O PAPEL DOS ANCIÃOS NO MONAQUISMO EGÍPCIO

15 05 2013

P. Guido Dotti

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Em toda comunidade monástica, a presença dos mais velhos sempre constituiu uma oportunidade e um desafio. Uma oportunidade, porque dá ocasião aos monges de se confrontarem com o que foi vivido na fé; e um desafio, porque obriga a criar vínculos fraternos entre gerações diferentes. Hoje, mormente na Europa, as comunidades monásticas estão passando por um processo de envelhecimento progressivo e, por vezes, os raros jovens se vêem confrontados seja a uma sobrecarga de trabalhos e de responsabilidade desproporcional, seja confinados à função de enfermeiros. E tudo isso num contexto social e cultural que não reconhece mais à velhice sua tradicional aura de sabedoria.

No entanto, desde os primórdios do monaquismo, sempre foi muito evidente que a questão da «ancianidade» não dizia necessariamente respeito à idade respectiva dos monges, porém, muito mais ao caminho já percorrido na seqüela de Cristo. E todas as regras monásticas contêm indicações bastante precisas sobre a «ordem na comunidade»(1), a saber, as relações entre «mais velhos» e «jovens» na vida monástica. O ancião é alguém que já experimentou a aspereza do caminho e a misericórdia do Senhor, a infidelidade do discípulo e a fidelidade de Deus: é aquele que aprendeu que a vida monástica, assim como a vida do cristão, é feita de quedas e de recomeços, como dizia um Abba: «Pediram a um velho monge: ‘Abba, o fazes aqui no deserto?’ E o Abba respondeu: ‘Nós caímos e nos levantamos, caímos e nos levantamos, caímos e ainda nos levantamos!’»(2)

Aliás, quando lemos as narrativas das vidas dos primeiros anacoretas, vemos que nenhum deles – nem mesmo aquele que é considerado como o iniciador do monaquismo cristão, Antão, o grande – começou a vida ascética sozinho, porém aprendeu-a na escola de um ancião que o precedera. A este dado antropológico e espiritual fundamental, devemos acrescentar a consciência que numa cultura tradicionalmente oral, como era a do Oriente Médio na época dos anacoretas, o papel do mais velho na sociedade e na família era – e hoje em dia ainda é – do sábio que, enriquecido pela experiência da vida, podia dispensar conselhos e ajudar a «ler» os acontecimentos com mais discernimento e lucidez.

Assim, o ensinamento que passa do mais velho para o mais jovem nasce no íntimo de uma relação pessoal muito exigente para ambas as partes: a responsabilidade primeira do mais velho é de ensinar ao discípulo como viver a vida monástica enfrentando os problemas e as tentações a que todo monge está exposto. Por outro lado, a abertura de coração, a paciência e a obediência são requeridas ao discípulo.

No entanto, qual era, exatamente, a relação entre o ancião e o jovem, o «Abba» e seu discípulo? A razão fundamental que levava um jovem monge a viver com um ancião experimentado era evidentemente aprender os elementos concretos da vida monástica: o jejum, a guarda da cela, o equilíbrio entre oração e trabalho manual; a relação pessoal torna-se destarte o caminho prático que, através da obediência, conduz à qualidade monástica de uma vida evangélica. «Um irmão interrogou Abba Poimén, dizendo: ‘Alguns irmãos moram comigo; queres que eu os dirija?’ O ancião lhe respondeu: ‘Não, faze primeiro o trabalho e, se eles quiserem viver, velarão sobre si mesmos.’ O irmão lhe disse: ‘Mas são eles mesmos, pai, que desejam que eu os dirija.’ O ancião lhe disse: ‘Não; sê tu um modelo para eles, não seu legislador’.»(3) O ancião, o monge experimentado, doravante capaz de discernir os espíritos, representa uma regra viva. Ele permanece ao lado do discípulo e, por sua presença, bem mais do que por sua palavra, o conduz progressivamente à maturidade espiritual, de modo que, tornando-se por sua vez um monge experimentado, ele mesmo poderá vir em ajuda de outros mais moços.

