Mosteiro de São Panteleímon no Atos: Padre Misail (Peregrinando para Deus)

7 06 2013

3146-Skete of Saint Panteleimon

Mosteiro de São Panteleímon no Atos: Padre Misail

Em 1951, encontrei-me com o Padre Misail no Atos, quando ele era hospedeiro no mosteiro de são Panteleímon. Era alto, esguio, de inteligência clara e boa memória, piedoso e afável. Chegou ao Atos em 1896 e gostava de contar que, de caminho, tinha passado por Moscou, quando estavam preparando a coroação do Imperador Nicolau II, a quem admirava ainda mais que o staretz Mijail.

Um dia eu estava em minha confortável residência, onde tinha na parede os retratos do imperador Alexandre II e sua esposa, e do metropolita Filaret. A janela e as portas que davam para a sacada, assim como os pilares estavam cobertos de glicínias em flor que se estendiam de uma parte a outra. Abaixo viam-se os edifícios dos mosteiros e das igrejas, os jardins, as montanhas e o céu azul inundado da luz clara da manhã.

Sentado à janela, pensava no manuscrito que tinha encontrado numa seção da rica biblioteca do mosteiro, o manuscrito dos “Relatos de um Peregrino”, escrito com uma preciosa grafia e anotado no registro, na seção de edições várias de contos impressos. Sem dúvida, diante de mim estava o original com que o arquimandrita do mosteiro Chereminskovo de Kazan tinha editado seu livro. Interessou-me o fato de que, comparando o original com o livro, neste haviam sido omitidos não só parágrafos inteiros, mas também duas extensas narrações. Bateram à porta e entrou o Padre Misail.

– Disse a Basílio que trouxesse chá e pão com doce para um lanche.

– Preocupa-se muito comigo, Padre Misail; isto me confunde.

– Como não preocupar-me? Você é um hóspede fora do comum. É raro vir um russo a este lugar, como acontecia antes. Quando vemos isto? Sobretudo vêm estrangeiros, protestantes e católicos, e com mais freqüência curiosos, sem a verdadeira fé, só para ver como é. Vão de um mosteiro a outro, e temos que lhes mostrar tudo e destinar-lhes, para isto, uma pessoa. Mas você se preocupou com o manuscrito. Está muito bem escrito em russo.

– Olhe, Padre Misail, este é o original dos “Relatos de um Peregrino”. Provavelmente, o Peregrino esteve no Atos e escreveu suas viagens para seu padre espiritual, o hieromonge Jerônimo Solomentz. Quando o arquimandrita de Kazan publicou o livro, tirado do manuscrito, omitiu não poucas coisas: entre outras, duas extensas narrações.

– E por que as terá omitido?

– As pequenas omissões se entendem. O peregrino se opõe tenazmente aos teólogos da academia, dos quais procediam os arciprestes. Tão livre maneira de pensar podia desgostar a hierarquia ou trazer dificuldades com os arquimandritas, e isto ele não queria. O peregrino criticava a miúdo a antiga escolástica que se ensinava, por isso o arquimandrita pulou duas narrações as quais, segundo ele, podiam perturbar os monges que as lessem. O manuscrito era feito por um leigo para seu padre espiritual.

– E que contavam estas narrações?

– Na primeira, cujo princípio se encontra no livro, conta-se que o peregrino pernoitou uma vez numa hospedaria de fama suspeita e acordou quando os cavalos de uma tróica conduzida por um cocheiro bêbado se precipitaram na isbá, fazendo em pedacinhos a janela debaixo da qual ele dormia. E o manuscrito dizia que, quando o peregrino se dispunha a dormir, aproximou-se dele uma mulher com más intenções e começou a acariciá-lo, o que lhe despertou as paixões, e a oração acostumada que morava nele se deteve. O peregrino provavelmente teria caído em pecado, se não estivesse ali uma tróica. A mulher, fortemente impressionada, adoeceu, mas foi curada mais tarde, pela oração do peregrino.

– Sim, é uma grande coisa a Oração de Jesus, Sérgio Nicolaevich – observou o Padre Misail. Na realidade, salva da morte e da vergonha. Por outra parte, isto é certo: quando se levanta a paixão carnal, a Oração de Jesus cessa. Então precisa-se de um grande esforço para recuperá-la.

– Parece então que esta oração a praticam pessoas casadas. Como assim? – perguntei-lhe.

– Que erro! Uma coisa é um casamento abençoado e legítimo e outra é a paixão carnal, para não dizer o adultério, quando apareceu a mulher de outro ao peregrino. Naturalmente, o arquimandrita pensou que ele não sabe distinguir as coisas e certamente pode escandalizar-se. E você sabe o que acontece com os que causam escândalo? Mais lhes valeria não ter nascido. O demônio é astuto, vence-nos de uma maneira ou de outra, e pode matar em nós até a mais elevada oração, se não temos humildade. Compreende?

Cheguei aqui, há muito tempo, em 1896. Vi o Padre Stratonik que admirava o Padre Siloan, a respeito do qual escreveram o Padre Sofronos e também o Padre Hilário, o mesmo que foi ser anacoreta e escreveu: “Nas montanhas do Cáucaso”. Este era um bom livro, do qual foram feitas duas edições, aprovadas pela censura. O Padre Hilário não é acadêmico e se expressa com pouca clareza, mas sua fé é verdadeira. Caiu este livro nas mãos de dois discípulos aristocratas, do Padre Antônio Bulatovich, do mosteiro de santo André, e do Padre Alexei, de nosso mosteiro, e começaram a discutir sobre ele.

Para um, o livro estava cheio de sabedoria e verdade, e para o outro, cheio de heresias. Suas discussões escandalizavam a não poucos monges simples, e em seguida começou a confusão. Foi necessário expulsar do Atos cem monges. Juntou-se a isso a guerra e teve início a queda do Atos russo. E agora, onde chegamos? Ficaram alguns velhos, mas nenhum jovem. Se os Padres Antônio e Alexei se tivessem dedicado à Oração de Jesus com humildade de coração, não se teria desencadeado semelhante escândalo. Como se pode orar e insultar-se? Há orgulho, intolerância e ambição. Como se pode rezar a Oração de Jesus e continuar pecando sem arrepender-se? Esta oração certamente os condena.

– E como pode saber-se, Padre Misail, quem é o homem que se esforça devidamente para santificar-se?

– Conhece-se logo, porque ele não julga ninguém. Conta-se do arquimandrita Isaac de Optina que, quando os monges vinham queixar-se uns dos outros, os escutava com bondade, mas acabava indefectivelmente exortando-os a que se perdoassem mutuamente. O Padre Isaac não julgava ninguém, mas os padres Antônio e Alexei não procederam assim e terminaram mal. Permaneça sempre em paz, Serguei, e você se salvará.

Fonte:http://www.ecclesia.com.br

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