Ensinamentos de João Crisóstomo († 407)

29 05 2013

90912AG

Passo agora a um outro Padre antioqueno, misticamente apaixonado pelo sacerdócio.
Antes de qualquer outra consideração, gostaria de apresentar o pastor em ação, em pleno exercício de seu ministério.
Refiro-me às célebres Homilias sobre Mateus e à maneira como Crisóstomo encarava pastoralmente problemas muito sérios, como o da riqueza e da pobreza na comunidade cristã de Antioquia.
As homilias de Crisóstomo (aprox. 350-407) Sobre o evangelho de Mateus constituem para nós o mais antigo comentário completo ao primeiro evangelho. Representam, ainda, um testemunho significativo dessa atividade homilética que asseguraria a Crisóstomo o mais alto reconhecimento entre os oradores eclesiásticos. Tais homilias remontam aos anos entre 386 e 397 – entre a ordenação sacerdotal, em Antioquia, e a eleição à cátedra patriarcal de Constantinopla -, período em que Crisóstomo foi chamado a desempenhar diversas vezes o cargo de pregador nas mais importantes igrejas antioquenas. Esse encargo era particularmente adequado à índole de João, que, depois de uma experiência monástica e eremítica, tinha abraçado o sacerdócio em resposta a uma irresistível vocação pastoral[15], visando, especialmente por meio da pregação das Escrituras, realizar essa vocação. Coerentemente, sua pregação e sua exegese – fiéis às indicações fundamentais da “escola antioquena” – parecem especialmente sensíveis às condições concretas, aos problemas e às necessidades, também materiais, dos destinatários.
Em particular – na Antioquia da segunda metade do século IV, em que eram enormes as desigualdades sociais e econômicas, em razão da guerra, do latifundismo, do capitalismo, do regime fiscal iníquo… -, Crisóstomo é estimulado constantemente a tratar dos múltiplos problemas decorrentes da convivência de ricos e pobres no seio da comunidade[16]. Basta pensar que, só nas homilias Sobre o evangelho de Mateus, esse tema aparece não menos de cem vezes!

Mas queremos ouvir “o pastor em ação”, lendo passagens de sua quinquagésima homilia Sobre o evangelho de Mateus[17].
Em seu conjunto, a homilia comenta a perícope conclusiva de Mt 14: mas o último versículo do capítulo – em que lemos que os habitantes de Genesaré levaram a Jesus seus doentes, “rogando-lhe tão somente tocar a orla da sua veste” (Mt 14,36) – permite a Crisóstomo uma amplificação parenética substancialmente autônoma, que ocupa, sozinha, toda a segunda metade da homilia.
A amplificação se justifica pelo contexto da liturgia eucarística, em que se insere a homilia: “Toquemos nós também a orla de seu manto”, convida Crisóstomo; “aliás, se quisermos, temos o Cristo todo inteiro. De fato, seu corpo está agora, aqui, diante de nós”. E prossegue: “Crede que também agora encontra-se aqui aquela mesa, à qual Jesus se sentou”[18].
Segundo Crisóstomo, essa certeza de fé interpela de modo decisivo a responsabilidade dos fiéis, uma vez que a participação da missa do Senhor não permite incoerências de nenhuma espécie: “Que nenhum Judas se aproxime da mesa!”, exclama o homiliasta. E não é critério suficiente de dignidade o fato de alguém se apresentar à mesa com vasos de ouro: “Não era de prata aquela mesa, nem de ouro o cálice com o qual Cristo deu seu sangue aos discípulos. […] Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que ele esteja nu: e não o honres aqui, na igreja, com tecidos de seda, para depois tolerar, fora daqui, que ele morra de frio e nudez. Aquele que disse: ‘Isto é o meu corpo’, disse também: ‘Tive fome e não me destes de comer’; e: ‘O que deixastes de fazer a um destes pequeninos, o deixastes de fazer a mim’. Aprendamos, portanto, a ser sábios, e a honrar o Cristo como ele quer, gastando as riquezas pelos pobres. Deus não precisa de cabedais de ouro, mas de almas de ouro. Que vantagem há em que sua mesa esteja cheia de cálices de ouro, quando ele mesmo morre de fome? Primeiro ele mesmo, o faminto, se sacia, e então, com o supérfluo, ornarás sua mesa!”[19]
As expressões citadas são suficientes para demonstrar a plena identificação de Cristo com o indigente. Crisóstomo tem plena consciência de que, antes de qualquer outra explicação, vale a declaração de princípio: quem serve ao pobre serve a Cristo, quem rejeita ao pobre rejeita a Cristo. É sobre isso que seremos julgados (Mt 25,31-46). Mas Crisóstomo tem consciência, igualmente, de que esse amor pelo próximo – para ser realmente o amor de Jesus – deve alimentar-se da comunhão com Deus, de seu amor por nós.
Em sua pregação, o bispo sublinha insistentemente a relação íntima que existe entre o mandamento do amor e a vida de Deus. A autêntica testemunha da caridade deve poder dizer, com o apóstolo João: “O que vimos e ouvimos, o Verbo da vida, nós vo-lo anunciamos” (1Jo 1,1.3).
Em outros termos, para crescer na caridade autêntica, os fiéis, e com maior razão os ministros ordenados, devem conhecer Jesus, entrar em profunda intimidade com ele[20].
Mais uma vez, o discurso volta à “dimensão contemplativa” do presbítero e à qualidade de seu encontro com o Senhor na Palavra e nos sacramentos.

Nessa mesma perspectiva pode ser lido também o famoso Diálogo com Basílio, composto por volta de 389[21], sobretudo a passagem em que João Crisóstomo fala do “exemplo” e da “palavra” como remédios à disposição do presbítero: “Aqueles que curam os corpos dos homens têm à disposição vários remédios. […] Em nosso caso, além do exemplo, não temos outro instrumento ou método de cura além do ensinamento que damos pelo uso da palavra”[22].
No mesmo Diálogo, Crisóstomo fala do sacerdócio como “uma vida feita de coragem e dedicação”, pois o ministério do (verdadeiro) pastor não conhece as fronteiras estreitas do interesse pessoal, mas redunda em vantagem de todo o rebanho[23].
Para Crisóstomo, o cuidado com o rebanho é o “sinal do amor”, é a prova concreta de que o ministro ama realmente o Senhor: “Se me amas, apascenta as minhas ovelhas…”
Nessa ocasião, observa Crisóstomo, o mestre perguntou ao discípulo se o amava não para que pudesse ele mesmo sabê-lo: por que precisaria fazer isso, ele, que perscruta e conhece o coração de todos? Nem tampouco “pretendia demonstrar-nos o quanto Pedro o amava: isso muitos entre nós já o sabiam. O que queria demonstrar era o quanto ele [o Senhor] amava a sua Igreja, e ensinar a Pedro e a todos nós quanto cuidado deveríamos dedicar a essa obra”[24].
Reside precisamente aqui a diferença abissal entre o “mercenário” e o “pastor”: “O bom pastor dá sua vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11).
Fonte:http://www.annussacerdotalis.org/

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