É um meio de maturação oferecido a todos, mesmo àqueles que sabem não possuir em si próprios as forças necessárias: «Que fazer com minha alma – perguntou um irmão ao Abba Paésio – pois ela é insensível e não teme a Deus?» Paésio lhe respondeu: «Vai, junta-te a um homem temente a Deus e, vivendo em sua companhia, ele também te ensinará a temer a Deus»(4). É o ensinamento que vamos igualmente encontrar no contexto cenobítico: «Se não estiveres na medida de te bastares a ti mesmo, junta-te a alguém que trabalhe de acordo com o evangelho de Cristo e progredirás com ele. Escuta ou te submete àquele que escuta, sê forte e serás chamado Elias; ou então obedece àquele que é forte, e serás chamado Eliseu»(5).

Na submissão ao ancião, a vida monástica do recém-chegado toma forma e cores próprias, sempre seguindo o sulco aberto por aqueles que o precederam. Isso permite também ao jovem evitar os excessos característicos de sua idade, libertar-se do mais perigoso dos inimigos – a vontade própria – e ser assim trazido de volta à realidade da luta cotidiana. «Os anciãos diziam: Quando vires um jovem subindo ao céu por sua própria vontade, segura-o pelos pés e faze-o descer, pois é isto que lhe é útil»(6). É também o testemunho daquele que podemos chamar o ancião por excelência: «Conheço monges que, depois de terem suportado muitas penas, caíram, chegando até o orgulho do espírito, por terem colocado sua esperança nas próprias obras e negligenciado o preceito daquele que diz: Interroga teu pai e ele te ensinará»(7).

«Cair depois de muitas penas» indica a esterilidade de uma vida monástica vivida sem consciência dos próprios limites e a ajuda de um ancião. Mas, como vimos, esse acompanhamento não é para durar indefinidamente; e cada discípulo é chamado a atingir um grau de maturidade espiritual tal que consiga levar sua vida sem o apoio regular de um irmão e possa, por sua vez, ajudar um irmão mais novo. Todo «Abba», com efeito, foi primeiramente «noviço» e percorreu esse caminho de maturidade, no qual, a vida ao lado de um ancião constitui o primeiro passo: um caminho que monges desejosos de viverem a sós quiseram, por vezes, percorrer antes de estarem suficientemente equipados para fazê-lo sem se prejudicarem. Além do mais, a submissão da vontade própria à vontade de Deus por meio da obediência a um irmão, é considerada pelos Pais do deserto como um valor em si mesmo e não apenas como um instrumento que pode ser abandonado, uma vez terminada a formação para a vida monástica.

Foi este o ensinamento que aprendi de viva voz de um Pai do deserto de nossos dias, por ocasião de minha primeira peregrinação ao Mosteiro de São Macário, no Egito. Tendo constatado que havia vários eremitas vivendo nas redondezas do grande Mosteiro cenobítico, perguntei ao P. Wadid quais os critérios para o Pai do Mosteiro conceder a bênção a um monge a fim de que pudesse levar uma vida eremítica. «É simples, – respondeu ele – basta que o monge saiba rezar! Isto se percebe quando sua oração é ouvida, pois ela é aceita por Deus…» Mas essa escuta não se mede por parâmetros humanos ou pela grandeza de um «milagre»: a única coisa essencial que um cristão deve pedir na oração, com a certeza de ser ouvido, é o Espírito Santo, este Espírito que permite discernir qual é a vontade de Deus sobre si mesmo e sobre os outros, e distingui-la dos desejos pessoais e da vontade própria. «Toda a vida do cristão – continuou P. Wadid – é um esforço contínuo para chegar a dizer ao Pai com Jesus: ‘Não a minha vontade, mas a tua’; e nesta procura, os irmãos mais velhos são uma ajuda preciosa. Por isso, somente quando um monge recebe o dom da ‘oração atendida’, ou seja, o Espírito de discernimento, é então que ele pode viver como eremita, privando-se do apoio cotidiano dos irmãos, sem cair mais no precipício das ilusões. E ainda – concluiu meu interlocutor – ele deverá se disponibilizar a deixar a solidão de seu eremitério se os irmãos mais novos tiverem precisão de seus conselhos».

