Apoftegmas do Abade Agatão

5 03 2013

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1. Disse o Abade Pedro, o discípulo do Abade Lote: «Estávamos certa vez na cela do Abade Agatão, quando foi ter com ele um irmão que dizia : «Quero morar com os irmãos; dize-me como hei de viver com eles». Respondeu-lhe o ancião : «Como no primeiro dia em que te chegares a eles, assim todos os dias da tua vida conserva a tua qualidade de estranho, de modo a não teres familiaridade com eles». Perguntou então o Abade Macário: «E que importa a familiaridade?» Respondeu-lhe o ancião : «A familiaridade se parece com um calor muito ardente, o qual, sempre que se produz, afugenta a todos e destrói os frutos das árvores». Interrogou o Abade Macário: «Tão daninha assim será a familiaridade?» Respondeu o Abade Agatão: «Não há outro afeto pior do que a familiaridade; com efeito, é a matriz de todas as paixões. É preciso que o operário 1 não experimente familiaridade, mesmo que viva a sós na cela. Sei que um irmão, tendo morado muito tempo em sua cela, onde havia um leitozinho, disse : ‘Teria mudado de cela sem ter percebido nem mesmo o leitozinho, se outro não me tivesse chamado a atenção’. Um tal é realmente operário e guerreiro».

2. Disse o Abade Agatão: «É preciso que o monge não deixe que a consciência o acuse em coisa nenhuma».

3. Disse também: «Sem a observância dos preceitos divinos, o homem não progride em uma só virtude que seja».

4. Disse ainda: «Nunca adormeci tendo alguma coisa contra alguém; nem, enquanto o podia, deixei que alguém fosse dormir tendo algo contra mim».

5. A respeito do Abade Agatão diziam que o foram procurar alguns homens, os quais tinham

ouvido dizer que possuía grande discernimento. E, querendo experimentar se se enfurecia, disseram-lhe: «Tu és Agatão?» Ouvimos a teu respeito que és fornicador e soberbo». Respondeu: «De fato, assim é». Acrescentaram: «Tu és Agatão, o tagarela e difamador?» Respondeu: «Sou». Disseram mais : «Tu és Agatão, o herege?» Respondeu: «Não sou herege». Solicitaram-no, então, nestes termos: «Dize-nos por que é que aceitaste tão graves coisas que te dissemos; esta última, porém, não a suportaste». Respondeu-lhes: «Aquelas, eu as ponho em minha conta, pois são de proveito à minha alma; ser herege, porém, significa separar-se de Deus, e não me quero separar de Deus». Tendo ouvido isto, admiraram o seu discernimento, e foram-se edificados.

6 . Narraram do Abade Agatão que passou muito tempo a construir a cela com os seus discípulos; tendo-a terminado, retiraram-se nela para a habitar. Na primeira semana, porém, viu algo que não o edificava, e disse aos discípulos: «Levantai-vos, vamo-nos daqui». Ora estes perturbaram-se muito dizendo: «Se de qualquer modo já pensavas em te mudar, por que é que sofremos tão grande fadiga para construir a cela? De novo os homens, escandalizados por nós, hão de dizer : «Eis que os instáveis mais uma vez se mudaram». Vendo-os, então, pusilânimes, respondeu-lhes: «Se se escandalizarem alguns outros se edificarão, dizendo: «Bem-aventurados estes, pois, por causa de Deus, se mudaram e tudo desprezaram’. Quem, pois, quer vir, venha; eu agora me vou». Atiraram-se, então, por terra, rogando-lhe que lhes concedesse partir com ele, até que obtiveram licença.

7. Disseram também a respeito dele que, muitas vezes, mudava de pouso tendo apenas a sua foicezinha no cesto.

8. Perguntaram uma vez ao Abade Agatão o que é maior: o trabalho do corpo ou a disciplina interior (da alma). Respondeu o ancião: «O homem se parece com uma árvore: o trabalho do corpo é como que a folhagem, enquanto a disciplina da alma é como que o fruto. Pois que, conforme está escrito, ‘toda árvore que não produz fruto bom, será cortada e atirada ao fogo’ (Mt 3, 10), é evidente que todo o nosso esforço deve visar ao fruto, isto é, à disciplina da alma. Contudo também são necessários o envoltório e o ornamento da folhagem, que são o trabalho do corpo».

9. Perguntaram-lhe ainda os irmãos: «Qual a virtude, ó Pai, que entre as demais exige maior labor?» Respondeu-lhes: «Desculpai-me, julgo que não há labor igual ao da oração a Deus. Pois, todas as vezes que o homem quer orar, tentam os inimigos arredá-lo; bem sabem que não são suplantados por outro meio do que pela oração a Deus. Na prática de qualquer virtude que o homem assuma á si, se persevera, consegue tranquilidade; a oração, porém, até o último hálito requer luta».

10. O Abade Agatão era sábio de mente, diligente de corpo; em geral bastava a si mesmo, tanto no trabalho manual como na alimentação e no vestuário.

