O QUE É UM MONGE?

23 09 2015
Dom Paulo Celso Demartini

Dom Paulo Celso Demartini

O monge é um homem chamado pelo Espírito Santo a renunciar aos cuidados, desejos e ambições dos outros homens para dedicar toda a sua vida à procura de Deus. O conceito é conhecido. A realidade significada pelo conceito é um mistério. Pois, concretamente, ninguém na terra sabe com precisão o que seja “buscar a Deus” enquanto não se tiver posto em marcha para achá-Lo. Homem algum pode dizer a outro em que consiste essa procura, se esse outro não for, ao mesmo tempo, iluminado pelo Espírito que fala em seu coração. Em suma, ninguém pode procurar a Deus a não ser que já tenha começado a encontrá-Lo. Ninguém pode encontrar Deus sem que primeiro Deus o tenha encontrado. O monge é o homem que procura Deus porque por Ele foi achado.
Em resumo, um monge é um “homem de Deus”.
Uma vez que todos os homens foram criados por Deus para que o pudessem encontrar, todos são, de certo modo, chamados a ser “homens de Deus”. Mas nem todos são chamados a ser monges. Um monge, portanto, é alguém chamado a se dar exclusiva e perfeitamente ao único necessário a todos os homens – a busca de Deus. A outros é-lhes permitido procurar a Deus por caminho menos direto, levar no mundo uma vida digna, fundar um lar cristão. O monge põe essas coisas de lado, embora possam ser boas. Dirige-se a Deus pelo atalho direto, “recto trámite”. Retira-se do “mundo”. Entrega-se inteiramente à oração, à meditação, ao estudo, ao trabalho, à penitência, sob o olhar de Deus. A vocação do monge se distingue até das outras vocações religiosas, pelo fato de que ele se dedica essencial e exclusivamente à busca de Deus, em lugar da busca das almas para Deus.
Encaremos o fato de que a vocação monástica tem tendência a se apresentar ao mundo moderno como um problema e um escândalo.
Numa cultura basicamente religiosa, como a da Índia ou a do Japão, o monge é, por assim dizer, coisa normal. Quando a sociedade inteira está orientada para além da busca meramente transitória dos negócios e do prazer, ninguém se espanta de que homens dediquem a vida a um Deus invisível. Numa cultura materialista, porém, fundamentalmente irreligiosa, o monge se torna incompreensível porque ele “não produz nada”. Sua vida parece completamente inútil. Nem mesmo os cristãos têm sido isentes dessa ansiedade por causa da aparente “inutilidade” do monge. Estamos acostumados com o argumento de que o mosteiro é uma espécie de dínamo que, embora não “produza” a graça, consegue esse bem-estar espiritual infinitamente precioso para o mundo.
Os primeiros pais do monarquismo não se preocupavam com tais argumentos, se bem que possam ter valor quando bem aplicados. Eles não sentiam que a procura de Deus fosse algo que necessitasse ser defendido. Ou, antes, viam que se os homens não tivessem, em primeiro lugar, consciência de que Deus deve ser procurado, nenhuma outra defesa do monaquismo adiantaria.
Deus deve, então, ser procurado?
A mais profunda lei no ser do homem é a necessidade de Deus, de vida. Deus é vida. “Estava nele a vida e a vida era a luz dos homens E a luz brilhou nas trevas e as trevas não a compreenderam” (Jo 1,4 – 5). Compreender a luz que no meio delas brilha é a maior necessidade que têm nossas trevas. Por isso, deu-nos Deus como seu primeiro mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças”. A vida monástica nada mais é do que a vida daqueles que tomaram o primeiro mandamento com a maior seriedade, e, como diz são Bento, “nada preferiram ao amor de Cristo”.
Mas quem é Deus? Onde está?
O monarquismo cristão é busca de alguma pura intuição do Absoluto? Um culto do Bem supremo? A adoração da Beleza perfeita e imutável? O próprio vazio de tais abstrações torna o coração frio. O Santo, o Invisível, o Todo-Poderoso é infinitamente maior e mais real do que qualquer abstração inventada pelo homem. Mas Ele próprio disse: “O homem não me pode ver e viver” (Ex 33,20). Entretanto, o monge persiste em exclamar com Moisés: “Mostra-me a Tua face” (Ex 33,13).
O monge, portanto, é alguém que procura tão intensamente a Deus que está pronto a morrer para poder vê-Lo. Por isso é que a vida monástica é um “martírio” bem como um “paraíso”; uma vida ao mesmo tempo “angélica” e “crucificada”.
São Paulo resolve, do seguinte modo, o problema: “Deus que disse: ‘Do seio das trevas brilhe a luz’ foi quem fez brilhar sua luz em nossos corações, para que façamos brilhar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Jesus Cristo” (2 Cor 4,6).
A vida monástica é a rejeição de tudo que obstrui os raios espirituais dessa misteriosa luz. O monge é alguém que deixa atrás de si a ficção e as ilusões de uma espiritualidade meramente humana, para mergulhar na fé em Cristo. A fé é a luz que o ilumina no mistério. É a força que se apodera das íntimas profundezas de sua alma e o entrega à ação do Espírito divino. Espírito de liberdade. Espírito de amor. A fé o segura e, como outrora fez com os antigos profetas, “firma-o sobre seus pés” (Ez. 2,2) diante do Senhor. A vida monástica é vida no Espírito de Cristo, vida em que o cristão se dá inteiramente ao amor de Deus que o transforma na luz de Cristo.
“O Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, ali está a liberdade. E todos nós que, com o rosto descoberto, refletimos como espelhos a glória do Senhor, nós nos transformamos nesta mesma imagem, cada vez mais resplandecente, conforme a ação do Senhor, que é espírito” (2 Cor 3,17 – 18). O que São Paulo diz da vida interior de todo 0 cristão, torna-se, em realidade, o principal objetivo do monge vivendo em solidão no claustro. Procurando a perfeição cristã, procura o monge a plenitude da vida cristã, a inteira maturidade da fé cristã. Para ele, “viver é o Cristo”.
Para estar livre da liberdade dos filhos de Deus, renuncia o monge ao exercício da sua própria vontade, ao direito à propriedade, ao amor do conforto e do bem-estar, ao orgulho, ao direito de fundar uma família, à faculdade de dispor do seu tempo como bem entender, a ir aonde quer e a viver conforme bem lhe parece. Vive só, pobre, em silêncio. Por que? Por causa daquilo em que ele crê. Crê na palavra de Cristo que prometeu: “Em verdade vos digo: Não há ninguém que tenha abandonado a casa ou os pais, ou os irmãos, ou a esposa, ou os filhos, por causa do reino de Deus, e que não receba muito mais no tempo presente, e, no século futuro, a vida eterna” (Lc. 18,29 – 30).
O MONGE E O MUNDO
O mosteiro não é nem um museu, nem um asilo. O monge permanece no mundo que abandonou, e é, nele, uma força poderosa, embora oculta. Para além de todas as tarefas que poderão acidentalmente se ligar à vocação do monge, este age sobre o mundo pelo simples fato de ser monge. A presença dos contemplativos é para o mundo o que o fermento é para a massa, pois há vinte séculos o próprio Cristo declarou nitidamente que o Reino dos céus se assemelha ao fermento oculto em três medidas de farinha.
Mesmo sem nunca sair do mosteiro em que vive, nem pronunciar uma palavra ouvida pelos demais homens, está o monge inextricavelmente envolvido nos sofrimentos e problemas da sociedade a que pertence. Deles não lhe é possível escapar, nem ele o deseja. Não está isento de prestar serviço nas grandes lutas de seu tempo, antes, como soldado de Cristo, está designado para tomar parte nessa batalhas, combatendo no “front” espiritual, no mistério, pelo sacrifício de si próprio e pela oração. Isso ele faz unido a Cristo crucificado, unido também a todos aqueles por quem Cristo morreu. Está consciente de que o combate não está dirigido contra a carne e o sangue, e sim “contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados nos ares” (Ef 6,12).
O mundo contemporâneo está em plena confusão. Está atingindo o ápice da maior crise na história. Nunca, antes, houve tamanha reviravolta na raça humana inteira. Forças tremendas: espirituais, econômicas, tecnológicas e políticas estão em movimento. A humanidade se vê à beira dum abismo de nova barbaria; restam, todavia, ao mesmo tempo, possibilidades quase incríveis de soluções imprevistas, a criação de um mundo novo e de uma nova civilização, tal como jamais se viu.
Estamos enfrentando o anticristo ou o milênio; ninguém sabe dizer se um ou o outro.
Neste mundo em perpétua mutação, permanece o monge como baluarte de uma Igreja que não muda, contra a qual as portas do inferno não podem prevalecer. É verdade que a própria Igreja se adapta, porque é ela uma Corpo vivo, um organismo em constante crescimento. Onde há vida, tem de haver desenvolvimento. Na ordem monástica, também deverá manifestar-se adaptação, desenvolvimento, crescimento.
Diante de Deus, diante dos homens, diante do mundo de concupiscência, seu antagonista, está o monge carregado de tremenda responsabilidade, a responsabilidade de continuar a ser aquilo que seu nome significa: um monge, um homem de Deus. Não apenas alguém que abandonou o mundo, mas alguém capaz de representar Deus neste mundo que o Filho de Deus salvou pela morte na Cruz.
O mosteiro nunca poderá ser, simplesmente, o refúgio de uma arquitetura de falso estilo gótico, de cultura clássica, e de piedade convencional. Se o monge nada mais é do que um burguês bem estabelecido na vida, com os preconceitos e o bem-estar de um membro da classe média e a habitual mediocridade que daí deriva, descobrirá que sua vida não foi dedicada a Deus, e sim ao “serviço da corrupção”, e desaparecerá com tudo que é efêmero.
Por outro lado, a vocação do monge proíbe-lhe descer à planície para tomar parte nas lutas que aí se travam. Só poderá considerar como tentações as opções que o mundo lhe oferece e as oportunidades de tomar posição em favor de uns ou contra outros. A vocação do monge chama-o exclusivamente ao que é transcendente. Está e deverá sempre se manter acima das facções humanas. Isso quer dizer que é susceptível de se tornar vítima de todas elas. Contudo, não deve renunciar à posição exclusivamente espiritual que lhe cabe, de maneira a proteger a própria pele ou ter um teto para si.
Todavia, nunca a vida monástica deverá ser de tal modo “espiritual” que chegue a impedir toda encarnação. Aqui também haveria infidelidade. O monge tem de permanecer real, e só o poderá ser mantendo-se em contacto com a realidade. Mas, para ele, a realidade está encarnada na criação, obra de Deus, na humanidade, suas dores, suas lutas e seus perigos. Cristo, o Verbo, se encarnou de maneira a viver, sofrer, morrer e ressuscitar em todos os homens, libertando-os, assim, do mal, pela espiritualização do mundo material. O monge, portanto, permanece neste mundo em caos, mundo de carne em que ele e sua Igreja proclamam incansavelmente a primazia do espírito, mas fazem-no dando testemunho da realidade da Encarnação do Verbo. Para o monge, como para todo cristão, “viver é o Cristo”. A comunidade monástica, já o vimos, vive da caridade e para a caridade, uma caridade que mantém a “lumen Christi”, a luz de Cristo ardendo na escuridão de um mundo incrédulo. O mosteiro é um tabernáculo em que o Altíssimo habita entre os homens, santificando-os e unindo-os a Si em seu Espírito. A comunidade monástica se dedica incansavelmente a todas as obras de misericórdia, em especial, às obras espirituais de misericórdia. Aos olhos do mundo, o mosteiro se ergue como incompreensível sacramento da misericórdia de Deus para com os homens. Incompreensível; portanto, incompreendido. Que há nisso de surpreendente? O próprio monge não consegue avaliar plenamente sua vocação; ainda menos pode ele compreendê-la. Contudo, a misericórdia de Deus está nele. Se assim não fosse, ele nada seria. Isso é algo que o monge não pode ignorar, se é verdadeiramente monge.
Se, em certo sentido, o monge se mantém acima das divisões da sociedade humana, não quer isso dizer que não lhe caiba um lugar na história das nações. Sempre teve e terá por vocação uma atitude de simpatia e compreensão para com todo movimento cultural e social que favoreça o desenvolvimento do espírito humano; por vocação, continuará a fazê-lo. Os beneditinos se celebrizam por seu humanismo, e ninguém ignora que os monges preservaram as tradições culturais da antigüidade. Os monges serão sempre parte integrante de qualquer sociedade que favoreça a verdadeira liberdade, pois os próprios monges são centros de liberdade espiritual e transcendente. Como tal, o mosteiro representa, neste mundo, a caridade divina de que todas as liberdades e comunhões humanas nada mais são do que a sombra.
Por isso é que importa ao monge, acima de tudo, ser aquilo que seu nome significa: um solitário, alguém que, pelo desapego de tudo, se tornou “só”. Mas, na solidão e no desapego, o monge está de posse duma vocação à caridade que atinge dimensões muito maiores do que a de qualquer outra. Pois aquele que tudo abandonou tudo possui, aquele que deixou a companhia dos homens permanece com todos pela caridade de cristo que nele vive, e aquele que renunciou a si próprio por amor a Deus é capaz de se dedicar à salvação de seus irmãos, com o poder irresistível do próprio Deus.

Thomas Merton.





Um Milagre de são Serafim de Sarov

30 08 2015

serafim

“Ah, se você soubesse, – dizia ele certa vez a um monge, – que alegria, que doçura aguardam a alma do justo no Céu, você decidiria suportar com gratidão qualquer tristeza, aflição, perseguição e calúnia nesta vida passageira. Se esta nossa própria cela estivesse cheia de vermes, e se esses vermes estivessem comendo nossa carne no decorrer de toda nossa vida na terra, deveríamos concordar com isso, com todas as nossas forças, afim de não perdermos de forma alguma a alegria celestial que Deus preparou para aqueles que O amam.

Um acontecimento milagroso da transfiguração da face do santo foi descrito por um admirador próximo e discípulo de São Serafim – Motovilov. Aconteceu no inverno, num dia nublado. Motovilov estava sentado sobre um tronco na floresta. São Serafim estava acocorado diante dele falando sobre o sentido da vida cristã, explicando, por que motivo nós, cristãos, vivemos na terra.

