O Seqüestro dos Sete Monges Trapistas

19 02 2013

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O seqüestro dos sete monges trapistas de Atlas
O desdobramento de uma tragédia

Armand Veilleux, OCSO, Argélia, 9 de abril de 1996.

A noite de Natal de 1993 foi um momento decisivo para a Comunidade de Notre Dame de Atlas em Tibhirine, e acima de tudo, de grande intensidade espiritual. Vamos primeiro examinar o contexto. No início do ano de 1992, a interrupção do processo eleitoral conduziu a Argélia a uma situação muito instável, com a supressão do FIS como partido político, a prisão de seus líderes e, depois, a formação de vários grupos armados, em particular o GIA. Em 14 de dezembro de 1993, doze católicos croatas, conhecidos dos monges, tinham tido suas gargantas cortadas em Tamesguida, poucos quilômetros distante do mosteiro.

Foi neste contexto que, poucos dias depois, na noite de 24 de dezembro de 1993, após a refeição da noite, um grupo de seis islâmicos se apresentou no mosteiro. O seu líder, Emir Sayah Attiya, era conhecido como terrorista de indubitável violência. Tinha sido o responsável pela morte dos croatas e, de acordo com as forças de segurança, havia cortado as gargantas de 145 pessoas. Sua conversa com Padre Christian, Superior da comunidade em Tibhirine, foi extraordinária. Padre Christian, apelando para o Corão, disse-lhe que o mosteiro era um lugar de oração onde nunca haviam entrado armas e pediu que a conversa tivesse lugar fora do mosteiro. Attiya concordou com isto. Apresentou aos monges, como “religioso” ele próprio e seu grupo de islâmicos, três exigências de cooperação. Para cada uma, Christian respondia que não era possível; cada vez ele dizia: “você não tem escolha”; cada vez Christian respondia: “sim, nós temos uma escolha”. Ele partiu dizendo que enviaria seus emissários com uma senha. Quando estava partindo, Christian disse: “Você veio aqui armado justo quando nos preparamos para celebrar o Natal, a festa do Príncipe da Paz”. Ele respondeu: “Desculpe-me, eu não sabia.”

O milagre foi não só que Sayah Attiya partiu naquela noite sem cortar as gargantas dos monges e sem brutalizá-los, mas que ele não voltou, nem mandou seus emissários. Quando, cerca de dois meses depois, foi ferido seriamente num confronto com as forças de segurança, sofreu por nove dias no distrito da montanha próximo antes de morrer, mas não pediu pelo médico do mosteiro, que foi uma das suas exigências às quais Christian havia dito que não poderia responder. Os monges nunca compraram sua segurança por qualquer concessão, e nunca condenaram qualquer forma de violência; mas para eles, toda pessoa, mesmo um terrorista, era uma pessoa humana digna de compreensão.

Quando depois, a administração argelina desejou impor uma proteção militar armada ao mosteiro, a comunidade recusou peremptoriamente esta proteção, usando o mesmo argumento: armas não têm lugar num lugar de oração e de paz.

Após esta “visita” de Natal em 1993, a comunidade dialogou por longo tempo sobre a atitude que deveria tomar. Pensaram seriamente em deixar o lugar. Finalmente, após terem rezado, dialogado e se aconselhado, decidiram permanecer por enquanto no lugar, enquanto previam a possibilidade de mudar-se rapidamente para Algiers ou Marrocos, se a situação se tornasse mais perigosa.

Durante os dois anos seguintes, onze religiosos da diocese de Algiers foram assassinados, em cinco ataques diferentes: Henri Vergés, irmão marista, e Ir. Paule-Hélène, Irmãzinha da Assunção, em maio de 1994; Irmãs Caridad e Ester, agostinianas espanholas, em outubro de 1994; os quatro Padres Brancos de Tizi Ouzou em dezembro do mesmo ano; Irmãs Bibiane e Angèle-Marie das Irmãs de Nossa Senhora dos Apóstolos em setembro de 1995, e Irmã Odette em 10 de novembro. Cada vez os monges de Tibhirine se perguntavam a mesma questão: deveriam deixar o lugar ou aí permanecer?

Cada vez decidiram-se a ficar. Cada vez, foi uma decisão tomada após oração e diálogo; uma decisão que foi lúcida, corajosa, serena e unânime. Nenhum deles “desejava” o martírio. Christian, falando a um grupo de leigos pouco antes de seu seqüestro, dizia que tal desejo seria um pecado uma vez que seria desejar que um “irmão terrorista” deveria pecar contra o mandamento divino “não matarás”. Sua oração diária durante os últimos meses tinha sido: “Senhor, desarme-me, e desarme-os”.

Por que eles ficariam? – Simplesmente por fidelidade à sua vocação de ser uma humilde presença cristã contemplativa no solo argelino, uma vez que a Igreja tem o direito e o dever de estar presente em todas as situações excepcionais, assim como nas circunstâncias normais. Fidelidade também a todos os argelinos com quem tinham estabelecido laços de solidariedade e de amizade por um período de mais de sessenta anos. Acima de tudo, fidelidade ao povo em torno deles que parecia protegido de todos os tipos de violência, tanto de um partido quanto de outro, pela total neutralidade dos monges.