11. O mesmo caminhava com os seus discípulos, quando um destes encontrou na estrada um grãozinho verde de ervilha e perguntou ao ancião: «Pai, mandas que eu o recolha?» O ancião olhou-o com admiração e interrogou: «Fostes tu que aí o puseste?» Respondeu o irmão: «Não». E o ancião retrucou: «Como então queres recolher o que não puseste ?»

12. Um irmão foi ter com o Abade Agatão, dizendo : «Permite-me que habite contigo». Ora, quando caminhava pela estrada, encontrara pequena pedrade nitro, e a tomara consigo. Disse-lhe, pois, o ancião: «Onde encontraste esse seixo?» Respondeu o irmão: «Encontrei-o na estrada ao caminhar, e recolhi-o». Acrescentou o ancião: «Se vinhas habitar comigo, como ousaste recolher o que não havias semeado?» E mandou-lhe colocar de novo o seixo no lugar donde o tirara.

13. Um irmão dirigiu-se ao ancião, dizendo: «Um co preceito me foi dado, e, por causa dele, há luta em mim; queria sair para cumpri-lo, mas temo aluta». Disse-lhe o ancião: «Se estivesse Agatão em tuas condições, cumpriria o preceito e venceria a luta».

14. Reuniu-se na Cétia, para tratar de determinada questão, um conselho, o qual lavrou a respectiva sentença. Depois do mesmo, chegou-se o Abade Agatão aos monges, dizendo: «Não resolvestes o caso devidamente». Perguntaram-lhe: «Tu quem és para dizer uma palavra sequer?» Respondeu: «Sou filho de homem. Pois está escrito : ‘Se, de fato, proferis a justiça, sentenciai o que é reto, ó filhos dos homens’» (Sl 57, 2).

15. Diziam do Abade Agatão que passou três anos com uma pedra na boca até que adquiriu o hábito do silêncio.

16. Referiam também dele e do Abade Amum que, quando vendiam algum objeto, diziam uma vez o preço, e, o que se lhes dava, recebiam-no em silêncio e tranquilidade. Igualmente, quando queriam comprar alguma coisa, davam com silêncio o que se lhes dizia e tomavam o objeto, sem proferir nada absolutamente.

17. O mesmo Abade Agatão disse: «Nunca dei um ágape2; mas o dar e o receber eram para mim ágape (refeição): julgava que o lucro de meu irmão é obra de frutificação» 3.

18. O mesmo quando queria julgar alguma coisa que via, dizia dentro de si: «Agatão, não faças o mesmo». Com isto se apaziguava a sua mente.

19. O mesmo disse: «O homem irascível, ainda que ressuscite um morto, não é agradável a Deus».

20. Em certa época, o Abade Agatão teve dois discípulos que, separadamente, levavam vida eremítica. Um dia perguntou a um : «Como vives em tua cela?» Respondeu-lhe: «Jejuo até o pôr do sol, e então como dois pãezinhos». Disse: «Eis um regime digno, que não acarreta muita fadiga». E ao outro interrogou: «Como vives tu?» Respondeu : «Jejuo dois dias, no fim dos quais como dois pãezinhos». Disse-lhe então o ancião: «Lutas intensivamente sustentando duas pugnas, pois, se alguém come todos os dias e não se sacia, luta. Outros há que querem jejuar dois dias e saciar-se; tu, porém, duplicas o jejum e não te sacias».

21. Um irmão interrogou o Abade Agatão a respeito da fornicação. Respondeu-lhe este: «Vai, atira diante de Deus a tua fraqueza, e encontrarás sossego».

22. Certa vez adoeceram o Abade Agatão e outro dos anciãos. Ora, estando eles deitados na cela, um irmão lia o livro do Gênesis e chegou ao capítulo em que Jacó diz: «José não está, Simeão não está, e a Benjamim haveis de levar; assim fareis chegar em tristeza a minha velhice ao túmulo» (Gên 42, 36). Falou então o ancião: «Não te bastam os outros dez, ó Pai Jacó?» Disse o Abade Agatão: «Cala-te, ancião; se Deus tem alguém por justo, quem é que há de condenar?»

23. Disse o Abade Agatão: «Se alguém me fosse extremamente caro, e eu soubesse que ele me leva ao pecadoeu o afastaria de mim».

24. Disse também: «É preciso que, a toda hora, o homem se recorde do juízo de Deus».

25. Estando os irmãos a falar sobre a caridade, perguntou o Abade José: «Sabemos nós o que é caridade?» E contou, a respeito do Abade Agatão, que este tinha um canivete; foi ter com ele um irmão, o qual se pôs a louvar o objeto; o Abade, então, não o deixou partir sem que tivesse aceito o canivete».

26. Dizia o Abade Agatão: «Se me fosse possível encontrar um leproso e dar-lhe o meu corpo em troca do corpo dele, fá-lo-ia com prazer. Pois esta é a caridade perfeita».

27. Também dizia dele que, certa vez tendo ido à cidade para vender seus artefatos, encontrou na praça pública um homem atirado por terra, doente, o qual não tinha quem dele tratasse. Ora o ancião permaneceu com ele, tomando uma morada de aluguel, com o trabalho de suas mãos pagava o aluguel e as demais coisas de que necessitava o doente. Assim se deixou ficar quatro meses, até que estivesse curado o enfermo. Depois do que, o ancião voltou para a sua cela em paz.