“É preciso que o Espírito Santo penetre em nosso coração, – dizia ele. – Tudo aquilo de bom que nós fazemos por Cristo, nos é dado pelo Espírito Santo, porém mais do que tudo a oração, a qual está sempre em nossas mãos.”

“Batiushka”(padre) – respondeu Motovilov, – como é que eu posso ver a graça do Espírito Santo; como posso saber se Ele está comigo ou não?”

São Serafim começou a dar-lhe exemplos da vida dos santos e apóstolos, porém Motovilov ainda não entendeu. O santo então tomou-o com firmeza pelo ombro e disse: “nós dois agora, meu caro, estamos no Espírito Santo. Foi como se os olhos de Motovilov se abrissem, e ele viu que o rosto do santo brilhava mais do que o sol. Em seu coração Motovilov sentiu alegria e paz, seu corpo estava cálido, como no verão e ao redor deles se espalhava uma doce fragrância. Ele se apavorou com esta mudança extraordinária, principalmente com o fato de que o rosto do staretz resplandecia igual ao sol. Mas São Serafim disse-lhe: “Não tenha medo, meu caro. Você nem poderia estar me vendo se você mesmo não estivesse na plenitude do Espírito Santo. Agradeça ao Senhor por Sua misericórdia para conosco.” Foi assim que Motovilov compreendeu, na mente e no coração o que significava a descida do Espírito Santo e Sua transfiguração no homem.

Fonte: http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/seraphim_p.htm





Vida de Santa Maria do Egito, a Penitente.

30 08 2015

Por Sofrônio

Prólogo. Capítulo 1. Capítulo 2. Capítulo 3. Capítulo 4. Capítulo 5. Capítulo 6. Capítulo 7. Capítulo 8. Capítulo 9. Capítulo 10. Capítulo 11.

Prólogo

É algo louvável esconder o segredo dos Reis; mas há glória em publicar as obras de Deus, como diz o Anjo a Tobias, quando este recobra de maneira miraculosa a visão – tendo passado por tantos perigos goza então, dos efeitos do amor e da ajuda de Deus. É bastante perigoso descobrir os segredos dos príncipes e, contrariamente, causa muito prejuízo à alma calar-se sobre as ações ilustres, que Deus faz em favor dos homens pelo excesso de Sua bondade e de Sua misericórdia. É portanto temerário encobrir com o silêncio as maravilhas divinas, por um justo julgamento. Seria cair na mesma condenação daquele servo inútil que ao invés de aproveitar do talento recebido escondeu-o na terra. Eu não sepultaria nas trevas uma história tão santa quanto esta que chegou ao meu conhecimento. E não é preciso sequer acrescentar fé ao que vou escrever, considerando-se o espanto, que ações tão extraordinárias causarão. Deus me proteja de ser mentiroso em assuntos santos, e de violar a verdade daquilo que concerne a Sua glória; não tomarei parte no perigo que correm aqueles, que não compreendem senão as coisas baixas, e julgando indignamente a grandeza de um Deus que Se fez homem, não acrescentarão nada de fé a este discurso. E há pessoas que depois de o terem lido, recusam-se a lhe dar o crédito e a admiração que merece uma história tão miraculosa. Suplico a Deus que tenha piedade delas e abra-lhes o espírito, a fim que elas escutem Sua Santa palavra, e que não se tornem culpadas pelo desprezo, de tantos milagres que Ele decidiu fazer em toda a eternidade a favor de Seus Eleitos; assim elas agem considerando a fraqueza da natureza humana, julgando impossível tudo o que lhes é contado sobre as ações extraordinárias dos Santos.

Eu vou então começar esta narrativa, onde escreverei palavra por palavra segundo aquilo que se sabe ter acontecido e que me foi reportado por um homem santo, alimentado pela ciência e pela prática das coisas divinas. E, que ninguém se deixe tomar pela incredulidade, como se fosse impossível que tão grande milagre acontecesse hoje em dia, visto que a graça de Deus – que século a seculo circula na alma dos santos – torna-os Seus amigos e faz Profetas; assim como Salomão nos ensina através do conhecimento que Ele lhe deu. Mas não se deve separar o relato deste grande e generoso combate de Maria do Egito, do modo com que ela terminou seus dias na terra.

Capítulo 1

O abade Zózimo – que era um Solitário de grande virtude – tendo sido tentado por pensamentos de vaidade, apresenta-se-lhe um homem que lhe diz para ir a um mosteiro perto do Jordão onde ele mesmo fora recebido.

Havia num mosteiro da Palestina um homem chamado Zózimo que, tendo sido desde a sua infância instruído com grande zelo nos exercícios da vida solitária e educado santamente, fazia brilhar em suas palavras e em suas ações uma verdadeira piedade. Entretanto, não imaginem que eu queira aqui falar daquele Zózimo acusado de ensinar erros no que concerne a crença; os nomes são os mesmos. Este de quem falo, ficou primeiramente em um mosteiro da Palestina e passando por todos os exercícios da vida solitária, tornou-se muito recomendado pela pureza de seus hábitos e o seu fervor na penitência; pois observava inviolavelmente todas as instruções que lhe davam aqueles que desde a juventude haviam sido alimentados deste santo modo, de forma a mantê-lo capaz de suportar os combates que se lhes apresentavam na prática exata das regras e, não bastando, acrescentou ainda muito de si, pelo desejo que trazia de sujeitar a carne ao espírito. Assim, jamais percebeu-se uma pequena falta na menor das coisas e ele realizava tão perfeitamente tudo o que se esperava de um solitário, que se via com freqüência muitos outros, tanto das redondezas quanto das províncias distantes, virem até ele e, por suas instruções e seus exemplos, portarem-se com mais ardor do que antes, nos outros santos exercícios da penitência.

Tendo tantas qualidades excelentes, meditava sem cessar sobre as Santas Escrituras, pois, quer estivesse deitado para um pequeno repouso, quer estivesse levantado, quer trabalhasse com as mãos ou comesse, seu espírito ocupava-se sempre deste objetivo que se lhe tornara tão familiar e nunca interrompida a obra de recitar os Salmos e de meditar sobre as Sagradas Escrituras. Assim, tornado-se digno de ter seu espírito esclarecido por Deus, aqueles que viviam com ele asseguravam que freqüentemente era favorecido com visões; o que não é nem estranho nem incrível, pois nosso Senhor Jesus Cristo diz: “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus;” com mais razão ainda àqueles que purificaram a sua carne, que sempre permaneceram em abstinência e cujo espírito jamais adormece no caminho da piedade; esses podem ter os olhos iluminados pelas luzes divinas, como marca da felicidade que os espera na outra vida, onde O verão em toda a Sua majestade e glória.

Zózimo dizia que estava naquele mosteiro praticamente desde ter deixado o seio materno, onde viveu até os 53 anos na observância das regras da vida solitária, e um dia, vendo-se tentado por alguns pensamentos que lhe faziam crer ser perfeito, em todas as instruções de quem quer que fosse, dizia consigo: “Há algum Solitário no mundo que possa ensinar-me algo de novo, ou mostrar-me algo que eu ainda não tenha realizado por minhas próprias ações, nesta santa maneira de viver? Haverá alguém que me ultrapasse”?

Como ele se entretinha com estes pensamentos e alguns outros parecidos, apresentou-se um homem diante dele que lhe disse: “Zózimo, é verdade que combateste generosamente e tanto quanto um homem poderia fazer. É verdade que correste bastante na carreira da vida solitária. Mas não há nenhum homem que possa se vangloriar de ser perfeito, sobretudo porque tu não sabes ainda que o presente combate é mais difícil de suportar do que os passados, e a fim de que conheças que há muitas outras vias para chegar à Salvação, sai de teu país, sai do meio dos teus próximos, sai da casa de teu pai como o grande patriarca Abraão, e vai-te ao mosteiro que fica ao longo do Jordão .”

Seguindo aquilo que lhe havia sido recomendado, Zózimo saiu do mosteiro onde havia sido alimentado desde a sua infância, e tendo chegado à beira do Jordão – o mais santo de todos os rios – foi conduzido pelo mesmo homem ao mosteiro, onde Deus lhe ordenara ir. Tendo batido à porta e falado com o porteiro, este irmão foi dizer ao abade o qual veio recebê-lo, reconhecendo por seu hábito e por sua continência tratar-se de um Solitário. Depois que Zózimo pôs-se de joelhos conforme o costume dos Solitários e que pediu a sua bênção, o abade lhe disse: “De onde vens, meu irmão? E que assunto te traz até os pobres Solitários?” Zózimo respondeu: “Meu pai, não estimo ser necessário dizer-vos de onde venho, e penso que é suficiente que saibais, que o que me traz é o desejo de encontrar aqui temas de edificação, pois soube coisas tão vantajosas deste mosteiro e tão dignas de elogio, que são capazes de levar os homens a unirem-se a Deus.” O abade retorquiu: “Meu irmão, que Deus, o único que pode curar as enfermidades da alma, queira por Sua graça instruir-te e a nós também com Seus mandamentos e conduzir nossos passos para caminharmos nos santos caminhos; pois não há homem algum que seja capaz de fazer outros, avançarem na virtude. É preciso que cada um vele cuidadosamente sobre si mesmo e, sem elevar alto demais seus pensamentos, faça o que lhe for mais vantajoso para chegar à perfeição; Deus cooperando com ele. Todavia, já que dizes que a caridade de Jesus Cristo te traz aqui para ver os pobres solitários, podes permanecer conosco se é este o teu desejo; e o Bom Pastor, que deu a vida para nossa salvação e que chama as suas ovelhas cada uma por seu nome, nos alimentará pela graça de Seu Espírito Santo.” Tendo o abade concluído suas palavras, Zózimo ajoelhou-se ainda e após ter recebido a benção, respondeu: “Assim seja” e ficou no mosteiro.

Capítulo 2

Sobre a perfeição em que se vivia neste mosteiro, onde os Solitários passavam quase toda a quaresma no deserto.

Ele viu lá, anciãos de rostos veneráveis, admiráveis em suas ações, fervorosos em espírito, e que serviam a Deus sem qualquer interrupção. Não havia hora durante a noite em que não se cantasse os salmos, e durante o dia eles estavam sempre em suas bocas, enquanto trabalhavam incessantemente com as mãos. Não se sabia o que eram cuidados inúteis. Não tinham o menor pensamento sobre o bem nem sobre outras coisas temporais, e apenas conheciam-lhes os nomes; mas empregavam todo o ano considerando o NADA desta vida, que não é senão, uma passagem cheia de dores e misérias e meditando sobre coisas semelhantes. Uma coisa somente parecia-lhes importante e trabalhavam com todo o ardor para adquiri-la: estarem mortos para o século, ao qual haviam renunciado quando deixaram o mundo e todas as coisas que dependiam dele. Vivendo assim, como se não vivessem mais, alimentavam o espírito com uma carne que não lhes faltava nunca, a Palavra de Deus, e o seu corpo com pão e água somente, a fim de terem mais motivo para esperar a misericórdia de seu Mestre. Como contou depois, Zózimo foi bastante edificado por esta maneira de viver, e excitava-se com os exemplos para avançar na perfeição, encontrando pessoas que trabalhavam tão poderosamente com ele para adquirí-la, e mostravam com tanta alegria um novo Paraíso na terra.

Poucos dias depois, chegou o tempo recomendado aos cristãos pela tradição da igreja, para celebrarem o santo jejum da Quaresma e para purificarem as almas a fim de se tornarem dignos de verem os dias da morte e da ressurreição de nosso Salvador. Ora, estes Solitários faziam todas as suas funções sem serem jamais perturbados, pois não se abria nunca a porta principal da casa, devido ser este um lugar de solidão que não somente não era freqüentado, como também não era conhecido pela maior parte dos vizinhos; e esta regra era observada desde o estabelecimento do mosteiro, o que me faz crer que foi por esta razão que Deus enviou Zózimo para lá.

Quero reportar aqui a ordem que observavam estes Solitários. No primeiro domingo de quaresma celebravam-se os divinos mistérios segundo o costume, e cada um recebia o corpo e sangue precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, que dá a vida aos homens. Em seguida, depois de terem comido um pouco como de hábito, eles se reuniam no Oratório, onde, tendo feito a oração de joelhos, davam-se uns aos outros o santo beijo, e ajoelhando-se, beijavam seu abade e pediam-lhe a bênção, a fim de serem assistidos por suas orações no combate que iriam empreender. Abriam-se em seguida todas as portas do mosteiro, e, cantando todos a uma só voz o Salmo: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei? O Senhor é a minha proteção, quem será capaz de me assustar?” eles saíam deixando um ou dois irmãos no mosteiro; não para guardarem o que lá ficava, pois não tinham nada que fosse bom para os ladrões, mas para não deixarem que o Oratório ficasse sem alguém que cantasse os louvores a Deus. Cada um levava consigo o que precisava para viver conforme suas necessidades; uns levavam figos, outros damascos, outros legumes molhados com água, e haviam os que não levavam nada, senão seus corpos e seus hábitos, comendo apenas ervas que crescem no deserto, quando pressionados pela fome. Cada um, era regra para si próprio e era uma lei inviolavelmente observada entre eles, não revelarem em que abstinência haviam vivido durante aquele tempo. Para isso passavam o Jordão e afastavam-se bastante uns dos outros; tinham a solidão por companhia. E, se viam ao longe vir em sua direção um irmão, desviavam-se de seu caminho e iam para outro lado, vivendo somente para Deus e sozinhos, cantando frequentemente os Salmos, e não comendo, senão em determinados momentos. Após haverem jejuado, voltavam ao mosteiro antes do dia da Gloriosa Ressurreição de Jesus Cristo nosso Salvador, que é a vida de nossas almas, e, no domingo em que a Santa Igreja celebra com ramos, eles estavam todos de volta. Cada um trazia de volta consigo o testemunho de sua própria consciência, sobre como havia trabalhado durante o retiro, e as sementes que havia lançado em sua alma, de maneira a torná-la forte e generosa para empreender novos trabalhos para o serviço de Deus; e não se perguntavam jamais uns aos outros, como já vos disse, como tinham vivido durante esse tempo de separação e de solidão.