Tive a ocasião de visitá-los em janeiro de 1996, dois meses antes do seqüestro. O que me chocou foi sua serenidade. Não desempenhavam o papel de heróis; alguns deles não escondiam um certo temor. O que sempre os “salvava” nesta situação tinha sido continuar a viver uma vida monástica completamente normal, com seu equilíbrio de trabalho manual, leitura da Palavra de Deus e o Ofício Divino. E assim, na noite de Natal de 1993, após a partida dos seis terroristas (os “irmãos da montanha” como eram chamados por eles), o sino tocou e eles foram à Igreja para celebrar as Vigílias de Natal e a Missa da Meia-Noite, como se nada houvesse acontecido. E foi com a mesma lógica que, um pouco mais do que dois anos depois, Padre Amédée e Padre Jean-Pierre, tendo descoberto, com um retirante sacerdote, que seus sete confrades tinham sido seqüestrados, e após terem tentado em vão informar a polícia, foram à Igreja para celebrar Vigílias, e depois Laudes e a Eucaristia.

O mosteiro de Tibhirine se tornou, durante os anos, um lugar de diálogo cristão-muçulmano. Este era o fruto de uma evolução natural, e não de um ação planejada. Por um lado, o mosteiro é um lugar de oração, e por outro lado, os monges tinham sido sempre muito respeitosos do povo, da cultura e da religião locais. Um grupo de muçulmanos profundamente religiosos gradualmente começou a frequentar o mosteiro. Em resultado disto, um grupo de diálogo cristão-muçulmano, o Ribat (uma palavra árabe que significa “ligação”) se formou, e se encontrava regularmente no mosteiro para oração e discussão. (Três dos onze missionários assassinados durante estes anos passados eram membros deste grupo). Na noite de Natal de 1995, seis vizinhos muçulmanos celebraram a festa de Natal com os monges. Todos obviamente pensaram na visita dos seis “irmãos da montanha” ocorrida dois anos antes.
A Igreja na Argélia, tão afetada durante o curso dos últimos anos pelos assassinatos acima mencionados e pela partida de muitos de seus fiéis, argelinos e franceses para a Frabça, está unida em torno de seu bispo, Pe. Henri Teissier. Estes cristãos que escolheram permanecer e continuam sua presença evangélica, parecem ter todos recebidos a mesma graça de serenidade e de humilde coragem da qual acima me referia em relação aos monges de Tibhirine. Esta Igreja inteira está profundamente afetada pelo sequestro dos monges. Durante a Semana Santa, que tive a graça de celebrar em Algiers, fui capaz de ver quão importante o mosteiro era para todos estes cristãos. Importante por nenhuma outra razão exceto pelo simples fato de ser um mosteiro completamente contemplativo: um lugar de oração e de paz onde todos podem ir de tempos em tempos para rezar, e onde todos são recebidos como irmãos e irmãs. Mesmo nestes anos passados, quando os religiosos, irmãs e sacerdotes tinham quase todos tido de se reagrupar em Algiers, e quando tinha-se tornado quase impossível de ir ao mosteiro, visto que a estrada era muito perigosa, a comunidade de Tibhirine continuou a ser percebida como um dos “pulmões” da diocese.

Os irmãos do mosteiro eram unânimes em seu compromisso, sua coragem e seu desejo de permanecer em Tibhirine. Eram todos muito amados pela população e pelos cristãos da diocese. Entretnato, um tributo especial deve ser dado ao Pe. Christian, seu superior nos últimos doze anos. Pe. Christian havia escolhido a Argélia e a o mosteiro de Nossa Senhora de Atlas. Embora tivesse feito seu noviciado em Aiguebelle na França, foi para Atlas e para este mosteiro que ele fez sua profissão. Alguns anos depois, foi a Roma para dois anos de estudo intesivo da língua e cultura árabe no Instituto Pontifício de Estudos Árabes. Falava árabe fluentemente e era bom conhecedor do Corão e da tradição religiosa muçulmana. Tem um respeito profundo pelo meio e pelas pessoas que escolheu para vier. Este respeito é tangível e explica porque o mosteiro gradualmente se tornou um lugar de encontro islâmico-cristão, simpesmente porque todos sentiam que seriam recebidos como irmãos e irmãs e que sua diferença seria respeitada.

Outro membro da comunidade cuja presença e personalidade marcaram a história da comundiade é Irmão Luc, um médico de profissão, com 82 anos na data de seu sequestro, que já tinha sido refém por um tempo do FLN, durante a guerra da Independência da Argélia. Membro do mosteiro de Tibhirine desde 1946, tornou-se uma verdadeira lenda na região. Sem nunca adotar qualquer causa política, sem se comprometer com facção alguma, e sem ir tratar dos feridos de qualquer facção fora do mosteiro, nunca se recusava a tratar os doentes que vinham a ele no seu dispensário na porta do mosteiro, vendo em cada um um ser humano em necessidade, um ícone de Cristo. Quando escrevo estas linhas, os sete irmãos de N.S. de Atlas estão desaparecidos há duas semanas, e ainda não temos nenhuma notícia a respeito deles. Continuamos a esperar que possam todos retornar a nós vivos. Dificlmente poderão, nas circunstâncias atuais, voltar ao seu mosteiro. A comunidade – à qual se reuniriam dois postulantes – viverá por um tempo em diáspora e esperamos que eles sejam capazes de se reestabelecer em Tibhirine quando melhores tempos sobrevierem. Se os monges tivessem decidido deixar Tibhirine durante os últimos anos, teria sido um golpe amargo para a população local e para a Igreja de Algiers e seu pastor. Eles se recusaram a isto com coragem e lucidez. Agora são forçados a deixar, este sofrimento é experimentado por todos com a mesma tristeza, mas também com a mesma serenidade, como todas as pilhagens dos anos recentes.

Argélia, 9 de abril de 1996.
Armand Veilleux, OCSO

Traduziu: Cecilia Fridman, Rio Negro, PR, para o Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, 4/7/1999.

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