Aí está um exemplo bem concreto do equilíbrio entre vida comunitária e vida de solidão, entre maturidade espiritual e acompanhamento: jovens e anciãos se enriquecem mutuamente na abertura de coração, cuja principal finalidade é aprender a lutar contra a tentação da vontade própria e discernir a natureza e a qualidade dos pensamentos que estão no coração do monge. Trata-se de uma responsabilidade partilhada dentro das comunidades cenobíticas, como atestam os escritos da tradição pacomiana: «Há quem só preste atenção a si mesmo para viver conforme os preceitos de Deus; e diz sem cessar: que posso eu ter em comum com os outros? Procuro servir a Deus e cumprir sua vontade, o que os outros fazem não me diz respeito… Contudo, depois de ter prestado contas de nossa própria vida, deveremos igualmente prestar contas daqueles que nos foram confiados. É preciso ouvir isto dos chefes das casas bem como dos superiores dos mosteiros, e até de todos os irmãos que fazem parte do povo: pois devemos todos carregar os fardos uns dos outros, para que eles cumpram a lei de Cristo… Temos um depósito confiado por Deus, a vida de nossos irmãos, e é nos dando ao trabalho para com eles que esperamos as recompensas futuras»(8).

Além do mais, a submissão a um ancião é a viga-mestra das relações fraternas tanto na vida anacorética quanto na cenobítica. As palavras do «Abba» – seja ele o pai espiritual de um único discípulo ou o guia espiritual de um mosteiro ou ainda um ancião entre seus irmãos com o qual o abade houve por bem partilhar sua responsabilidade de paternidade(9) – gozam de uma autoridade particular que requer respeito e obediência por parte dos discípulos, mas também dos visitantes e de qualquer um que venha lhe pedir um conselho espiritual. De fato, a influência dos anciãos se irradia muito mais além dos muros de suas celas, como testemunha a insistência com que os discípulos e os peregrinos pedem: «Abba, dize-me uma palavra».

E aqui vale a pena lembrar que, se essa irradiação chegou até os nossos dias, deve-se isso justamente às relações cotidianas entre anciãos e discípulos. Se todos os anacoretas tivessem passado a vida inteira fechados em suas grutas, sem nunca se encontrarem nem se aconselharem mutuamente, nós não teríamos hoje esse imenso patrimônio dos apoftegmas. Nascidos numa circunstância precisa, graças à relação entre pai e filho espiritual, e num clima de submissão de ambos à vontade de Deus, essas palavras foram coligidas num primeiro círculo de ouvintes e de testemunhas como «palavras-ações» eficazes, como ensinamentos repletos de sentido também para tempos e situações bem diferentes. No decurso da história do monaquismo, isso ofereceu sobretudo – inclusive a comunidades novas que ainda não tinham entre elas «anciãos em idade» – a possibilidade de se beneficiarem da riqueza espiritual dos «anciãos». Pode nos parecer paradoxal que eremitas se tenham tornado «mestres» para cenobitas e mesmo para comunidades que não levavam a vida monástica. E, no entanto, é precisamente a raridade e o caráter essencial das relações fraternas vividas no deserto, entre anciãos e mais jovens, que pode fornecer, e efetivamente forneceu – e continua a fornecer – indicações bastante preciosas sobre os elementos fundamentais da vida cristã como vida de comunhão: são testemunhos capazes de difundir o amor de Deus e o amor dos seres humanos, fonte e cume de comunhão, até os confins da terra.

 

P. Guido Dotti é monge de Bose (Itália)

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB

 

(1) Cf. por exemplo, RB 63.
(2) Apoftegma anônimo citado por T. Colliander, Il camino dell’asceta, Brescia 1987, p. 55.
(3) Poimén 188.
(4) Cf. Poimén 65.
(5) Pacômio, Catequese a um monge rancoroso.
(6) Nau 111.
(7) Antão 37.
(8) Livro de Horsiésio, 8 e 11.
(9) Cf. RB 21, 3.

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