Eis a regra daquela casa, observada perfeitamente, e a maneira pela qual cada um daqueles Solitários unia-se a Deus no deserto e combatia contra si mesmo, de maneira a tornar-se agradável a Deus somente, e não aos homens, sabendo que todas as coisas feitas por amor aos homens e com o desejo de agradá-los, mais prejudicam do que servem, àqueles que as executam.

Capítulo 3

Zózimo, tendo ido durante a quaresma para o deserto com os outros Solitários, percebe a figura de uma criatura humana, que fugia à sua presença, e segue-a até um lugar cortado por uma torrente

Segundo o costume deste mosteiro, Zózimo passa o Jordão, levando somente seu hábito e alguma coisa para viver. Assim, ele observava a regra e atravessando aquela solidão, não comia senão quando a necessidade a isso o obrigava. Deitava-se na terra, onde o surpreendesse a noite, para repousar e dormir um pouco; e tão logo as primeiras luzes do dia apareciam, apressava-se a caminhar tendo continuamente no espírito; como contou mais tarde; o desejo de entrar mais adiante neste Deserto, com a esperança de aí encontrar algum bom pai, de quem pudesse aprender alguma coisa; e, sem cessar avançava ao acaso, como se estivesse em direção à alguém que lhe fosse conhecido. Depois de ter caminhado durante vinte dias, tendo chegada a hora das Sextas, parou um pouco, e voltando-se para o Oriente fez sua prece normal, pois havia se acostumado a parar em certas horas do dia e a cantar os Salmos de pé e a fazer ajoelhado as orações.

Quando então cantava os Salmos, e com olhar fixo mantinha os olhos elevados para o Céu, viu em sua mão direita algo como a sombra de um corpo humano, o que o encheu primeiramente de espanto e medo, por crer tratar-se de uma ilusão do diabo; mas tendo-se armado com o Sinal da Cruz e tendo perdido toda a apreensão e chegado ao fim das orações, viu, ao voltar os olhos, alguém que de fato andava na direção do Ocidente. Ora, aquilo que via era uma mulher, cujo corpo o ardor do sol havia tornado extremamente negro e cujos cabelos eram brancos como a lã, mas tão curtos que iam somente até o pescoço.

Vendo isto, que acabo de relatar, e regozijando-se na esperança de receber o consolo que esperava, Zózimo correu com todas as suas forças ao lugar, onde aquilo que lhe aparecia apressava-se em ir, pois sua alegria era muito grande; porque durante todo o tempo que havia caminhado no deserto, não havia visto nenhuma forma nem de homem, nem de bestas selvagens, nem de pássaros, nem de quaisquer animais, o que aumentava seu desejo de saber o que é que lhe aparecia; esperando tirar grande lucro disso. Ela porém, vendo Zózimo seguí-la, fugiu em direção ao fundo do deserto. Esquecendo a fraqueza de sua idade e não considerando o trabalho que lhe daria o caminho, ele correu em grande velocidade, pelo desejo que tinha de ver mais perto, aquilo que fugia dele; e assim correndo mais veloz que ela, aproximava-se cada vez mais.

Quando ele estava a uma distância que ela poderia ouvir a sua voz, ele gritou-lhe chorando: “Serva de Deus, porque fugis deste pecador e pobre velho? Quem quer que sejais, conjuro-vos pelo Deus, pelo amor de quem passais vossa vida nesta horrível solidão, a suportar-me; conjuro-vos pela esperança que tendes de ser um dia recompensada de tantos trabalhos. Parai e não recuseis a nossa bênção e nossas orações, àquele que vô-las pede em nome de Deus, que jamais rejeitou ninguém .” Zózimo misturando assim suas conjurações às suas lágrimas, chegaram ambos correndo a certo lugar, onde as águas de uma torrente haviam cruzado, e então aquilo que fugia, desceu e subiu em seguida de outro lado. Zózimo continuava gritando e não podendo passar além, permaneceu aquém da torrente que estava seca, e redobrou de tal maneira seus lamentos e suspiros que se podia escutá-los ainda muito longe.

Capítulo 4

Aquilo que fugia diante de Zózimo para, após ter atravessado a torrente, e diz-lhe que é uma mulher. Passam muito tempo a pedir a benção um ao outro, e depois em oração Zózimo a vê suspensa no ar.

Então aquela pessoa que fugia disse-lhe: “Abade Zózimo, peço-vos em nome de Deus perdoar-me, por não me voltar para falar convosco, pois sou uma mulher e como podeis ver estou nua; mas, se desejais assistir com vossas orações uma pobre pecadora, lançai-me vossa capa para que eu me cubra e possa assim voltar-me para vós e receber a vossa bênção.” Zózimo ficou tomado de um maravilhoso espanto misturado com temor e sentindo-se transportado para fora de si mesmo ao ouvir estas palavras, pois, sendo um homem excelente e que a graça de Deus havia dotado de muita prudência, julgou que aquela mulher não o tendo jamais visto ou ouvido falar dele, não o tivesse chamado por seu nome, sem uma graça particular de Deus. Executou prontamente o que ela havia ordenado, e após haver desabotoado sua capa lançou-a, virando-se de costas. Tendo-a recebido, ela cobriu-se a maior parte do corpo, e assim envolvida voltou-se para Zózimo e lhe disse: “Meu pai, que desígnio trouxe-vos a ver uma pecadora, e o que desejais saber e aprender de mim, para não temer tanto trabalho, quanto tivestes que sofrer para vir até aqui?”

Prostando-se por terra Zózimo pediu-lhe a bênção, como é costume fazer, e ela, prostrando-se por sua vez, pediu-lhe a sua também.

Permaneceram muito tempo assim e por fim ela lhe disse: “Meu pai, cabe a vós dar-me a benção e fazer a oração, visto que sois honrado pelo Presbiterado, e que há tantos anos servindo ao Santo Altar, penetrais pela graça e pela luz que Deus vos dá, nos segredos e mistérios de Jesus Cristo.” Estas palavras aumentaram o temor e a emoção de Zózimo e via-se tremer esse santo ancião e correr o suor em grandes gotas pelo seu rosto. Assim, não tendo mais forças e como se estivesse prestes a dar o último suspiro, ele lhe disse: “Ó mãe espiritual, te conheço o bastante pelo pouco que vi, pois estais toda com Deus e que quase não vives mais na terra; e posso crer que Ele vos concedeu dons muito extraordinários; pois, sem terdes jamais me visto, chamastes-me pelo meu nome; mas visto que na dignidade das funções onde se é chamado, não acontece que tenhamos uma graça igual ao cargo que temos de exercer, e que esta graça se conhece principalmente pelos efeitos maravilhosos que produz nas almas, abençoai-me pelo amor de Deus, e assisti-me com vossas orações, a fim de tornar-me um digno de imitar a vossa virtude.”

Então, compadecendo-se da teimosia do santo ancião, ela diz: “Bendito seja o Senhor que opera a salvação das almas.” Ao que Zózimo respondeu: “Assim seja” e levantaram-se os dois e ela disse-lhe: “Quem, então, vos trouxe até uma pecadora como eu? De todo o modo, já que o Espírito Santo vos conduziu até aqui por Sua graça, a fim de prestar-me alguma assistência à minha fraqueza, dizei-me, suplico-vos, de que maneira se conduzem os cristãos hoje; de que maneira agem os imperadores; e de que maneira o rebanho de Jesus Cristo é agora governado na Santa Igreja?” Zózimo respondeu: “Minha mãe, Deus concedeu às vossas santas orações uma paz, concedida aos fiéis. E não recuseis, suplico-vos em Seu nome, a um bastante indigno Solitário; o consolo que vos peço pelo amor dc Jesus Cristo por todo mundo, e particularmente para este pobre pecador, a fim de que, não tenha feito inutilmente um tão longo e laborioso caminho através desta vasta solidão.” Ela repondeu-lhe: “Meu pai, já vos disse que cabe a vós honrado com o Sacerdócio, orar a todo mundo e por mim também, visto ser uma das funções, às quais a vossa vocação vos obriga; visto que a obediência é uma das coisas que nos são mais recomendadas, farei de bom grado aquilo que me ordenares.”

Concluindo estas palavras, ela se voltou para o oriente e elevando os olhos ao céu e estendendo as mãos, começou a rezar, mexendo somente os lábios e sem que se pudesse ouvir sequer uma de suas palavras. Como mais tarde relatou, Zózimo ficou bastante espantado e, sem dizer nada, baixou o olhar contra a terra, depois vendo que ela continuava longamente em oração, levantou os olhos e viu que ela elevava-se um côvado da terra e que orava assim suspensa no ar; aquilo que tinha Deus por testemunho era muito verdadeiro. Então sentiu-se repleto de uma tão extrema apreensão, empapado de suor jogou-se no chão, sem ousar partir e dizia somente consigo: “Senhor, tem piedade de mim.”

Capítulo 5

Vendo Zózimo aquela mulher suspensa no ar, temeu tratar-se de um demônio. Então ela lhe diz qual havia sido o pensamento dele e ele a conjura, em seguida, a contar-lhe toda a história de sua vida.

Como ele estava neste estado, veio-lhe uma tentação, de que talvez fosse algum espírito maligno fingindo rezar. Então, a mulher voltando-se para ele e reanimando-o, disse-lhe: “Porque, meu pai, vossos pensamentos vos levam a escandalizar-vos a propósito de mim, fazendo-vos crer que não sou senão um espírito e que minha oração não é senão fingimento? Não duvideis de que sou uma mulher e uma pobre pecadora; mas tal como sou, recebi o Batismo, e bem distante de ser um espírito não sou senão pó e cinza, senão carne, e não tenho ao menos espírito para conceber as coisas espirituais.” Concluindo estas palavras ela fez o Sinal da Cruz sobre a sua fronte, sobre os seus olhos, sobre os seus lábios e sobre o seu estômago, e acrescentou: “Meu pai, Deus nos livra se quiser do demônio, e de tudo o que vem dele, que de nós tem sem dúvida, muita inveja.”

A estas palavras o ancião prostrou-se a seus pés e disse-lhe chorando: “Conjuro-vos por Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso verdadeiro Mestre, que por nossa salvação dignou-se nascer dc uma Virgem e pelo amor de quem estais revestida desta nudez e fizeste sacrifício de vosso corpo para Lhe serdes agradável, não escondais nada, suplico-vos, ao vosso servo, mas dizei-me quem sois, de onde vinde, quando e por que razão viestes para esta solidão, e de maneira geral, sobre todas as coisas que vos dizem respeito; a fim de que, eu conheça assim a grandeza das obras de Deus, pois que benefício pode trazer um tesouro escondido e uma ciência não declarada, assim como diziam as Escrituras? Dizei-me, então, sem escrúpulos, todas as coisas pelo amor de Deus, pois não será por vaidade mas para satisfazer este pobre pecador ainda que ele seja indigno disso. E tomo como testemunha o mesmo Deus para quem vivcs somente, e com quem conversais continuamente, e não creio ter sido trazido para esta solidão, senão pelo desejo Dele de tornar manifesto, tudo o que se passou convosco, visto que não está em nosso poder resistir às Suas vontades, e que se nosso Senhor Jesus Cristo não tivesse desejado fazer-vos conhecer e fazer saber os combates que empreendestes em Seu serviço, Ele não teria jamais permindo que alguém vos tivesse visto, e na fraqueza em que me encontrava que mal me permitia sair de minha cela, Ele não me teria dado forças para fazer com tanta diligência um tão longo caminho.”

Falando assim e acrescentando várias coisas semelhantes, aquela mulher disse-lhe: “Perdoai-me, meu pai, se morro de vergonha de vos deixar ouvir qual foi a infâmia de minhas ações. Entretanto como vistes que eu estava nua, descobri-las-ei também completamente, para que conheçais a força com que as minhas impurezas encheram a minha alma de confusão e vergonha. E estou longe, como dissestes, de querer contar, por algum sentimento de vaidade as coisas que me concernem; pois de que me poderia glorificar tendo sido um vaso de eleição não de Deus, mas do diabo? E estou certa de que assim que começar a vos fazer ouvir toda a história de minha vida, vós fugireis de mim como de diante da serpente e vossos ouvidos não quererão escutar os inúmeros crimes que cometi. Contudo contá-los-ei com verdade e sem nada disfarçar, após vos ter suplicado não interromper nunca as orações por mim, a fim de que me torne digna da misericórdia de Deus e que eu a receba no dia do julgamento.” O ancião, com estas palavras, derramou muitas lágrimas e ela começou então, a sua narrativa.

Capítulo 6

Santa Maria do Egito começa a contar a Zózimo a história de sua vida e diz-lhe como ela passou dezessete anos inteiros em horríveis crimes; e como foi a Jerusalém para ver a cerimônia da Exaltação da Santa Cruz.

Meu pai, meu país é o Egito. Estando meu pai e minha mãe ainda vivos, parti com 12 anos contra a vontade deles para Alexandria, onde não consigo pensar sem enrubescer que perdi primeiramente a honra e deixei-me levar pelo desejo contínuo e insaciável da volúpia infame e criminosa. Precisaria de muito tempo para dizer tudo em pormenores, mas dir-vos-ei tudo o mais breve que puder e tanto quanto seja necessário, para vos fazer saber, como era o ardor excessivo que me consumia no pecado. Permaneci publicamente durante mais de dezessete anos neste abrasamento funesto, e não foi absolutamente por causa de presentes, que deixei de ser virgem, pois recusava tudo o que me ofereciam; o furor que me agitava e que me levava a um tamanho excesso, fazia-me julgar que haveria muito mais urgência, quando eu não desejava absolutamente outra recompensa pelo pecado, senão o próprio pecado. Mas, não vos espanteis por eu me preocupar tão pouco com o dinheiro, visto que, eu queria viver de esmola ou daquilo que roubava, tanto que, como já vos disse, eu não tinha outra paixão senão mergulhar continuamente na lama das minhas impudências. Esta era a única coisa que me agradava e acreditava que era verdadeiramente viver, o abusar assim incessantemente do corpo que Deus me dera.