28. Contava o Abade Daniel: «Antes que o Abade Arsênio viesse ter com meus Pais, também estes permaneciam com o Abade Agatão. Ora o Abade Agatão gostava do Abade Alexandre porque este era lutador4 e diligente.

Aconteceu que todos os discípulos de Agatão lavavam os seus fios de tear no rio; também o Abade Alexandre lavava diligentemente. Os outros irmãos, porém, disseram ao ancião: «O irmão Alexandre nada faz». O mesmo, querendo curá-los, disse-lhe: «Irmão Alexandre, lava bem, pois são fios de linho». Alexandre, tendo ouvido isto, entristeceu-se. Depois, porém, o ancião consolou-o, dizendo: «Então não sabia eu que trabalhas zelosamente? Todavia, disse-te aquilo, em presença deles, a fim de curar a sua mente pela tua obediência, irmão».

29 . A respeito do Abade Agatão narraram que se esforçava por cumprir todas as ordens. Quando navegavam em barco, era ele o primeiro a agarrar o cabo do remo; quando irmãos iam ter com ele, logo depois da oração, punha a mesa com as próprias mãos; com efeito, era cheio do amor de Deus. Quando estava próximo da morte, ficou três dias de olhos abertos e fixos. Os irmãos, então tocaram-no, dizendo: «Abade Agatão, onde estás?» Respondeu-lhes: «Estou colocado diante do tribunal de Deus». Perguntaram-lhe: «Também tu temes, ó Pai?»Respondeu-lhes: «Até agora fiz o que pude para observar os mandamentos de Deus; sou homem, porém; como hei de saber se meu esforço agradou a Deus?» Disseram-lhe os irmãos: «Não tens confiança em teu labor, executado conforme Deus?» Retrucou: «Não terei confiança, antes de me encontrar com Deus; pois um é o modo de julgar de Deus, outro o dos homens». Como o quisessem interrogar de novo, disse-lhes: «Praticai a caridade, não faleis mais comigo, pois estou atarefado». E morreu com alegria. Com efeito viam que ele partia como alguém que saúda os amigos e bem-amados. Tinha grande vigilância em tudo, e dizia: «Sem grande vigilância o homem não progride numa virtude sequer».

30. Certa vez o Abade Agatão dirigiu-se à cidade a fim de vender pequenos objetos, e encontrou um leproso à margem da estrada. Perguntou-lhe o leproso: «Aonde vais?» Respondeu o Abade Agatão: «Para a cidade a fim de vender objetos». Disse-lhe: «Sê caridoso, e leva-me para lá». Agatão, tomando-o nos braços, levou-o para a cidade. Rogou-lhe então o outro: «Onde venderes os objetos, lá coloca-me». Ele assim fez. Quando acabou de vender um objeto, perguntou-lhe o leproso: «Por quanto o vendeste?» Respondeu: «Por tanto». Disse-lhe o leproso: «Compra-me um pão». E aquele o comprou. E de novo vendeu outro objeto. Interrogou então o leproso: «E este, por quanto o vendeste ?» Respondeu : «Por tanto». E o mesmo retrucou : «Compra-me isto». Aquele comprou. Ora, quando terminou de vender todos os seus objetos e se queria ir, disse-lhe o leproso: «Vais embora?» Respondeu: «Sim». E aquele: «Sê de novo caridoso, e reconduze-me aonde me encontraste». E Agatão, tomando-o nos braços, carregou-o para seu antigo lugar. Este então lhe disse: «Bendito és, Agatão, pelo Senhor no céu e na terra». E o Abade, levantando os olhos, a ninguém viu. Com efeito, fora um anjo do Senhor que descera a fim de o experimentar.

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3 responses

12 11 2014
Bruno Martins de Andrade

Que maravilha de site!!!!!!!!
viva os padres do deserto

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23 10 2013
Robson Gomes

Eu conhecia o livro APOFTGAMAS das edições Lumen Christie . Os ditos dos Padres neste site são mais profundos , talvez , e não tem a limitação de uma edição.

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9 11 2013
Tarcísio

Meu caro amigo!
Saudações em Cristo!
Tenho o acompanhado nas postagens de Jardim dos Monges, vc sempre tem curtido e comentado minhas postagens, fico-lhe grato, meu amigo!
Obrigado e espero que continue!
Com relação aos Apoftegmas é verdade, são bem mais profundos.Infelizmente eu não tenho conseguido muitas fontes que possam nos dar mais detalhes sobre esses versos curtos mas cheios de sabedoria dos padres do deserto.Tenho pesquisado bastante, mas a maioria só tenho encontrado em sites do exterior.É bem mais complicado porque tenho que fazer uma tradução.A maioria dos meus amigos que fornecem as fontes são estrangeiros e não sabem o português.Porém tenho feito o possível para manter o site como uma fonte pequena de pesquisa….Obrigado por você comentar.Que Deus lhe conceda a paz!

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