Nierko-Iervi: Nina S. Nicolaevna

7 06 2013

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Estava eu sentado com Nina Nicolaevna na pequena sacada da “dacha” de Nierko-Iervi, no meio de um enorme bosque que se estendia desde Komio até ao sul pela tundra de Laplandy. A “dacha” se encontrava isolada, em meio de um espesso bosque, às margens de um lago aprazível. O sol poente se refletia nas tranqüilas águas douradas. Eu admirava sem cansar-me o jogo de cores sobre o lago. Se de manhã era profundamente azul, era quase negro na aurora, rosa ao crepúsculo e mais tarde, rosa, roxo, violeta e negro. O céu azul-claro estava sem nuvens e alguns pássaros gorjeavam no bosque. O aroma das flores e a frescura do lago chegavam até nós.

O marido e os filhos de Nina Nicolaevna já tinham ido deitar-se, e nós estávamos na sacada admirando as cores cambiantes do lago. A noite diáfana reinava em toda a sua beleza.

– Aqui estamos tão tranqüilos, Nina Nicolaevna, como se fosse outro planeta ou vivêssemos trezentos anos atrás, quando havia pouca gente, não existiam trens, automóveis, aviões e, contudo, as pessoas que buscavam o silêncio emigravam para o norte, para a ilha Solovky no Oceano Ártico.

– Só aqui descansa a minha alma, Sérgio Nicolaevich. Somente aqui há lagos e bosques, não há cidades, nem povoados. Nas grandes cidades se vive com dificuldade: ruído, ar contaminado, agitação, multidões. E onde há muita gente, há intrigas, invejas, calúnias e outros males. Quando eu era jovem, gostava de toda esta agitação e ruído. Fui muito infeliz no meu primeiro casamento. Meu marido era um homem simpático, inteligente, mas superficial, desordenado, sem fé nem princípios. Quando tudo terminou em tragédia, voltei à fé. Fui a Valaam encontrar-me com o Padre João para pedir-lhe conselho: “Sabe, serva de Deus – disse ele – não sofra demasiado, como se tudo estivesse perdido. Você é jovem e pode mudar as coisas. Ademais, o Senhor nunca nos manda provações superiores às nossas forças. Lembre-se sempre disto: existe uma tradição que diz que certo monge se entristecia pela sua vida e murmurava contra a sua pesada cruz. Uma vez teve um sonho em que se via a si mesmo numa enorme gruta em cujas paredes estavam penduradas muitas cruzes. Havia cruzes de ouro, de prata, de ferro, de pedra, etc. Nisso ouviu uma voz: “A sua oração foi ouvida! ‘Escolha qualquer uma destas cruzes, a que julgar adequada a suas forças’. O monge começou a buscar com muita atenção e por fim encontrou uma pequena cruz de madeira. ‘Posso levar esta?’ perguntou. ‘Mas se esta for a tua cruz, as demais serão ainda mais pesadas’, respondeu a voz. Agora te parece que tua cruz é pesada e, contudo, eu, como staretz, ouço amiúde e vejo tantos horrores, que é um pecado você murmurar contra Deus. Reze freqüentemente repetindo a Oração de Jesus, e entregue-se à vontade de Deus. Ele próprio lhe mostrará o caminho a seguir, então venha outra vez e lhe direi o que puder”. E me deixou.

Passaram-se alguns anos. Eu trabalhava num lugar modesto e vivia tranqüila. Uma vez me convidaram a um baile, e embora já tivesse trinta anos. aproximou-se de mim um cavalheiro um pouco maior que eu e me convidou para dançar com ele. Aceitei. Depois, encontramo-nos duas vezes mais. Disseram-me que este cavalheiro era solteiro, um dos mais ricos da colônia escandinava e respeitado por todos. É ele meu atual marido e um homem muito interessante. Depois de uns dois ou três meses que nos conhecíamos, pediu-me em casamento. Meus pais ficaram entusiasmados com semelhante partido, porém, por causa de minha experiência anterior, me mostrei cautelosa e desconfiada, pedi-lhe um tempo para pensar sobre a minha resposta. Meu noivo aceitou. Procurei o staretz de Valaam para pedir-lhe conselho e lhe contei tudo. Esteve pensando alguns minutos e depois me disse: “Serva de Deus, lembre-se que lhe disse que tudo se acertaria e que o próprio Deus a conduziria pelo caminho certo, e isto aconteceu. Tenha sempre presente que as penas e o sofrimento não desaparecem, mas se transformam. Em lugar da pequena cruz de madeira de uma vida humilde, pobre, desconhecida, lhe darão uma cruz de ouro que você poderá levar, se praticar a misericórdia e a beneficência, mas será mais pesada. Inveja-la-ão, calunia-la-ão, procurarão indispor você com o seu marido e com a sua família, etc. Mas se você não se apegar nem às riquezas, nem às honras que logo virão, e à vida agitada, então você conservará a paz interior, sobretudo se você se exercitar, o mais possível, na Oração de Jesus. E ainda aconselho você a retirar-se, uma vez por ano pelo menos, a um lugar solitário e aí entregar-se à oração e à meditação. Você verá quanto lhe será útil”.

Tenho muitos anos de casada, e durante um mês, cada ano, venho aqui. No começo, meus filhos e meu marido não gostavam muito, mas agora todos esperam este momento. Isto é o paraíso. E devo dizer que o staretz estava certo porque a cruz das riquezas é mais pesada que a cruz da pobreza, e é, além disso, mais perigosa, porque é fácil cair no orgulho e ficar impassível diante da dor alheia.

Agora há um staretz maravilhoso no Novo Valaam, o hieromonge Mijail, o Recluso. Vá conversar com ele sobre suas dificuldades na vida e ele lhe dará conselhos. Dei-me conta através dos anos que a coisa à qual se aspira com obstinação, lutando contra tudo, e que finalmente acontece, não é útil, mas prejudicial, porque ou a pessoa se mortifica pela coisa, ou se torna indiferente, ou percebe que o esforço não valia a pena. O que vem de Deus, vem só, ou como diz o Evangelho: “O Reino de Deus não vem visivelmente, mas está dentro de nós”.

Há muito, muito tempo, quando começou o sofrimento com o meu primeiro marido, disse a uma tia, que era uma mulher de muita experiência: “Vou deixar meu marido. Deixarei tudo e outra vez serei feliz”. Ela respondeu-me: “Vê-se que você é jovem, Nina. Você nunca poderá fugir de si mesma e se tiver paz em sua alma, estará bem em toda a parte. Na vida não se pode fugir do sofrimento, deve-se ter paciência, orar e esperar, e o Senhor lhe mostrará o caminho a seu tempo. Esta é a verdade, mas quando a gente é jovem, não entende isso”.

Calamo-nos. O lago estava mais escuro. “Já são onze horas da noite – advertiu Nina Nicolaevna e está claro como o dia. Está na hora de descansar, Sérgio Nicolaevich, boa-noite!”

Peregrinando para Deus

Sérgio N. Bolshakov

Fonte:http://www.ecclesia.com.br

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