Como vivia ao acaso, vi um certo dia de verão um grande número de egípcios e líbios que corriam na direção do mar. Tendo perguntado ao primeiro que encontrei: “Para onde correm eles com tanta pressa!” Ele respondeu-me: “Vão para Jerusalém para a Exaltação da Santa Cruz, que como de costume deve ser celebrada dentro de alguns dias.” “Crês ,” perguntei-lhe, “que eles me aceitariam se eu quisesse ir com eles?” “Isto é simples,” respondeu-me, “se tivesses os meios de pagar a passagem.” “Com certeza,” repliquei, “não tenho com que pagar a passagem, nem como pagar as minhas despesas, mas não deixarei de ir, subirei no navio que eles alugaram e se recusarem a me receber, dar-me-ei eu mesma como dinheiro, e tendo desta forma meu corpo em seu poder, me receberão como pagamento. Ora, o que me fazia desejar ir com eles; perdoai-me meu pai o que ouso dizer; era ter muitos cúmplices para o meu furor.

Disse-vos bastante meu pai, sofrei, suplico-vos, e ficarei por aqui; não me obrigueis a continuar a relatar aquilo que me cobre de tão estranha confusão. Pois Deus sabe que eu não poderia falar disso sem tremer, e parece-me que todas as minhas palavras são como manchas, que sujam a pureza do ar onde ecoam.” Zózimo respondeu-lhe, regando com suas lágrimas a terra: “Em nome de Deus, minha mãe, continuai e não omitais nada de uma tão difícil narrativa.” Ela continuou então:

“Aquele jovem foi-se indo com a resposta que eu lhe havia dado, e eu, jogando fora o fuso que trazia na mão e do qual de tempos em tempos servia-me para viver, corri na direção do mar como os outros, e vi em pé na margem nove ou dez jovens cujos rostos e porte agradaram demasiadamente à minha paixão desregrada. Haviam outros também que já tinham subido ao barco, e jogando-me no meio deles despudoradamente como de costume, disse-lhes: recebei-me convosco nesta viagem, e não serei cruel demais convosco. Ao que acrescentando outras palavras mais livres e piores que estas, fi-los rir a todos. Aquelas pessoas percebendo o meu descaramento, pegaram-me e levaram-me num pequeno barco e então começamos nossa navegação.

Ó servo de Deus, como poderia eu contar-vos o que aconteceu em seguida? Que língua pode proferir e que ouvidos escutar, aquilo que se passou naquele pequeno barco durante o caminho, e de que maneira eu incitava ao pecado, aqueles miseráveis que não queriam cometê-lo? Não há palavras que possam representar a imagem detestável, dos crimes em que eu me mostrava tão sábia, e que fiz, com que aqueles pobres miseráveis cometessem. Contentai-vos portanto, meu pai, com que vos diga que não me espantaria, que o mar pudesse sofrer pelas minhas iniquidades e que a terra se abrisse, para me fazer descer viva ao inferno, eu que fazia caírem tantas almas nas redes da morte. Mas Deus, que não deseja a perda de ninguém e que quer que todos sejam salvos, pedia com certeza que eu fizesse penitência; pois Ele não quer a morte do pecador, mas espera a sua conversão com paciência impar.

Fomos assim para Jerusalém e empreguei todos os dias que aí permaneci antes da festa, em ações tão detestáveis quanto as anteriores, e ainda piores, pois não me contentando com o mal que fazia no mar com aqueles jovens, fiz ainda perderem-se muitos outros, tanto da cidade quanto os de fora, aos quais eu solicitava tomarem parte de minhas impudências.

Capítulo 7

Continuação da narrativa da Santa, contendo a sua conversão milagrosa, acontecida no dia da Festa da Exaltação da Santa Cruz e, como ela foi à Igreja de São João Batista onde comungou.

Quando chegou a festa gloriosa da Exaltação da Cruz de Nosso Senhor, eu prosseguia como antes no desejo de perder as almas dos jovens e, tão logo o dia começou a despontar, vendo que todos corriam para a igreja, corri também como os outros, e fui com eles à praça que ficava diante do Templo. Na hora da cerimônia, esforçava-me para avançar. Enfim, com extrema dificuldade cheguei à porta da igreja, mas quando quis entrar como faziam todos os outros sem nenhuma dificuldade, era impedida por um poder divino que me repelia para fora, e assim miserável que estava, encontrei-me sozinha naquela praça diante da igreja. Imaginando que isso provinha de minha fraqueza, lancei-me de novo entre aqueles que acabavam de chegar, e esforçando-me com todo o meu poder para entrar com eles, trabalhava sempre inutilmente.

Tão logo eu tocava a soleira da porta, pela qual todos os outros entravam sem dificuldade, eu era a única rejeitada; e como se houvesse uma multidão de soldados que tivessem ordem de fechar-me a entrada da igreja, eu sentia de repente um poder escondido que fazia o mesmo efeito, e de novo encontrava-me na praça como antes.

Tendo acontecido assim três ou quatro vezes, e vendo que todos os meus esforços eram inúteis, desesperava-me para poder entrar, e não tendo mais quase força para sustentar-me, tanto que meu corpo havia sido imprensado, retirei-me para um canto daquela praça, onde comecei enfim a considerar, qual poderia ser a causa, que me impedia de ver aquele santo madeiro, sobre o qual um Deus morreu para dar a vida aos homens; e um pensamento salutar tendo-me sacudido o espírito e aberto os olhos de minha alma, julguei que a abominação de minha vida, era o que me fechava a entrada do templo. Então, inundada de lágrimas e bastante perturbada, dei socos no estômago, dei grandes suspiros do mais profundo do coração, e misturando meus gritos com soluços, percebi acima de mim uma imagem da Santa Mãe de Deus.

Dirigindo-me logo a ela e olhando-a fixamente eu disse-lhe: “Santa Virgem, que concebeste segundo a carne um Deus todo poderoso, sei que não parece que, estando eu imunda como estou por causa de tantos crimes, eu ousaria adorar a vossa imagem e lançar os olhos sobre vós, que sois uma Virgem muito pura e cuja alma assim como o corpo estão isentos de toda mancha; mas que ao contrário, é bastante justo que vossa incomparável pureza tenha horror de uma pessoa tão abominável quanto eu. Entretanto, já que aprendi que este Deus a quem foste digna de carregar em vosso seio, fez-Se homem para chamar os pecadores à penitência, suplico-vos que me assistais no abandono de socorro em que estou. Recebei a confissão que vos faço de meus enormes pecados, e permiti-me entrar na igreja, afim de que não seja tão infeliz, por ser privada da visão do madeiro precioso onde Deus-homem, que concebeste permanecendo virgem, foi pregado e derramou Seu sangue pela minha salvação. Ordenai, Rainha do Céu, ainda que eu seja indigna, que a porta me seja aberta para adorar a Divina Cruz, e dou-vos por caução o mesmo Jesus Cristo que deste ao mundo; que não me aconteça jamais no futuro cair nas detestáveis impurezas com a qual sujei meu corpo; corpo este, que deveria ter cuidado para conservá-lo casto, e tão logo tenha visto o santo madeiro onde vosso filho quis sofrer por nós, renunciarei ao mundo e a todas as coisas que vem dele, e partirei na mesma hora para ir ao lugar que vos aprouver levar-me, ó Virgem Santa, como minha caução e meu guia.”

Tendo concluído estas palavras e o ardor da fé, que já começava a sentir no coração dando-me algum consolo, e fazendo-me ter confiança na bondade tão terna e tão caridosa da Mãe de Deus, parti do lugar onde havia feito a minha oração, e misturando-me àqueles que iam à igreja, não encontrei mais nada que me repelisse nem que impedisse a minha entrada. Então, fui tomada por um tremor como transportada fora de mim; todas as coisas espantavam-me, e os obstáculos que antes encontrei haviam cessados, e aquele poder secreto que me repelia, parecia agora facilitar-me a entrada; cheguei sem nenhuma dificuldade até o coração da igreja, onde recebi a graça de adorar o precioso madeiro da Cruz gloriosa, que dá a vida aos homens.

Conhecendo assim, o incompreensível excesso da misericórdia de Deus, e como Ele está sempre pronto para receber os pecadores na penitência, joguei-me na terra e após haver beijado o santo chão da igreja, sai e corri para Aquela que havia me respondido. Tendo chegado ao lugar onde minha promessa estava escrita, ajoelhei-me diante da imagem da Santa Virgem e dirigi-Lhe a minha oração desta maneira: “Muito misericordiosa Mãe de Deus, fizestes-me ver os efeitos da vossa incomparável bondade, visto que não rejeitastes minha humilde súplica ainda que indigna de ser ouvida. Vi a glória que os maus são justamente privados de ver, a glória de Deus todo poderoso, que por vossa intercessão recebe a penitência dos pecadores. Mas, miserável que sou, que necessidade há de lembrar-me e de falar mais sobre meus crimes? É tempo, Virgem Sagrada, de realizar com vossa assistência aquilo que vos prometi. Envia-me então, onde vos aprouver, sede meu guia no caminho da minha salvação; instrui-me na verdade; e mostrai-me a via que conduz à penitência.” Falando assim, ouvi uma voz como de alguém que me chamava de muito longe: “Se passares o Jordão, encontrarás um feliz repouso.” Escutando estas palavras e acreditando que eram ditas para mim, gritei chorando e olhando a imagem da Virgem: “Rainha do Universo, por quem a salvação chegou aos homens, não me abandoneis, suplico-vos.” Depois destas palavras saí daquele lugar e fui-me com grande pressa. Alguém que me viu, deu-me três peças de dinheiro e disse-me: “Recebei isto.” Tomando-as comprei três pães para a viagem que ia empreender com a graça de Deus, e tendo pedido ao padeiro o caminho do Jordão, soube por ele, por qual porta da cidade deveria sair, e fui-me então correndo e chorando.

Empreguei assim o resto do dia fazendo sem cessar, reflexões sobre mim mesma. Ora, era por volta da terceira hora do dia, quando tive a felicidade de ver a Santa e Preciosa Cruz de Nosso Salvador; e o sol estando prestes a se pôr, percebi a Igreja de São João Batista, que assentava-se ao longo do Jordão. Fui logo para o rio e lavei as mãos e o rosto com aquela água santa, e voltei para a sua igreja onde recebi o precioso Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que dá a vida às almas. Depois, tendo comido a metade de um dos meus pães e bebido a água do rio, descansei a noite na terra.

Capítulo 8

Continuação da narrativa da Santa, contendo a maneira pela qual ela cruzou o Jordão para ir ao deserto, onde permaneceu 47 anos. E de que modo viveu durante este tempo.

Tendo chegado a alvorada, passei para o outro lado do Jordão e lá pedia ainda à Santa Virgem como meu guia, que me conduzisse ao lugar que lhe agradasse; e cheguei assim nesta solidão onde desde aquele tempo até hoje afasto-me cada vez mais, o quanto posso, evitando o encontro com quem quer que seja, e esperando a vinda do meu Deus, que salva os pequenos e os grandes que a Ele se convertem.”

Então Zózimo lhe disse: “Minha mãe, há quantos anos estais nesta solidão!” Ela respondeu: “Segundo os cálculos que fiz, há 47 anos saí da Cidade Santa.” “E o que encontrastes desde então e o que podeis encontrar ainda todos os dias,” retorquiu Zózimo, “com que vos possais alimentar?” Ela replicou: “Quando cruzei o Jordão, tinha ainda dois pães e meio, que logo ressecaram e ficaram duros como pedras, e durante alguns anos comia um pouco de cada vez”: Zózimo lhe disse: “Pudestes passar assim tanto tempo sem sofrer muitas penas e sentir muitas perturbações em vosso espírito, por tão grande mudança?”

“Fazeis uma pergunta,” disse ela, “à qual não saberia responder, sem tremer pela lembrança de tantos perigos, que pela minha maldade fizeram agitar demais a minha alma; pois temo que relatando-os, eles me inquietem ainda.” “Dize-me, eu vos suplico, minha mãe”, respondeu-lhe Zózimo, “sem esquecer coisa alguma, pois tendo Deus querido que vós me conhecesseis, não deveis esconder-me nada.”

Então ela retomou a palavra: “É verdade, meu pai, que passei dezessete anos combatendo sempre contra desejos violentos, importunos e despropositados quando começava a comer; pois desejava carne, lamentava os peixes do Egito, e desejava muito vinho, do qual gostava tanto e que no mundo bebia em excesso ao ponto de perder a razão; no lugar onde me encontrava, então, sem haver uma gota d’água somente, o que acendia em minhas veias uma sede tão ardente, que me reduzia à extremidade. Também morria de vontade de cantar aquelas canções dissolutas, que são canções do diabo, que havia aprendido pela vida, e que voltando à memória enchiam meu espírito de perturbação; mas, de repente, começando a chorar e batendo-me no estômago, representava-me a promessa tão solene que havia feito, ao vir para esta solidão e em espírito punha-me diante da imagem da Santa Mãe de Deus que me tinha sob sua proteção, suplicava-lhe em lágrimas que afastasse de mim estes pensamentos que tanto afligiam a minha alma. Muito cheia de dor, depois de ter chorado extremamente e mortificado-me com golpes, via depois uma luz e meu espírito voltava à calma.”

“Perdoai-me, meu pai, se não vos posso contar em detalhes todos os pensamentos, que me agitavam ainda por levarem-me no desejo do pecado. Sentia-me queimar com um ardor infeliz, que me arrastava, como à força, no desejo de cometê-lo; mas quando estas tentações me perseguiam, prostrava-me contra a terra, regava-a com minhas lágrimas e acreditando ver verdadeiramente diante de meus olhos, Aquela que havia respondido por mim, parecia-me que ela me reprovava com ameaças o excesso de fúria que me agitava e que, cheia de cólera, me fazia ver quais seriam os castigos assustadores pela minha horrível infidelidade; e não me levantava nunca, senão depois que aquela luz tão doce e tão favorável me houvesse iluminado como antes e banido estas perturbações de meu espírito. Era assim que eu elevava incessantemente o meu coração para aquela Santa Virgem, que carregava em Seu seio o Autor da castidade, e que eu havia tomado como minha caução para com Deus, suplicando a Ela que me assistisse naquela solidão e em minha penitência; ao que Ela jamais faltou.”

“Eis aí meu pai, como passei estes dezessete anos em um combate perpétuo, contra tantas tentações e perigos. E, desde então, esta feliz Mãe de Deus que é todo o meu recurso e todo o meu auxílio nunca me abandonou, e serviu-me de guia em geral em todas as coisas.”

