Konevitsa: o monge Doroteu

7 06 2013

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Em 1951, passei algumas semanas em Konevitsa, no longínquo Norte, vivendo como anacoreta numa choça situada no meio do bosque.

Era final de julho. Os dias transcorriam lânguidos e ensolarados entre bosques e lagos, lagos e bosques. O mosteiro era pequeno, com poucos irmãos, e todos entrados em anos. Lembro-me mais do Padre Doroteu, ao qual um dia perguntei:

– Como devo agir para conseguir a paz espiritual?

– É necessário serenar-se – respondeu sorrindo o Padre Doroteu.

– E que quer dizer “serenar-se”? – tornei a perguntar.

– Posso explicá-lo assim: quando era jovem noviço em Valaam, meu staretz me disse um dia: “Dmitri, é difícil você serenar-se porque seu natural é demasiado inquieto, alegre e volúvel. Se você não serenar-se, a vida monástica não lhe servirá de nada”. Então lhe perguntei, exatamente como você acaba de fazê-lo: “Que quer dizer serenar-se?” Meu staretz respondeu-me: ”  – muito simples. Agora estamos no verão e você espera que chegue o outono para que o trabalho do campo diminua”. ” – verdade, padre”. “Muito bem. Virá o outono e você esperará depois o inverno, a Quaresma e Todos os Santos e, quando chegarem, você esperará a primavera, a Páscoa e a Ressurreição gloriosa do Senhor. Não é mesmo?” – “É verdade, padre”. – “Olhe, pois. Agora você é noviço. Não é verdade que espera a época da tomada de hábito?” – “Sim, padre”. – “E logo você esperará receber as ordens e ser abade. Tudo isto quer dizer que você ainda não conseguiu serenar-se. Quando lhe forem iguais a primavera ou o outono, o verão ou o inverno, a festa dos Santos ou a Páscoa, ser noviço ou monge e você viver cada dia com as suas preocupações, você já não se preocupará, nem esperará, e cumprirá totalmente a vontade de Deus. Então você se terá “serenado”.

Passaram muitos anos, recebi o hábito, fui abade e sempre esperava algo. Transferiram-me para a cozinha, não quis ir e revoltei-me, mas tive que submeter-me. Mas quando me mandaram para cá, vim alegremente, enquanto outros choravam. Em tudo deve cumprir-se a vontade de Deus. Se você a aceitar de bom grado e com amor, e não confiar em suas próprias fantasias, você terá conseguido serenar-se. Mas você ainda está longe disso, Sérgio Nicolaevich. Você ainda se busca a si mesmo e sem serenidade não se consegue a “oração pura”.

– Padre Doroteu, diga-me: que é a “oração pura“?

– É a oração sem pensamentos; quando estes não se dispersam, a atenção não se dissipa e o coração está alerta. Significa estar enternecido e com profundo temor. Mas quando você ora com os lábios e seus pensamentos estão longe, não há oração.

– E como se consegue a oração pura?

– Consegue-se com o trabalho, certamente. Você já ouviu falar da oração de Jesus?

– Sim.

– E já se exercitou nela?

– Sim, exercitei-me.

– E como foi?

– Mal.

– Não se desespere. Tente outra vez e, a seu tempo, você conseguirá.

– E como saberei que consegui a oração pura?

O Padre Doroteu olhou-me com olhos penetrantes e me perguntou:

– Você ouviu falar do staretz da Moldávia?

– Não.

– O monge Partênio escreve sobre ele em sua obra intitulada “Peregrinações”.  Você não a leu?

– Não.

– Leia-a. É útil e ensina muito. Um dia Partênio lhe perguntou sobre a oração pura e o staretz João lhe contou seus progressos na oração de Jesus, com grande dificuldade no princípio, porém com mais facilidade depois. Mais adiante a oração começou a fluir como um regato e, por último, brotava sozinha como um murmúrio que comovia o coração. Então ele se afastou do povo e retirou-se ao deserto e deixou de receber, não somente os leigos, mas também os monges. Ao mesmo tempo, apareceu nele uma tendência invencível para a oração. E quando Partênio lhe perguntou: – “Que é a oração contínua?” ele respondeu: “Comecei a orar quando o sol se punha, e quando voltei a mim, o sol estava alto no céu e eu não o tinha notado”. Esta é a oração pura.

– Quisera saber, Padre Doroteu, se a oração pura é necessária para a vida ativa, por exemplo, na atividade missionária.

– Sim, é muito útil. Quando a alma progride na oração de Jesus, dizem que se parece com a tília que, quando não tem flores, as abelhas não se lhes  aproximam, mas quando florescem, o aroma as atrai de todas as partes. O mesmo ocorre com os que estão fortalecidos com a oração de Jesus. Assim, o aroma da oração dos justos atrai de todas as partes as pessoas boas que desejam aprendê-la. Ao que vive em Cristo, Deus o leva nas suas mãos e nada deve preocupá-los. As pessoas acodem de todos os lados, tratando-o como a menina dos olhos. Praticando a virtude da verdadeira oração à sombra do Senhor, se descansa e já não existe nenhuma preocupação. Cada coisa vem a seu tempo.

– Há sofrimento?

– E como não há de haver? Mas o sofrimento se transforma em alegria. Você ainda não entende isto porque ainda está longe, mas chegará o tempo em que você o compreenderá.

– Padre Doroteu, uma pessoa pode salvar-se no mundo?

– Por que não? O reino de Deus está dentro de nós quando nos prostramos interiormente diante do Senhor e elevamos até o Senhor o hino bendito daoração pura. Você leu “Relatos de um Peregrino”?

– Sim. Li-o.

– Bom, você pode fazer o mesmo. Nemitov Orlovskiera um rico comerciante a quem o staretz Macário de Optina admirava pela sua oração. Depois se retirou para a solidão, quando se sentiu fortalecido nela. Ao que vive unido com Deus e começa a conhecer as alturas do espírito, torna-se difícil permanecer no mundo. Como a águia plana no alto do céu e não pode assemelhar-se às galinhas que se sacodem na poeira do caminho.

Estávamos sentados na margem tranqüila do lago. No céu azul flutuavam, como plumas, umas nuvens brancas. O sol se punha e os altos troncos dos pinheiros ardiam como círios aos raios do sol poente. O lago dourado, na verde moldura dos bosques, era como um espelho. Reinava um silêncio profundo no Norte longínquo.

Ouça, amigo, observou o Padre Doroteu, quando o seu coração se parecer com a tarde de hoje, com seu silêncio e com sua paz, então você será iluminado pela luz do sol que não tem ocaso e entenderá por experiência o que é a oração pura.

– Padre Doroteu – perguntei-lhe depois de um momento de silêncio – como se pode conhecer a vontade de Deus sobre nós?

– Dizem os Padres espirituais que as mesmas circunstâncias da vida o vão mostrando. Depois, pode-se perguntar com fé a algum staretz ou a alguma pessoa que seja capaz e, finalmente, deve-se seguir a inclinação do coração. Rogue ao Senhor três vezes para que lhe mostre a sua vontade, como fez o Salvador no Getsêmani, e proceda como lhe indicar o coração.

Peregrinando para Deus

Sérgio N. Bolshakov

Fonte:http://www.ecclesia.com.br

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