Mosteiro de Alexandre Nevsky: Staretz Basílio

7 06 2013

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Eu tinha um pouco mais de sete anos. Ia com minha avó Elisabeta Alexieievna pela ponte do rio Monastir até a Lavra de Alexander Nevsky, em São Petersburgo. Era pleno inverno e fazia muito frio, mesmo com o sol. De repente, vemos que se aproxima de nós uma figura alta e singular. Era um ancião de batina azul, cabeça descoberta, cabelos brancos e barba. Tinha nas mãos um báculo de madeira negra, terminado em uma coroa. Porém, o que mais se admirou foi ver o ancião caminhar descalço pela neve, neste frio terrível e seus pés, em vez de estar entanguidos pelo frio, estavam rosados, como se caminhasse por sobre um suave tapete. Estava pasmo de admiração e fiquei mais ainda quando o ancião, vendo minha avó, se dirigiu diretamente a nós:

Olá, Elisabeta Alevieievna! Você está vindo venerar as relíquias com este frio? Muito bem! Não nos devem afastar de Deus nem o frio nem o calor.

– E esta criança é seu neto? Bem, bem, que o Senhor esteja com vocês. E o ancião deslizou majestosamente diante de nós.

– Quem é ele, avozinha? – perguntei-lhe.

– É o staretz Basílio, meu filho. É um homem espiritual. Todos o recebem. Tem acesso até ao próprio czar e foi ele quem lhe deu o báculo com a coroa.

– E como é que ele consegue andar descalço, avozinha? Eu tenho sapatos forrados e meus pés estão gelados, tenho um gorro que cobre minha cabeça até as orelhas e ele não tem luvas e está com a cabeça descoberta. Como pode ser isso?

– É que sua oração o abriga. Em tempos antigos, no longínquo Norte, viviam homens santos em cavernas e havia até alguns que moravam em troncos de árvores ocos, suportando frios terríveis, mas sua oração os abrigava.

– E qual é a oração, avozinha?

– É a oração que se chama Oração de Jesus: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador!” Os monges têm obrigação de rezá-la em suas celas e também é aconselhável para os leigos. Quem persevera nesta oração e a reza continuamente, sente-se confortado. Para esta pessoa nada significam o frio nem o calor, e não sente fome nem sede. Mas agora a fé se arrefeceu e até nos mosteiros ela foi esquecida ou é rezada mecanicamente. Os monges de hoje não possuem a audácia da fé que move montanhas e cura doenças. Se o staretz Basílio pode caminhar descalço com vinte graus abaixo de zero, quer dizer que tem fé e sabe orar.

– Somente os monges praticam esta oração?

– Não, não somente eles. João de Kronstadt, homem de profunda oração, também faz milagres e faz curas. Existem ainda tais homens no mundo. Agora você é pequeno para entender isto, porém mais adiante o entenderá. Assim era a tia-avó de tua mãe, que depois foi superiora de um convento. Pertencia aos velhos-crentes, como seu compatriota o bispo Paládio, metropolita de Petersburgo, que é uma pessoa muito boa. Tinha sido antes professor, e quando lhe morreram mulher e filhos, fez-se monge, e agora já faz muito que é metropolita. Lembro-me também do falecido bispo Isidoro, que, quando morreu, tinha mais de noventa anos, e então não descansou, mas governou até o final de seus dias. Quem é sóbrio, moderado e sacrificado, vive muito e termina bem. Você, glutão, gosta de comer bem, mas isto não está certo. Não se deve apegar às coisas, porque tudo passa.

– Que quer dizer “tudo passa”? – perguntei à avozinha – Já sei que o verão e o inverno passam, porém, que mais passa?

– Você tinha seu avô, Abraão Pavlovich, e agora já não tem mais. Ele passou.

Tais raciocínios me deixaram perplexo, e não me atrevi a perguntar mais. Entramos na Catedral da Trindade, luminosa, clara e serena. Minha avó pegou as velas e fomos colocá-las na urna do servo de Deus, o santo e bem-aventurado Príncipe Alexandre Nevsky. À saída, veio ao nosso encontro um monge imponente.

– Com este frio, veio com seu neto, Elisabeta Alexieievna? É admirável.

– E encontramos o staretz Basílio – acrescentei por minha conta. – Estava descalço e com a cabeça descoberta e não sentia frio. Como pode ser isto?

– Como você é curioso! – sorriu o monge. Sua Oração de Jesus o abriga como um manto de pele e ele caminha pela neve como se caminhasse por sobre um acolchoado. Já ensinava isto o recém-glorificado santo de Sarov, Serafim. Reze deste modo. Aprenda esta oração e repita-a, e logo você verá por si mesmo. Agora você é muito pequeno, mas comece a fazê-lo a seu tempo para não se perder e abandonar completamente a fé, como acontece aqui com os estudantes. E sem fé, irmão, você não poderá viver.

– Meu neto – observou minha avó – é muito piedoso. Tem seu quarto repleto de ícones. Acende velas e lâmpadas diante deles e reza. Vê-se que herdou esta inclinação da abadessa Anfisa.

Hoje são piedosos, mas crescem e caem no ateísmo. Mas você, Serioya, não deixe a oração. Ore como quiser, mas ore. Aproximam-se tempos difíceis. Houve uma revolução, que agora amainou, mas só por algum tempo. São Serafim previu tempos difíceis e teremos que nos manter com a oração e com o sacrifício. Nós, porém, Elisabeta Alexieievna, não viveremos para presenciarmos estes horrores, mas a criança terá que suportá-los. Então a oração lhe será de grande ajuda.

Enquanto voltava para casa com a minha avó, pensava todo o tempo no que tinha ouvido, e o guardava em meu coração.

Peregrinando para Deus

Sérgio N. Bolshakov

Fonte:http://www.ecclesia.com.br

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