Então Zózimo disse-lhe: “De que vos alimentastes e vestistes?” Ela respondeu: “Aqueles pães como vos disse duraram dezessete anos; e depois disto vivi das ervas que encontrei no deserto. Quanto às roupas, as que tinha quando cruzei o Jordão tendo-se estragado completamente, sofri muitas penas; o ardor excessivo do verão queimando-me e os frios insuportáveis do inverno reduzindo-me a um tal estado, que traspassada e tremendo, caía frequentemente no chão e permanecia como morta sem poder me mexer, combatendo assim, contra tantas necessidades e tentações diversas. Mas, no meio destas penas, o poder de Deus, de mil diferentes maneiras, conservou até hoje o meu corpo e a minha alma; e repassando em meu espírito de que males o Senhor me livrou, alimento-me de uma carne que não me falta jamais, e estou saciada pela esperança que tenho de minha salvação. A palavra de Deus que contém todas as coisas, serve-me também de alimento e de abrigo. Pois o homem não vive do pão somente. E quando àqueles, que são despojados dos afetos do pecado, faltam vestes, encontram rochedos que os cubram.”

Capítulo 9

Conclusão do discurso da Santa e de Zózimo, a quem ela obriga a vir trazer-lhe em um ano, a Santa Eucaristia; e depois separar-se dele.

Zózimo, vendo que ela citava passagens das Santas Escrituras, tiradas dos livros de Moisés, de Jó, e dos Salmos, disse-lhe: “Minha mãe, aprendestes os Salmos e lestes outros livros das Sagradas Escrituras?” Ela respondeu sorrindo: “Asseguro-vos, que desde que passei o Jordão para vir a este deserto, não vi outro homem do mundo senão a vós, nem encontrei nenhuma besta selvagem, nem nenhum outro animal. Também não aprendi, nem nunca escutei alguém que cantasse os Salmos ou os lesse; mas a palavra de Deus que é viva e eficaz, penetrando fundo no espírito humano, o instrui e ensina-lhe de maneira bastante particular. Agora, tendo acabado de prestar-vos conta daquilo que me concerne, conjuro-vos pela Encarnação do Verbo Eterno, que oreis por mim, pois sabeis que tenho cometido muitos crimes.”

A estas palavras, o ancião pôs-se de joelhos e prostrou-se contra a terra dizendo em voz alta: “Bendito seja o Senhor, que sozinho, faz maravilhas inumeráveis, tão grandes, tão admiráveis e tão gloriosas, que enchem o espírito de espanto. Bendito sede vós, meu Deus, que me fizestes ver hoje quais são os favores, com os quais cumularás aqueles que vos temem. Ó Senhor, é bem verdade que não abandonais nunca as pessoas que vos procuram.” A Santa tomando-o pela mão não lhe permitiu continuar por mais tempo contra a terra, e disse, levantando-o: “Conjuro-vos por Jesus Cristo nosso Salvador não contar a quem quer que seja, as coisas que vos disse, até que Deus me tenha libertado da prisão de meu corpo; conservai sob o selo do segredo, e com a graça de Deus rever-me-eis ainda no ano que vem, na mesma época em que estamos. Peço-vos também em Seu nome para faltar com aquilo que vos pedi, que na próxima Quaresma não passeis o Jordão segundo o costume do mosteiro onde estais.” Zózimo assombrado de ver que ela sabia deste costume e que ela falava disso como uma pessoa informada a este respeito, clamava sem cessar: “Glória seja dada a Deus, que concede àqueles que o amam, muito mais do que eles Lhe pediram.”

Ela continuou assim: “Meu pai, não saiais, suplico-vos, durante este tempo do mosteiro, de onde, quando quiserdes não estará em vosso poder sair, e na noite da Santíssima Ceia de Nosso Senhor, trazei-me num vaso sagrado e digno de tão grande mistério, o divino corpo e sangue vivificante de nosso Salvador e esperai-me do lado do Jordão, que encontra os países habitados pelas gentes do mundo, a fim de que quando eu chegar, receba estes ricos presentes que dão a vida aos fiéis. Pois, desde que comunguei na igreja do bem-aventurado Precursor antes de passar o Jordão, nunca mais recebi este Santíssimo alimento; o que me faz conjurar-vos com tanta insistência a que não recuseis meu pedido, mas trazei-me, peço-vos, o Divino Sacramento que é a vida de nossas almas; à mesma hora que Nosso Senhor criando-Os com Seus discípulos, tornou-os partícipes. Dizei a João, abade do mosteiro onde permaneceis, que vele por si mesmo e por seu rebanho, porque passam-se coisas lá, que precisam de correção. Entretanto não desejo que lhe deis este aviso presentemente, mas quando Deus vô-lo ordenar.”

Tendo acabado de proferir estas palavras e pedido a bênção do santo ancião, foi-se rapidamente para o fundo do deserto.

Capítulo 10

Tendo passado um ano, Zózimo levou a Santa Eucarístia à Santa Maria do Egito, e ela comungou. Depois, ela pediu-lhe para voltar no ano seguinte ao mesmo lugar, onde ela pela primeira vez tinha falado com ele.

Zózimo jogando-se no chão beijou o rastro dos passos da Santa, e depois voltou glorificando a Deus e prestando-Lhe infinitas ações de graça. Passando pelo mesmo caminho que havia feito no deserto, ele voltou ao mosteiro no mesmo tempo que os outros, e permaneceu todo o ano seguinte no silêncio, não ousando falar daquilo que havia visto; mas orava a Deus que lhe permitisse ver ainda aquela pessoa, por quem tinha tanto respeito e tanta admiração, e o tempo custava tanto a passar, que ele suspirava pensando no quanto este ano era longo.

Quando chegou a época do Santo Jejum e os outros Solitários depois da oração costumeira, saíram no primeiro Domingo da Quaresma cantando os Salmos, ele foi impossibilitado de ir, por uma febre que o obrigou a permanecer no mosteiro. Então lembrou-se do que a Santa lhe havia dito, que mesmo que quisesse, ele não poderia sair de lá, e alguns dias mais tarde foi aliviado de sua indisposição. Voltando os Solitários, ele realizou o que lhe havia sido ordenado, colocando em um pequeno cálice o Corpo e Precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e levou também dentro de uma cesta de vime alguns figos, damascos e lentilhas embebidos em água. Depois chegando a noite, sentou-se à beira do Jordão para esperar a Santa, não se deixando adormecer, pois que ela tardava a chegar; mas olhava atentamente para o lado do deserto à espera do que desejava tanto ver, e dizia: “Não teria ela vindo, e não tendo-me encontrado, teria retornado, então?” Acompanhava suas palavras com lágrimas, e erguendo os olhos para o céu com ardor, fazia esta oração: “Meu Deus, não me recuseis ver ainda aquela que já me concedestes o favor de vê-la; mas temo, que os meus pecados me tornem indigno de receber esta graça.”

Assim orando e chorando, ocorreu-lhe um outro pensamento, e dizia consigo: “Mas se ela vier, o que fará? Como passará o Jordão para vir a mim pobre pecador, já que não há aqui nenhum barco? Ai! Infeliz que sou, quem me terá feito perder a felicidade, que eu tinha tanto motivo para esperar?” Estando o ancião assim, a Santa chegou e ficou do outro lado do rio. Zózimo, ao vê-La, levantou-se, e transportado pela alegria dava graças a Deus. Mas como ele estava sempre em extrema inquietação de como ela poderia passar o Jordão, ele a viu fazer o Sinal da Cruz sobre o rio (pois a lua estava então cheia e seus raios tornavam a noite extremamente clara) e em seguida caminhar sobre as águas como se estivesse em terra firme, o que o espantou de tal maneira que quis ajoelhar-se, mas ela impediu-o gritando: “Que fazeis, meu pai? Não vos lembrais de que sois padre de Deus e que levais os Divinos Mistérios?” Ele obedeceu a estas palavras, e ela, após ter passado o rio, disse-lhe: “Meu pai, dai-me a vossa bênção.” Ao que ele respondeu ainda sob a impressão extrema que lhe havia causado tamanho milagre: “Em verdade Deus é bastante fiel, quando promete tornar semelhante a Ele, aqueles que se purificam com tanto zelo pelo Seu amor. Meu Deus e meu Mestre, sede glorificado para sempre, por aquilo que me fizestes ver na pessoa de vossa serva, o quanto estou longe da verdadeira perfeição.” Ela pediu-lhe em seguida que recitasse o Símbolo e começasse a Oração Dominical. Quando terminou, segundo o costume, a Santa deu ao ancião o beijo da paz e depois recebendo o Santíssimo Sacramento estendeu as mãos para o Céu, e misturando seus suspiros às suas lágrimas, proferiu em voz alta: “Senhor, permiti agora à vossa serva, segundo a vossa Divina Palavra, partir em paz, pois meus olhos viram o meu Salvador,” e voltando-se para o ancião disse-lhe: “Perdoai-me, meu pai, o mal que vos causei, e concedei-me ainda este outro pedido: voltai agora sob a condução de Deus para vosso mosteiro, e quando o tempo estiver terminado, ide à torrente, onde vos falei pela primeira vez; mas, em nome de Deus, não falteis, e ver-me-eis então da forma que Ele quiser.” O ancião respondeu-lhe: “Aprouve a Deus que estivesse em meu poder seguir-vos e gozar da felicidade da vossa presença. Mas, suplico-vos, minha mãe, não recuseis um pequeno pedido que tenho para vos fazer: que queirais comer alguma coisa, daquilo que vos trouxe.” Então ela tomou somente 3 grãos de lentilha, os colocou na boca dizendo, que a graça do Espírito Santo era suficiente para conservar a alma na pureza, e acrescentou dirigindo-se ao ancião: “Rogo-vos, meu pai, em nome de Deus, orai por mim e não esqueçais nunca as minhas misérias.” Zózimo beijando seus pés santos, conjurou-a a rezar pela Igreja, pelo Império e por ele. E chorando e suspirando, deixou-a partir, pois não ousava retê-la mais e mesmo que quisesse não teria conseguido.

Capítulo 11

Zózimo indo ao lugar onde a Santa lhe havia indicado, encontra-a morta e a enterra. Conclusão de todo este discurso

A Santa fez ainda o Sinal da Cruz sobre o Jordão e depois caminhando sobre as águas, atravessou-o da mesma forma que havia feito ao vir, e Zózimo voltou cheio de alegria e espanto, e com pena, por não ter-lhe perguntado seu nome. Mas esperava consertar este erro no ano seguinte. E quando este ano foi concluído e os costumes ordinários do mosteiro tendo sido observados, ele voltou ao deserto que está para além do Jordão, e caminhava com muita pressa pelo desejo de gozar da felicidade de rever aquela gloriosa Santa. Mas, avançando naquela imensa solidão, e olhando e procurando de todos os lados encontrar alguma marca, que o conduzisse ao lugar onde desejava com tanto ardor chegar; como fazem os caçadores para encontrar os animais que querem caçar; enfim não vendo nenhum vestígio, encharcou de lágrimas o seu rosto e disse erguendo os olhos para o céu: “Muito humildemente eu vos suplico, meu Deus, ver este Anjo em corpo mortal, ao qual o mundo inteiro não é digno de ser comparado.”

Tendo terminado esta oração, chegou à torrente; e como todo o alto deste lugar, estava iluminado pelos raios do sol, ele percebeu na terra o corpo morto da Santa, cujo rosto estava voltado para o oriente e as mãos cruzadas. Correu logo para lá, lavou seus pés com suas lágrimas sem ousar tocar nenhuma parte de seu corpo. Tendo em seguida cantado os Salmos e recitado as orações costumeiras em ocasiões semelhantes, disse consigo: “É possível que a Santa não se agradasse daquilo que faço.” Como estava nestes pensamentos, viu estas palavras escritas na terra: “Meu pai Zózimo, enterrai o corpo da miserável Maria, devolvei a terra o que é da terra, pó ao pó. Em nome de Deus, orai por mim, neste décimo dia de Abril, na véspera da Paixão de Jesus Cristo Nosso Salvador e após ter sido tornada partícipe de Seu Santíssimo e Divino Corpo.”

Tendo lido estas palavras, o ancião pensava consigo quem poderia tê-las escrito, visto que a Santa havia-lhe dito que ela não sabia escrever, e tivera uma extrema alegria por desta maneira ter sabido o seu nome. Ele soube desta forma, que no instante em que ela recebera o Santo Sacramento à beira do Jordão, viera para aquele lugar e passara ao Céu; e que assim ela havia feito em um momento, o mesmo caminho em que ela havia empregado 20 dias inteiros caminhando sem parar. Este bom ancião tendo prestado infinitas ações de graças a Deus e encharcado com seu pranto o corpo da Santa, pôs-se a dizer: “É tempo, Zózimo, de executar o que te foi ordenado. Mas infelizmente como farei, pois não tenho como cavar a terra, nem pá nem coisa alguma.” Enquanto falava ao acaso, viu um pequeno pedaço de madeira e tomou-o, e começou a tentar abrir a terra; mas era tão dura, e ele tão extremamente fraco por conta de seus jejuns e com o caminho tão longo, que foi-lhe de todo impossível. Então, encharcado de suor do esforço que havia feito inutilmente, deu profundos suspiros, e levantando os olhos percebeu junto ao corpo da Santa um enorme leão, que lhe lambia os pés, o que o encheu primeiramente de um maravilhoso pavor e principalmente porque a Santa lhe havia dito, não ter jamais visto nenhum animal selvagem naquele deserto. Mas assegurou-se pelo Sinal da Cruz e pela fé, que aquele santo corpo poderia protegê-lo de todo o perigo. E o Leão começou a fazer-lhe carícias como para saudá-lo. Então Zózimo disse-lhe: “Rei dos animais, já que Deus enviou-te aqui, a fim de que o corpo de Sua serva não permaneça insepulto, cumpre o teu encargo, dando-me os meios de colocá-lo na terra; pois além de minha velhice que me tira a força de cavar, não há nada aqui que seja apropriado, e eu não poderia depois fazer um tão longo caminho como o que já fiz; mas visto que recebeste ordens de Deus para isso, usa tuas unhas nesta obra.”

