritual, começam a vangloriar-se e a considerar a todos indignos e inferiores a si, e crêem que são vasos escolhidos de Deus. Estes, em geral, condenam a todos, se irritam facilmente, quando os repreendem e sempre estão inquietos. Embora o apóstolo São Paulo tenha dito que os que invocam o Senhor Jesus Cristo e o confessam como Filho de Deus serão salvos, o mesmo Salvador nos ensina que “nem todo o que diz ‘Senhor, Senhor’, será ouvido, mas o que cumpre a vontade do Pai Celestial”. E apesar de estes invocarem o Senhor, o seu coração está longe dele. É necessário, então, acrescentar à oração a observância dos mandamentos, porque a fé sem as obras é morta e as obras feitas com fé alcançam a perfeição.

– E como saber a quem a pessoa deve dirigir-se em busca de conselho, Padre?

– Procure um staretz sereno, bondoso, humilde, que se conserve na paz de sua consciência e no silêncio interior, isto é, que a ninguém condene. Mas fuja dos que estão descontentes, apegados ao dinheiro e que julgam a todos, porque a sua companhia poderá perverter você. Lembre-se, contudo, que com a orientação de um staretz se pode viver um tempo, mas quando se começa a fazer oração e a vigiar os pensamentos, para que você precisará mais de staretz? Não se pode permanecer sempre criança. Temos de nos tornar responsáveis com os anos e pode ser que, com o tempo, você mesmo chegue a ser um staretz.

– Como pode ser isto?

– Muito simples. O staretz é um homem rico em experiência espiritual e sabedoria e com um grande amor a todos. Os staretzs podem ser simples monges, como o supra citado Zosima Verjovsky de quem Dostoievsky copiou seu staretz Zosima: leia a sua vida e você mesmo verá. Assim também foram São Basílio, João de Moldávia, o glorioso santo staretz abade Melquisedeque, que viveu até os cento e vinte anos. O staretz Daniel Aginsky, grande santo e mestre da Sibéria, e Kuzma Bisrky eram simples leigos e iam procurá-los não somente leigos, mas sacerdotes e até monges e bispos em busca de seus sábios conselhos. E houve um grande staretz: o autor dos Relatos. Soube que foi um camponês de Orlov, segundo um manuscrito que encontrei entre a correspondência do Padre Ambrósio de Optina e que tinha sido encontrado no mosteiro de são Panteleímon, no Atos. Provavelmente, este peregrino, voltando da Terra Santa a seu lar na Rússia, passou pelo Atos, como faziam muitos e contou suas viagens ao staretz Jerônimo Solomentsev. Este ordenou talvez que ele as escrevesse; ele as terá escrito e talvez tenha ficado no Atos.

– As peregrinações são uma façanha, Padre João?

– Sim, e somente a loucura por Cristo a consegue, e não é permitida senão a poucos e sempre com a bênção de algum santo staretz. Se não podemos suportar o pequeno, como poderemos suportar o grande? O staretz Leônidas de Optina costumava contar a estória seguinte: Havia um monge que sempre o molestava pedindo-lhe que lhe permitisse usar cilício e o staretz respondia: “Para que queres usar cilício? Ser monge já é um cilício pesado, se fores monge como deves ser”. Mas o monge continuava pedindo. Por fim o staretz lhe permitiu, mas, chamando o monge ferreiro, lhe disse: “Amanhã irá um monge procurá-lo pedindo-lhe que lhe faça um cilício. Então você lhe dirá: “Para que você quer cilício? E dê-lhe uma boa bofetada”. No dia seguinte, chegou o monge muito feliz, e disse ao staretz que tinha pedido ao ferreiro que lhe fizesse um cilício e, como resposta, ele lhe tinha dado uma bofetada. “Bem – disse-lhe o staretz – se não suportas uma bofetada e vens logo queixar-te, para que queres usar cilício? Não se deve pedir mais do que o que se pode dar”.

– O Padre Mijail lhe disse: “Irmão, semeie a boa palavra em toda a parte, nos espinhos, no caminho e nas pedras; pode ser que cresça e dê fruto até cem por um”. Que pensa sobre isto, Padre?

– Se foi o Padre Mijail quem disse isso, tem -se de ouvir. Semeie a boa palavra em toda a parte e será “peregrino” como o Peregrino. Isto, irmão, não é uma pequena façanha.

– Poderei perseverar, Padre?

– Com fé, você poderá, porque está escrito: “Tudo posso naquele que me conforta”. Exercite-se na Oração de Jesus e ela o estimulará para você o conseguir.

Fonte:http://www.ecclesia.com.br

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