Monastério de Pskov-Petchersky: Eugênio Nicolaevich (Peregrinando para Deus Sérgio N. Bolshakov)

7 06 2013

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Em 1926, encontrei o doutor Rozov no mosteiro de Pskov-Petchersky. Ele era então médico do distrito, e ao mesmo tempo atendia aos irmãos, pelo que tinha direito a ocupar uma sala no primeiro andar da casa paroquial. Eugênio Nicolaevich tinha mais de cinqüenta anos e era viúvo. Seu filho, um moço equilibrado e inteligente, estudava na escola secundária de Petchersky. Ambos viviam com muita simplicidade. O doutor Rozov provinha de uma família de sacerdotes, tinha estudado no seminário sem chegar a ordenar-se, formou-se em medicina, cursando brilhantemente a Faculdade de Medicina de Tomsk, na Sibéria.

Não somente era bom e espiritual, mas também perito em teologia. Tinha uma profunda humildade e um grande amor ao próximo. Não se negava nunca a ninguém. Se lhe pediam que fosse ver um doente num local distante, ia sem cobrar nada; quando lhe pediam conselhos, ele os dava. Em sua casa não recusava nada e, apesar disso, não passou necessidade. Uma tarde, eu estava sentado com ele em seu quarto. Pelas janelas abertas entrava o perfume dos lilases e dos jasmins do jardim da casa paroquial. As igrejas dos mosteiros antigos, pintadas de cores claras com cúpulas azuis pontilhadas de estrelas douradas, se destacavam nitidamente sobre o fundo verde do jardim na penumbra transparente das noites brancas do Norte. Reinava um silêncio solene e profundo. No acanhado recinto diante de um ícone antigo, brilhava a luz de uma lâmpada. Eugênio Nicolaevich estava sentado numa cadeira, com uma blusa russa de cor branca cingida por um cinto. Com a barba já grisalha parecia um cura de aldeia na sua paróquia.

– Eugênio Nicolaevich, segundo me disseram, você não se preocupa em ganhar dinheiro, tampouco está solícito com o seu sustento e, apesar disto, está sempre de bom humor. Como pode explicar-me isto?

– A gente fala, Sérgio Nicolaevich, e eu só digo que, segundo o Evangelho, deve-se buscar o Reino de Deus e sua justiça, e tudo o mais será dado por acréscimo. Como você sabe, eu sou filho de um sacerdote e terminei o seminário. Na minha infância e juventude, ia amiúde com meus pais aos mosteiros da Trindade São Sérgio, a Optina Pustinia, a Sarov, a Valaam, etc. Uma vez escutei uma história que contou um hospedeiro de Optina Pustinia. Disse que uma vez chegou ali para orar um rico comerciante moscovita, mas por causa do degelo teve que adiar seu regresso mais do que pensava. Estava com seu filho. Ao despedir-se, perguntou ao hospedeiro: “Padre, quanto vai cobrar-me pela minha hospedagem e pela do meu filho?” E ele lhe respondeu: “Quanto você quiser”. “E se eu não quiser pagar nada?” “Será esta a sua vontade”. “E se de cem peregrinos, somente um quiser pagar?” “Assim acontece algumas vezes, que de noventa pagam dez”. “Bem disse o comerciante a seu filho – tira o dinheiro e paga por nós e pelos que não pagam”. E pagou de boa vontade e ficou contente.

Por isso agradecemos a Deus por alimentar nossos irmãos necessitados. Meu falecido pai, o Padre Nikolai, sempre me dizia: “Quando você for médico, Eugênio, os pobres virão procurá-lo e não terão com que pagar. Você não lhes exigirá nada e lhes comprará os remédios. O Senhor não abandonará você, você viverá, e a sua alma estará sempre em paz e sua consciência não poderá acusá-lo de nada”. Eu faço assim e estou contente. Se alguém pode pagar, o agradeça. – Se não pode, trabalho para Deus. Os que servem aos pequeninos, servem a Deus. Agora mesmo me trouxeram uns vidros de marmelada e nem sequer sei quem os trouxe. Trazem também dinheiro e objetos, não só para mim e para meu filho, mas para os demais. Recordo o apóstolo São Paulo: “Se, pois, temos alimento e vestuário, contentemo-nos com isso. Ora, os que querem se enriquecer caem em tentação” (1Tm 6, 8-9). No Evangelho está escrito: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). Os fariseus, que amavam as riquezas, sorriam, mas quem ri por último ri melhor.

Por isso, se esforce pelo único necessário e o resto lhe será dado por acréscimo.

– Como é isto, Eugênio Nicolaevich?

– E evidente que você é ainda um homem um pouco religioso. Saiba de uma vez por todas que o principal é adquirir a paz interior, e quando a tiver conseguido, nada lhe faltará porque está escrito: “Adquira a paz interior, e milhares encontrarão a salvação perto de você”. E estes milhares lhe trarão tanto que você não saberá onde guardar tudo. E inútil inquietar-se por estas coisas. Os ateus querem apropriar-se de tudo e arrastar os outros porque dizem que se vive uma só vez. Para eles a dívida se embeleza quando se paga.

Agora, Sérgio Nicolaevich, você vai para o exterior, começando pela Bélgica e pela França, e aí estará com os católicos e logo, talvez, se encontrará com protestantes, aqui e lá. Nada acontece sem a vontade de Deus, portanto deverá ir bem, se tudo se for arranjando por si mesmo.

Você começa algo de novo, nunca ouvido: a relação com os católicos, coisa que a alguns lhes parecerá suspeita porque pensarão que o fará para beneficiar-se. Mas se enganam, Sérgio Nicolaevich. Sou um velho médico e já vi muitas pessoas, e por isso sei que você é um homem simples, ingênuo e não é dos que se aproveitam. Precisa passar por um pouco de sofrimento, de extrema pobreza, de incompreensão e desprezo, mas não desespere e com paciência viva com simplicidade, com simplicidade e humildade, e a seu tempo virá o que agora você não pode imaginar: refiro-me ao sucesso de sua façanha. Então você entenderá o que significa receber cem por um. Mas no começo, é necessário sofrer, alcançar a paz do desapego do mundo. É assim que eu me esforço. Faça o mesmo, não se apegue ao que passa e siga seu caminho. Leu a Filocalia?

– Li-a, Eugênio Nicolaevich, mas sinceramente, entendi muito pouco.

– Quando chegar à minha idade, entenderá por experiência. Na Filocalia há muitas coisas sobre a vigilância do pensamento e também sobre a Oração de Jesus. Ela o ajudará muito.

– E pode uma pessoa jovem que vive no mundo, como eu, dedicar-se a esta oração?

– Claro que sim. O peregrino dos relatos tinha sua idade e também Nemitov, o comerciante milionário de Orlov, que havia chegado a tais alturas do espírito que o próprio staretz Macário de Optina se admirava. Além disso, no fim de sua vida, se desprendeu de tudo e me arrastou também a mim, quando meu filho já podia manter-se sozinho. Quanto à oração, seja sempre moderado. Tudo chega com os anos, mas temos que nos esforçar.

Quando pediram ao staretz Ambrósio que intercedesse para a promoção de alguns irmãos, respondeu: “O tempo trará tudo: o hábito, o sacerdócio, mas não o Reino de Deus, que ninguém o dá, mas temos de nos esforçar para ganhá-lo”. Esmere-se com sinceridade na oração, pois o Reino de Deus está no seu interior e ela o ajudará a consegui-lo.

Fonte:http://www.ecclesia.com.br

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