Obedecendo ao ancião, o leão cavou de súbito uma fossa suficiente, e Zózimo depois de regar com suas lágrimas os pés da Santa, e com muitas orações, implorando sua assistência para todo o mundo e particularmente por ele; cobriu o corpo de terra, deixando-o como o havia encontrado; coberto somente uma parte, por aquele velho casaco rasgado, que havia jogado para a Santa dois anos antes. Enquanto isso, o leão permaneceu firme, e quando o oficio de piedade acabou, retiraram-se os dois ao mesmo tempo. Este soberbo animal e uma doce ovelha foram-se para o fundo do deserto, e Zózimo voltou bendizendo a Deus e cantando um Cântico de louvor a Jesus Cristo Nosso Salvador.

Quando voltou ao mosteiro, contou-lhes desde o começo o que lhe havia acontecido, sem nada esconder-lhes do que vira ou escutara, para que aprendendo os efeitos milagrosos da Onipotência de Deus, fossem cheios de admiração e que assim celebrassem com temor e com amor; o dia da bem aventurada passagem daquela gloriosa Santa, por cuja opinião o abade João percebeu, que alguns de meus irmãos precisavam de correção e converteu-os pela assistência da misericórdia de Deus. Quanto a Zózimo, depois de ter vivido até a idade de 100 anos naquele mosteiro, foi-se em paz gozar da Presença de Deus pela Graça de Jesus Cristo, ao qual com Seu Pai e o adorável Espírito Santo vivificador das almas, a honra, o poder e a glória pertencem pelos séculos dos séculos. Amém.

Folheto Missionário número PA19b

Copyright © 2001Holy Trinity Orthodox Mission

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Editor: Bishop Alexander (Mileant)

 





A escada para o céu – Amor

28 08 2015

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“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque a caridade vem de Deus. Todo o que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é caridade” (1Jo 4:7-8).

Nos níveis mais baixos de formas de vida — no mundo dos micróbios, onde impera uma luta inclemente pela existência suprema — tudo parece lógico e compreensível. Em contraste com a auto-abnegação e o amor, não são nada, mas estranhas e misteriosas contradições para o instinto cego da auto-preservação.

Paradoxalmente, no estado mais elevado de desenvolvimento de um animal na escala da existência, são observados os mais freqüentes exemplos de auto-sacrifício ou manifestações de suaves e altruísticos sentimentos. Muitas vezes isto é expressado através de ajuda mútua entre animais da mesma espécie, como por exemplo: lobos e leões vivem em famílias e caçam em bandos. Machos e fêmeas distribuem entre si os cuidados pelos filhotes e às vezes manifestam mutuamente sentimentos de muita ternura.

Se nos níveis mais baixos de vida de alguns animais eles demonstram crueldade entre si como por exemplo, um crocodilo comendo seus filhotes ou um peixe devorando suas ovas durante a fome; nos níveis mais elevados, o amor materno alcança total abnegação. Aqui com certeza pode ser dito, que tal comportamento altruístico é essencial para a continuação das espécies e portanto pode também ser racionalizado dentro dos parâmetros das leis da evolução; porém, no nível mais elevado da existência, os humanos podem atingir altitudes nobres, tais como generosidade e abnegação-própria, que são impossíveis de se esclarecer pelos princípios biológicos-evolutivos.

Certamente, os seres humanos são capazes de se sacrificarem não somente para o bem de seus filhos, mas também para os estranhos, como por exemplo: distribuir seus próprios recursos para o bem dos famintos, cuidar dos órfãos, tratar dos doentes ou cuidar dos enfermos individualmente acometidos por doenças contagiosas. Com essas atividades altruísticas essas pessoas não obtém nenhum ganho pessoal, mas colocam-se em uma posição, onde estão ameaçados não só o seu bem-estar mas também as suas vidas. Além do mais, os humanos são capazes de amarem os seus inimigos — pessoas que em princípio são perigosas para eles; isto vai totalmente contrário às leis da natureza e da própria-preservação.

Uma observação mais profunda dos mistérios da existência, revela que a ascensão na escala da vida dos micróbios até dos animais mais complexos e finalmente dos seres humanos, vai não só pela linha do aperfeiçoamento físico e crescimento do intelecto, mas pela “espiritualidade” e altruísmo.

O aspecto mais marcante disto, é que o processo de perfeição desses atributos não é limitado ao nosso mundo físico, mas passa para a esfera dos anjos e finalmente termina no Ser Supremo e Criador de todas as coisas, Aquele, O qual nós denominamos Deus!

De fato, quanto maior é o desenvolvimento do ser, tanto maior é a sua capacidade para amar. Desta maneira fica claro que, se o princípio de auto-preservação decorre de cegas leis físicas, então a maravilhosa capacidade de amar é essencialmente um atributo não físico, o qual nós conseguimos à medida que nos aproximamos Dele, que é Perfeição e Amor inexplicável. “Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é caridade” (1Jo 4:8).

Conseqüentemente, o verdadeiro progresso consiste não somente no desenvolvimento do intelecto e da espiritualidade, porém mais especificamente no aperfeiçoamento de si mesmo a um amor não egoísta.

Neste contexto o maior exemplo pode ser visto em Nosso Senhor Jesus Cristo, pois, sendo o Filho de Deus e vivendo na Sua inalcançavel glória, Ele deixou Seu mundo maravilhoso e fez parte do nosso “vale de lágrimas,” dividindo conosco nossos fardos e aflições. Ele sofreu, para que nós fôssemos libertados do sofrimento. Ele morreu, para que nós pudéssemos ter a vida.

“Mas Deus manifesta a Sua caridade para conosco, porque, quando ainda éramos pecadores, no tempo oportuno morreu Cristo por nós… Porque se, sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua vida” (Rom 5:8-10).

Assim a nossa capacidade de amar não pode ser deduzida das leis físicas. Amor é uma característica do nosso Criador, o Qual implantou-o em nós junto com a Sua imagem e semelhança. Deus dotou os animais até um certo grau com a capacidade de amar, porque Ele predestinou o homem a ser o representante dos dois mundos (físico e espiritual) e isto fez a passagem da vida inferior à superior, tranqüila e consecutiva. Dando-nos esta maior capacidade de amar, Deus elevou-nos acima do resto da criação e uniu-nos ao mundo espiritual.

Entretanto, o movimento na escala para o aperfeiçoamento moral pode ser somente ascendente em direção a Deus, porém, quando esse movimento vai em sentido descendente, em direção contrária a Deus, há o desaparecimento das qualidades espirituais e por fim dos sentimentos nobres. Conseqüentemente, é possível ao homem descer ao nível mais baixo dos animais e insetos, onde impera uma impiedosa luta pela sobrevivência, quando ele possui um desinteressado amor cristão. Mas este não é o limite mais inferior da escala; ainda mais abaixo pode ser encontrado o desenvolvimento antinatural de hostilidade e ódio. Uma pessoa quando se distancia dos caminhos de Deus submerge no abismo da maldade demoníaca — o abismo do desejo estúpido e insensato de destruir e matar.

Se o sentimento de amor aquece, constrói e traz a vida; o ódio tudo destrói, invalida e prejudica. O aspecto mais assustador, é que a maioria das pessoas assemelham-se aos demônios em seus comportamentos, a maioria delas começam na experiência do prazer sádico em suas ações, provocando sofrimento às outras. Ao mesmo tempo, matando os outros não apresenta nenhum benefício direto, como por exemplo no mundo dos micróbios onde um come o outro por causa da sobrevivência. Aqui, o objetivo, é o processo atual de escárnio e destruição. Isto é um abismo satânico assustador, um buraco negro, do qual é impossível livrar-se.

É por isso que Cristo nos chama a lutarmos com todas as nossas forças, contra as nossas más tendências e a nos esforçarmos a amar a todos, inclusive aos nossos inimigos. Apesar do nosso bom senso e das razões práticas nos indicarem que devemos nos defender do inimigo; para o nosso bem espiritual é mais correto respondermos ao ódio, com amor. Nós precisamos aprender como o sacrifício temporário nos traz benefícios em prol das recompensas eternas. Deixemos que as pessoas nos olhem como seres estranhos, a vida futura revelará quem era realmente sensato. Deus sabe como é difícil ir contra o óbvio e superar os nossos instintos comuns para com nossos inimigos, por isso Ele nos dá assistência orientando-nos a orar por eles.

A oração possui uma enorme força espiritual. Em primeiro lugar ela nos ajuda a vencer os maus sentimentos que nos levam ao abismo do ódio. Em segundo lugar, orações pelo inimigo podem ajudá-lo a perceber os seus erros e a levá-lo a retomar o caminho verdadeiro. Desta maneira, salvando a ele e a si próprio, nós podemos participar da grande obra da salvação da humanidade, pela qual Nosso Senhor Jesus Cristo veio a Terra.

Conseqüentemente, cada vez que nós sacrificarmos um benefício e uma satisfação própria, a qual manifesta amor para com o próximo, nós subiremos um degrau mais próximo a Deus.

As pessoas valorizam o sucesso no esporte, nas ciências e nas artes, entretanto elas progredindo na capacidade de amar terão a mais elevada e autêntica forma da perfeição.

Portanto, vamos pedir a Deus a nos ensinar a amar, especialmente a Ele — Nosso Criador e Salvador.

A natureza mística do amor.

O que é amor? Como podemos definir este sentimento tão diverso em seus elementos e intensidade? Por exemplo, quando nós dizemos: “Eu amo café com leite, quente,” ou “Eu amo meus filhos,” nós expressamos sentimentos muito diferentes. No primeiro caso falamos da nossa preferência por algo que nos dá prazer; no segundo, falamos do nosso apego paternal às pessoas que nos são queridas.

Enquanto o nosso amor a Deus provem de nossos sentimentos de gratidão e veneração para com Ele, o nosso amor a um infeliz, a um órfão por exemplo, origina-se de nossas emoções de piedade e compaixão. O amor entre marido e mulher emerge de sentimentos totalmente distintos que são fundamentados biologicamente. O amor à família, ao seu povo, ou a sua pátria, também contem formas diferentes deste bom sentimento. É verdade que uma forma de amar não exclue a outra. Pode-se amar alguém pela aparência agradável, mas também pelas qualidades morais e ao mesmo tempo sentir piedade deste alguém.

O amor quase sempre vem imperceptivelmente como se fosse por si só. É fácil amar alguém que nos é agradável ou nos faz algum bem. Mas às vezes o amor exige algum esforço interior — por exemplo, quando temos que amar alguém que nos é desagradável ou que nos fez algum mal. Se a palavra “amor” traduz sentimentos tão diversos — deveríamos talvez chamá-la de diversas maneiras. Existe para isto em grego três palavras: “eros” que designa atração física, carnal; “agape” que significa o amor sublime, espiritual e a palavra “filia” que se traduz por sentimento de amizade. A lingua grega não permite confundir estes termos.

No entanto, não podemos negar, que embora as formas de amar sejam diferentes, elas tem algo que as une. Este algo comum é o sentimento agradável, luminoso e de felicidade que o amor concede a quem ama e ao amado. Leibnitz definiu o amor como: “Um sentimento de alegria, que procede da felicidade do próximo.” Na verdade, a natureza do amor é indefinível: ele parece ser um visitante daquele mundo ideal e perfeito, ao qual a nossa alma é atraída instintivamente, mas o que na sua plenitude e perfeição é ainda inacessível para nós.

Outra característica notável do amor é que ele parece formar uma ponte invisível entre os que se amam, tanto que os sentimentos e desejos parecem se transmitir de forma espontânea entre eles. Quem é que não conhece casos em sua vida, quando a alegria ou a tristeza da pessoa amada eram por si, recebidas como se fossem suas?

O Livro Histórico da Biblia 1Samuel ilustra essa natureza “unificante” do amor com o exemplo de Jônatas e Davi. Jônatas sendo filho de rei tinha todas as riquezas e luxos da vida, porém nada o confortava quando seu amigo Davi estava em perigo e para ajudá-lo ele era capaz dos maiores sacrifícios:

“E Jônatas fez a Davi este novo juramento, pelo amor que lhe tinha; porque o amava como a sua própria alma” (1Sam 20:17).

O amor tem ainda a força de atração e força criativa. Mais claramente observamos isto na atração mútua entre dois apaixonados. A Bíblia nos dá exemplos freqüentes de amor entre noivos, como semelhante ao amor entre Deus e pessoas justas. Todo o Livro Cântico dos Cânticos (supostamente escrito pelo rei Salomão) é dedicado ao tema do amor:

“Põe-me como selo sobre teu coração, como um selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte; o zelo do amor é tenaz como o inferno; as suas chamas de fogo, uma chama do Senhor. As muitas águas não puderam extinguir o amor, nem os rios terão força para o submergir. Ainda que um homem dê todas as riquezas de sua casa pelo amor, ele as desprezará como um nada” (Cânt 8:6-7).

Para resgatar Raquel, Jacó trabalhou para seu pai Labão durante 14 longos anos e fez isso com a maior alegria, porque a amava muito (Cf. Gên 29:20-30). O amor de Sansão à Dalila é um exemplo deste envolvente sentimento (Cf. Jz 16).

Em geral o amor é um sentimento excelente, até no seu nível imperfeito. Os primeiros indícios de amor podem ser observados no reino das criaturas irracionais. O amor natural ou instintivo se baseia na reciprocidade e se alimenta de gestos amistosos, favores, ações de auxílio mútuo e de prazer. Ele aparece em forma de amor familiar, parentesco, tribal, amizade e de comunidade. Ele reúne as pessoas e une-as em sociedade.

Se o próprio Deus é amor, então obviamente Seu Reino no Céu é impregnado de amor e respira amor. Este amor, como os raios do sol, enche tudo de harmonia e alegria.

Infelizmente o nosso mundo inferior ainda está muito afastado dessa perfeição, em muitos de nós este sentimento divino acha-se ainda em uma condição inacabada e fraca. Muitas vezes por causa da nossa falta de experiência ou por nossos pecados, o amor pode tomar um rumo errado e nos trazer mais danos do que bens. Às vezes o nosso amor é fraco e não vai além de um sentimento benevolente. Basta o nosso próximo sofrer algum pesar que requeira a nossa ajuda e solidariedade — aqui então nosso amor aparentemente se evapora e nós nos afastamos dele. Os maiores obstáculos do amor são o egoísmo e a vaidade, com os quais cada um de nós estamos contaminados em maior ou menor grau. Como Cristo profetizou às pessoas nos últimos dias:

“Por causa de se multiplicar a iniquidade, se resfriará a caridade de muitos” (Mat 24:12).

Se nós não refrearmos e não dirigirmos nossos desejos físicos, eles podem tomar a forma de uma vergonhosa paixão animal, a qual nada tem a ver com o verdadeiro amor. Há um fato conhecido na Bíblia, de um forte mas impuro amor de Amnon, um dos filhos do rei Davi, para com sua meio-irmã Tamar. Inflamado de paixão por ela Amnon não podia encontrar a paz, perdendo todo o interesse pela vida, deixando de comer, emagrecendo. Finalmente atraindo-a com artimanhas aos seus aposentos ele a possuiu. E o que resultou? Satisfeito os seus desejos, ele sentiu aversão para com aquela, sem a qual “ele não podia viver,” chegando a expulsá-la de perto de si:

“Amnon ganhou-lhe uma extrema aversão, de sorte que o ódio que concebeu contra ela excedia muito o amor que antes lhe tivera. E Amnon disse-lhe: Levanta-te e vai-te” (2Sam 13:15).

O amor para ser firme, deve estar baseado em sentimentos como: confiança, respeito, amizade… É difícil amar alguém a quem não se tem respeito e nem confiança. O amor é bom quando existe interesses e ideais mútuos.

O amor dos pais também requer o processo de direção e purificação espiritual. Não é bom para os pais fazerem de seus filhos pequenos “ídolos” — satisfazerem todos os seus caprichos e não freiarem suas más tendências. Acostumadas a serem o centro das atenções, essas crianças quando crescem tornam-se pessoas mimadas, não se adaptando na vida do dia a dia na sociedade. A Bíblia nos dá como bom exemplo o amor paterno excessivo do alto-sacerdote Heli. Ele nunca reprimia seus filhos quando eles faziam algo de errado. Tornando-se a si próprios sacerdotes, eles o auxiliavam no templo e ofendiam as pessoas que vinham orar e trazerem as suas oferendas a Deus. Heli sabia disto, mas não tentava nada para impedí-los dessas más ações e nem para mudar seus comportamentos. Eventualmente Deus puniu não somente os dois filhos, mas também ao próprio alto-sacerdote Heli, negando-lhe descendentes que fossem capaz de servir no templo:

“O arco dos fortes quebrou-se, e os fracos foram revestidos de força” (1Sam 2:4).

Estes e outros exemplos semelhantes provam que o amor necessita de auto-disciplina e direcionamento espiritual, caso contrário até os sentimentos mais benéficos podem levar a resultados trágicos. A outra deficiência em nosso amor, é que surgindo dentro de nós através de causas naturais e altruísticas, ele não é constante e é imperfeito.

Como não podemos amar aqueles os quais nós gostamos e que estão favoravelmente predispostos para conosco? Este tipo de amor instintivamente natural não requer nenhum esforço e não traz nenhum crescimento espiritual. Portanto:

“Porque, se amais (somente) os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis (nisso) de especial? Não fazem também assim os gentios? (Mt 5:46-47).

No entanto Deus quer que nosso sentimento de amor seja aperfeiçoado, se fortaleça dentro de nós e que sejamos atraídos para mais perto Dele a fim de obtermos o Seu amor.

“Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem. Deste modo sereis filhos do vosso Pai que está nos céus, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e manda a chuva sobre justos e injustos… Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5:44-48; Lc 6:27-36).

Tal amor cristão assim perfeito não vem por si só. Primeiro de tudo ele requer esforço interno e segundo a ajuda do Espírito Santo. Pessoas que não foram espiritualmente renovadas, são portanto incapazes de alcançarem esse nível elevado de amor. Deus chama-o “O Novo Mandamento”:

“Dou-vos um novo mandamento: Que vos ameis uns aos outros, e que, assim como eu vos amei, vos ameis também uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:34-35).

Nosso Senhor Jesus Cristo e Seus apóstolos mandam-nos chamar, a nos amarmos uns aos outros, porque o amor é a característica distintiva do verdadeiro cristão:

“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque a caridade vem de Deus. Todo o que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é caridade” (1Jo 4:7-8).

Aqui o critério de perfeição depende do nosso nível de altruísmo e de renúncia própria: quanto mais puro e forte for o nosso amor, tanto maior é a nossa disposição em ajudar a pessoa amada — até a conduta de total abnegação própria, sacrificando sua própria vida. Nosso Senhor Jesus Cristo diz sobre isto:

“O Meu preceito é este: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus amigos. Vós sois Meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando” (Jo 15:12-14).

A capacidade de amar com um amor cristão puro, vem especificamente do Espírito Santo e é testemunhado pelo apóstolo Paulo: “Ao contrário, o fruto do Espírito é a caridade…” (Gál 5:22).

A característica maravilhosa da primeira comunidade cristã, foi justamente seu forte amor mútuo, dado através da descida do Espírito Santo sobre eles:

“A multidão dos que criam tinha um só coração e uma só alma, e nenhum dizia ser sua coisa alguma daquelas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Os apóstolos, com grande coragem, davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus; e era grande em todos eles a graça. Não havia nenhum necessitado entre eles, porque todos os que possuíam campos ou casas, vendendo-os, traziam o preço do que vendiam, depunham-no aos pés dos apóstolos e distribuía-se por cada um segundo a sua necessidade” (At 4:32-35).

O nítido indício do amor pode ser claramente observado no estado de espírito dos fiéis: alegria, luminosidade interior, crescimento espiritual e a comunhão de sentimentos (quando a felicidade ou a tristeza de alguém é assimilada por outros como se fossem suas). Se esses indícios são raramente e ineficazmente sentidos nas escalas mais inferiores do desenvolvimento espiritual, nas escalas superiores eles emergem com toda sua força e clareza.

É importante lembrar que o autêntico amor cristão não é um atributo normal da nossa natureza, mas é concedido pelo Espírito Santo a todos aqueles que o procuram e que o alcançam. Sobre os efeitos invisíveis da graça do Espírito Santo no coração de um cristão São Macário disse:

“Assim como a abelha constrói o favo na colméia invisível para o olho humano, assim a graça divina constrói secretamente o amor no coração de uma pessoa, mudando o rancor para a afetuosidade e um coração cruel para um coração bondoso. Como um mestre ourives criando uma filigrana em uma gravura, aos poucos ele a cobre de ornamentos, mostrando-a em toda a sua beleza somente depois que ele completou o seu trabalho. Assim do mesmo modo nosso verdadeiro Artesão, o Senhor, embeleza nossos corações com uma filigrana, renovando-os misteriosamente, até o tempo em que nós emigrarmos de nosso corpo, revelando a beleza de nossa alma” (Philokalia, Ed. russa, v.1).

Enquanto o amor físico requer estímulo e razões externas agradáveis para ser fortalecido, o amor espiritual não necessita de condições externas; ele vem através do caminho misterioso de Deus e conduz o coração da pessoa para sua fonte primária. Conseqüentemente, a pessoa que está farta desse amor, sente uma crescente sede de contato com Deus. Se o amor físico é às vezes tão forte que nos impele a grandes sacrifícios pela pessoa amada, quanto imensuravelmente mais forte pode ser o amor espiritual que nos conduz a Deus. É esse amor espiritual que motivou muitos fiéis a distribuírem suas riquezas aos necessitados, a deixarem suas famílias e posições favoráveis na sociedade e a dedicarem suas vidas a Deus.

Sentindo um forte estímulo deste amor, o apóstolo Paulo escreveu:

“Quem nos separará, pois, do amor de Cristo? A tribulação? ou a angústia? ou a fome? ou a nudez? ou o perigo? ou a perseguição? ou a espada?… Mas de todas estas coisas saímos mais que vencedores por Aquele que nos amou. Porque eu estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo Nosso Senhor” (Rom 8:35-39; 1Cor 13).

Muitas pessoas honradas estavam familiarizadas com tais tipos de emoções. Por exemplo, São Macário o Grande descreve esta condição do seguinte modo:

“A alma que ama sinceramente a Deus, mesmo que tenha realizado milhares de boas obras, devido sua insatisfeita ansiedade por Deus, considera a si própria como se nunca tivesse realizado nada. Embora tenha debilitado o seu corpo através do jejum e do trabalho, ainda assim ela pensa que não começou a acumular boas obras. Mesmo que ela tenha alcançado a honra de ter muitas graças espirituais, de revelação, de mistérios divinos, por causa do seu enorme amor a Deus ela julga que nada adquiriu” (Philokalia, Ed. russa, v.1).

Portanto, a capacidade de amar é implantada em nós pelo nosso Criador. É neste sentimento de amor que são baseadas todas as formas de vida familiar e social. O amor une as pessoas, incentiva-as a fazerem o bem, lhes dá energia, alegria e as estimula a terem um objetivo na vida. No entanto, somente o amor natural, é insuficiente. Para se ter êxito neste sentimento divino, tem que se convencer a si mesmo a amar aqueles dos quais não gostamos, ou aqueles os quais nos causam ofensas. Este amor espiritual nos guiará ao longo do caminho do progresso até a nossa fonte primária — Deus. No entanto, é preciso ser lembrado, que sem a graça do Espírito Santo, nossa natureza corrompida é incapaz de um amor puro.

Por isto vamos pedir e implorar a Deus para aumentar em nós o amor cristão. Porque somente através da posse desse tesouro em nossos corações, estaremos aptos a olhar os dons materiais com apatia e indiferença — mas o mais importante, é nós termos compreendido e sentido realmente com grande clareza, que a comunicação com Deus é a mais elevada forma de benevolência e alegria.

Lembrando-nos Daquele que nos ama.

“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados…” (Ef 5:1).

Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é caridade” (1João 4:8).

Deus é um mar infinito e abrangente de amor, que tudo vivifica. Do maior ao menor, tudo que existe — visível ou invisível, inclusive cada molécula do nosso ser — é obra do amor imponderável e da sabedoria Dele. Por isso, seria natural que a nossa maior prioridade fosse agradecermos constantemente o nosso Criador — não só porque ele tirou-nos da inexistênca, dando-nos a vida, mas também pelo Seu zelo paternal conosco.

Mesmo sem precisar de ninguém, Deus criou-nos somente pela bondade Dele, para que pudéssemos tomar parte da vida eterna no paraíso. Seu amor paternal torna-se evidente no cuidado com a criação da nossa natureza humana e daquela morada onde deveríamos viver. Tendo um ser humano a necessidade de tão pouco para viver, podia se limitar ao mais essencial. Mas não, Deus, em Sua grande generosidade criou este universo infinito com as suas galáxias e sistemas estelares incontáveis, com toda a opulência e grandiosa beleza que tanto encantam a nossa mente e deliciam o coração.

Quem é suficientemente digno de descrever a beleza da criação de Deus e apreciá-la devidamente: o azul do céu, o calor revigorante do sol, a imensidão dos mares, a grandiosidade das montanhas, a vastidão das planícies, a brancura da neve, a fragrância das ervas e flores, o canto dos pássaros e o murmúrio dos riachos…? Como uma mãe carinhosa cuidando do filho, o Criador enriqueceu o nosso mundo com uma variedade imensa de alimentos, que nos fortalecem e dão prazer, e com uma infinidade de plantas e ervas para curar e fortalecer a nossa saúde. Enfim, tudo ao nosso redor, até a menor partícula, testemunha a generosidade e o cuidado paternal do nosso Criador!

Por isso é que os mais notáveis sábios e filósofos, contemplando a natureza, obtinham as suas mais luminosas idéias, e os poetas, compositores e pintores, os mais sensíveis espiritualmente, inspirados pela sua beleza, criavam suas obras mais geniais. Não somente os seres humanos, mas também tudo o que vive, sente a necessidade de glorificar o Criador pela Sua sabedoria e benevolência. Temos como testemunha o iluminado apóstolo São João, quando ouviu os habitantes celestes entoando os hinos:

“Tu és digno, ó Senhor nosso Deus, de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas, e pela Tua vontade é que elas existem e foram criadas” (Rev 4:11).

“A toda a criatura que há no céu, sobre a terra e debaixo da terra, às que há no mar, a todas as coisas que se encontram nestes (lugares), a todas ouvi dizer: Ao que está sentado sobre o trono e ao Cordeiro, bênção, honra, glória e poder, pelos séculos dos séculos” (Rev 5:13).

Como se juntando ao louvor universal, o sacerdote durante a liturgia também agradece ao Criador em nome de todos, falando: “É digno e justo louvar-Te, abençoar-Te, glorificar-Te, agradecer-Te e adorar-Te em toda a parte do Teu Reino, porque és o Deus inexprimível, inescrutável pela razão, invisível, incompreensível, sempre existente, eternamente o mesmo; Tu e Teu Filho Unigênito e o Teu Espírito Santo. Tu, da inexistência nos conduziste à existência. E depois de nossa queda, levantaste-nos de novo e realizaste tudo para conduzir-nos até o céu, dando-nos o Teu futuro Reino Celeste. Por todas estas graças agradecemos-Te e ao Teu Filho Unigênito e ao Teu Espírito Santo. Agradecemos a todos os Teus benefícios, os que conhecemos e os que não conhecemos, aos revelados e aos não revelados. Agradecemos-Te pela presente celebração deste ofício através de nossas mãos e pela aceitação dele, apesar de Tu seres servido por milhares de Arcanjos e muitos milhares de Anjos, Querubins e Serafins, que alados voam nas alturas celestes.”

Não é somente por sermos presenteados com a vida que devemos louvar ao Senhor, mas pelo Seu constante cuidado conosco e misericórdia — não só no plano universal mas em cada acontecimento em particular, tanto que nem a mínima coisa do nosso cotidiano escapa da Sua atenção paternal, e que cada fio de cabelo nosso é contado por Ele (cf. Luc 12:6-7).

Reconhecendo isto por experiência própria o rei Davi se lembrava:

“Bendize, ó minha alma, o Senhor, e não esqueças nenhum dos Seus benefícios. É Ele quem perdoa todas as tuas maldades, e quem sara todas as tuas enfermidades. É Ele quem resgata da morte a tua vida, e quem te coroa da Sua misericórdia e das Suas graças. É Ele quem sacia com bens o teu desejo, renovar-se-á como a da águia a tua mocidade… O Senhor é compassivo e misericordioso, paciente e de muita misericórdia. Não ficará irado para sempre, nem ameaçará perpetuamente” (Sal 102:2-9).

“… O Senhor dá liberdade aos cativos. O Senhor levanta os caídos; o Senhor ama os justos” (Sal 145:7-8).

Mas a maior e mais imponderável obra da misericórdia de Deus pela qual temos que agradecê-Lo incessantemente, é por Ele nos ter mandado o Seu Único Filho, Senhor Jesus Cristo.

“… para que todo o que crê Nele, não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (João 3:16).

Se os primeiros seres humanos tivessem guardado a retidão moral com a qual Deus os dotou, nós seus descendentes, não conheceríamos nem doenças, nem sofrimentos, nem desgraças e nem a morte, mas iríamos desfrutar para sempre da Vida Eterna no paraíso. Todos os nossos infortúnios são resultados do pecado original de nossos ancestrais e também de nossos próprios pecados.

Pecado — não é simplesmente um capricho ou uma desobediência, mas uma grave e insolente rebelação contra o Legislador Supremo. Seria muito melhor para Deus ter destruído os homens como corrompidos e impuros, mas em vez disso, Ele como é misericordioso, desde o primeiro dia da transgressão de nossos antepassados, começou a conduzir pacientemente o destino da humanidade para a sua renovação espiritual.

Todo o período do Antigo Testamento foi o tempo de preparação da raça humana para a vinda do Messias — o Salvador. Foi um processo longo e complicado de ensinamento às pessoas para a fé e a criação de condições (infra-estrutura) que pudessem promover a disseminação do cristianismo pelo mundo todo.

A essência do grande feito redentor realizado pelo Filho de Deus, é claramente elucidada com a série de parábolas do Evangelho, como por exemplo: a ovelha perdida, a figueira estéril, o filho pródigo e o Bom Pastor. Assim, a humanidade se perdeu como a infeliz ovelha e o Bom Pastor foi procurá-la pelas montanhas e desertos; encontrando-a quase morta Ele não a fez andar mas carregou-a carinhosamente nos ombros. Cristo não nos ensinou somente como crer e viver, mas carregou nos ombros o pesado fardo dos nossos pecados e sofreu os castigos que nós merecíamos sofrer — a Sua incomum misericórdia e amor! Essa grande obra redentora não se refere somente ao passado histórico, mas até hoje, Deus perdoa a cada um de nós e nos renova espiritualmente pelo

sofrimento na Cruz de Seu Filho Unigênito. Apesar de nós transgredirmos diariamente os Seus mandamentos ofendendo-O com nossos pecados, Ele espera pacientemente que no final, criemos juízo; e tudo isso porque: “… O qual quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tim 2:4).

Nosso Senhor Jesus Cristo nos ama tanto — escreve o ancião Siluan — que nem podemos imaginar como. Ele nos ama como Seus filhos e o Seu amor é mais forte que o amor de mãe, porque até uma mãe pode esquecer seu filho, mas Ele nunca nos esquece…

Ele nos ama de tal maneira, que por nossa causa Se encarnou, derramou o Seu sangue e ofereceu-O para que tomassemos juntamente com o Seu puríssimo Corpo; e assim, pela ingestão de Sua Carne e de Seu Sangue nos tornamos Seus filhos semelhantes a Ele em carne, como os filhos se parecem com os pais independente da idade, e o Espírito Divino testemunha ao nosso espírito, que sempre estaremos com Ele.

A infeliz crueldade do pecado e a terrível dispersão nas preocupações mundanas é que faz o nosso coração insensível, tanto que a maioria das vezes nem sequer notamos as obras da benevolência de Deus, nem damos valor aos cuidados paternos Dele para conosco. De fato, as pessoas estão tão preocupadas em conseguir bens materiais, que não só esquecem de agradecer ao seu Salvador e Criador, mas também nem sequer lembram-se Dele; para eles, é como se Deus não existisse. Mas é paradoxal: quando essas pessoas são atingidas por alguma desgraça ou doença, instintivamente elas se lembram que Deus existe. Infelizmente nesse momento, elas lembram-se Dele não para pedir perdão e ajuda, mas com um sentimento de rancor: “Por que Ele me castiga assim! Tem tanta gente pior do que eu e que está em boa situação e eu é que fui castigado!”

Ter rancor contra Deus — é uma grande loucura e uma injustiça em relação Àquele que tudo faz para o nosso bem. As próprias pessoas se afastaram Dele pecando diariamente, transgredindo todas as normas morais, ofendendo-se mutuamente e depois O culpam pelo mal que elas semearam. Na verdade elas O recriminam por Ele nos ter dado o livre arbítrio e não nos impedir de fazer aquilo que queremos. Deus espera longa e pacientemente e não castiga, porque: “…Diz o Senhor Deus, que não quero a morte do ímpio, mas sim que se converta do seu mau proceder e viva…” (Ez 33:11).

Os infortúnios nesta vida não são castigos mas lembretes de que não somos eternos e que todos seremos postos perante o Juiz, a fim de respondermos por nossas ações como explica o apóstolo Paulo:

“Mas, quando nós somos julgados, somos castigados pelo Senhor, para não sermos condenados com este mundo” (1Cor 11:32).

O pai humano também castiga os filhos não para vingar-se deles, mas para ensiná-los, sofrendo com isso ele próprio, porque ele os quer bem.

A ponderação da misericórdia de Deus é ilustrada na seguinte história Bíblica:

“Davi disse a Deus: Eu cometi um grande pecado em fazer isto, peço-Te que perdoes a culpa ao Teu servo, porque procedi nesciamente. O Senhor falou a Gad, vidente de Davi, dizendo: Vai, fala a Davi e dize-lhe: Eis o que diz o Senhor: Eu te dou três coisas à escolha: escolhe uma qual quiseres, e eu ta farei. Tendo ido Gad à presença de Davi, disse-lhe: Eis o que diz o Senhor: Escolhe o que quiseres: Ou sofrer a fome durante três anos, ou fugir diante dos teus inimigos durante três meses, sem poderes escapar da sua espada; ou estar debaixo da espada do Senhor durante três dias, grassando a peste pelo país, e fazendo estragos o anjo do Senhor em todas as terras de Israel. Vê, pois, agora que ei de responder a quem me enviou. Davi respondeu a Gad: De toda a parte me vejo em grandes angústias; mas para mim é melhor cair nas mãos do Senhor, porque é de muita misericórdia, do que cair nas mãos dos homens. Mandou pois o Senhor a peste a Israel, e morreram de Israel setenta mil homens” (1Crôn 21:8-14).

Santo Antonio o Grande, assim explica o sentido da “ira” em relação a Deus: “Deus é permanentemente benevolente. Se alguém indaga: como Ele se alegra com os bons e repudia os maus? Como Ele se zanga com os pecadores e como Ele lhes é clemente quando eles se arrependem? Para isso é preciso dizer que na verdade, o Senhor não Se alegra e nem Se zanga, que a alegria e a ira — são sentimentos das pessoas limitadas. É absurdo imaginarmos que algo seja para Deus bom ou ruim por causa das ações humanas. Deus é a própria bondade e só faz o bem, nunca faz mal a ninguém, permanecendo sempre igual. Quando nós somos bons, nos aproximamos Dele pela melhança, e quando nós somos maus, nos afastamos Dele pela desigualdade… Deste modo falar que Deus se afasta dos maus é o mesmo que dizer que o sol se esconde dos privados da visão” (Philokalia, v.1).

Toda provação e dificuldade nesta vida deve ser vista como admoestação, que nos é mandada para a nossa reabilitação. “Assim como a mãe ensina sua criança a caminhar,” —esclarece São João de Kronstadt — “assim o Senhor nos ensina a fé viva Nele. A mãe põe a criança em pé e se afasta chamando-a para si. A criança chora sem o apoio da mãe, quer andar até ela, mas tem medo de dar o passo, tenta andar e cai. Assim também o Senhor ensina o cristão a obter a fé Nele. Nossa fé é fraca como uma criança aprendendo a andar. Deus se afasta do cristão por um tempo e deixa acontecer-lhe algumas adversidades e depois quando se torna necessário, Ele o ajuda. O Senhor nos manda olhar e caminhar até Ele. O cristão tenta vê-Lo mas o seu coração não está preparado para ver a Deus, ele se atemoriza, tropeça e cai. Porém o Senhor está ao seu lado e pronto para amparar o fraco cristão em Seus braços. Por isso em qualquer ocasião de sofrimento ou provação (intrigas do diabo), aprenda a ver o Salvador com os olhos do seu coração. Sem temor, olhe para Ele como para um tesouro inesgotável de bondade e implore pela Sua ajuda. Imediatamente, receberá o que pede. A coisa mais importante é ter uma visão sincera de Deus e a esperança Nele como um Ser Todo Bondoso. Isto é verdade por experiência! Assim o Senhor nos ensina a reconhecermos a nossa impotência e a termos fé Nele.”

Por isso, vamos nos lembrar diariamente de quanto fortemente somos amados pelo Senhor, e quanto Ele fez e continua fazendo por nós para nos salvar.

O que não poupou nem o Seu próprio Filho, mas por nós todos o entregou, como não nos dará também com Ele todas as coisas?” (Rom 8:32).

De um lado, estas lembranças fortalecerão em nós o sentimento de gratidão a Deus, por outro lado contribuirão para que tratemos melhor as pessoas ao nosso redor, assim como está escrito:

“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados,…” (Ef 5:1).

Pensemos nesta frase: nós somos criaturas insignificantes, incapazes de imitar a Deus de nenhuma maneira — nem na Sua onipotência, nem na Sua onipresença, nem em qualquer outra de Suas divinas características. No entanto, nós podemos e devemos seguir os passos de Seu amor! E isto para nós, é uma grande honra:

“Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6:36).

Amor a Deus e ao próximo.

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma,” de todo o teu espírito. Este é o máximo e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22:37-39).

Essa maravilhosa declaração resume a essência dos ensinamentos das Escrituras Sagradas, em sua forma extremamente sucínta e compreensível, como explicou nosso Senhor Jesus Cristo: “Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas” (Mt 22:40).

Entretanto, uma dúvida surge imediatamente: Se o amor é um sentimento completo, seria mais simples dizer “ame a todos” e tudo seria conduzido por um simples mandamento. Conforme veremos mais adiante, o amor ao Criador deve ocupar um lugar especialmente sagrado em nosso coração, de modo que nosso amor pela criação não se torne idolatria. De fato, o amor a Deus enobrece, direciona e aquece todas as outras manifestações desse bom sentimento.

Se todo o ensinamento das Escrituras Sagradas resume-se em dois curtos mandamentos, isso significa que o restante Nela é supérfluo? Não é assim, porque sob a simplicidade aparente dos mandamentos existe uma grande profundidade. Aprender a amar verdadeira e autenticamente é uma ciência das ciências, pois: “Sobretudo, porém, tende caridade, que é o vínculo da perfeição” (Col 3:14). A finalidade da Bíblia é instruir-nos como amar correta e verdadeiramente com ensinamentos e exemplos vivos adaptados às mais variadas situações da vida.

Devemos antes de tudo aprender amar a Deus de tal maneira, que esse sentimento preencha e transforme todo nosso ser ― ilumine nossa mente, aqueηa nosso coração, direcione nossos desejos e todas nossas ações ― em outras palavras, que Deus torne-Se a coisa mais procurada e mais importante em nossa vida. É também considerável amar ao próximo como a si mesmo, mas não tão intensamente como se deve amar a Deus.

O pai Doroteus ilustra a relação entre o amor a Deus e ao próximo com o seguinte exemplo: ele diz, “Deixe-nos imaginar um grande círculo. Deixe-nos supor, que o círculo é nosso mundo, que o centro desse círculo é Deus e que os pontos nesse círculo são pessoas. Alguns estão mais próximos do centro, isto é, de Deus, outros estão mais longe Dele. À medida que as pessoas aproximam-se do centro com seu amor a Deus, através dessa mesma medida elas se aproximam entre si. Ao contrário, quanto mais as pessoas afastam-se entre si com desavenças, simultaneamente mais elas se distanciam de Deus. Assim, é a natureza do amor: quanto mais nos aproximamos das pessoas, mais nos aproximamos de Deus.”

Embora Deus limite-Se a um mundo inatingível, Ele está próximo de cada um de nós como Pai e Salvador ao mesmo tempo. Esse é o porquê, podemos e devemos amá-Lo. Nós temos aqui alguns exemplos concretos.

Quando amamos alguém, queremos estar com a pessoa amada e sofremos quando estamos separados dela. Da mesma maneira, se amamos verdadeiramente a Deus, deveríamos encontrar prazer, estando em comunhão com Ele. Por exemplo, orando, entramos em um certo contato misterioso com Ele, porém, um contato real e de sentimento. Nós podemos rezar em qualquer lugar e a qualquer hora: sózinhos em casa, no trabalho, na estrada ou no meio da natureza. Um cristão fiel é favorecido de uma proximidade maior de Deus especialmente na Igreja, pois Ele prometeu: “Porque onde se acham dois ou três congregados em Meu nome, aí estou Eu no meio deles” (Mt 18:20). A pessoa estando em comunhão constante com Deus por meio das orações, ela se torna um templo vivo como explica o apóstolo Paulo:“Porventura não sabeis que os vossos membros são templo do Espírito Santo, que habita em vós, que vos foi dado por Deus, e que não pertenceis a vós mesmos?” (1Cor 6:19) e dessa maneira ela estará sempre junta do Amado.

Quando amamos alguém, tememos ofendê-lo de qualquer modo, tanto que nossas palavras e ações são direcionadas para agradá-lo. Do mesmo modo, devemos condicionar-nos a sermos reverentes perante a Deus (a “temê-Lo”) e evitarmos de todas as maneiras “magoá-Lo” com pensamento ou ato pecaminoso. “Se Me amais, observareis os Meus mandamentos” (Jo 14:15).

Quando amamos alguém profundamente, torna-se-nos mais importante o bem estar e a felicidade desse alguém do que a nossa própria. Igualmente, deveríamos aprender a direcionar todas nossas ações para a glória de Deus e contribuir de todas as maneiras para a propagação de Seu Reino de Bondade entre os homens. “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5:16).

Amar a Deus é entregar-nos totalmente à Sua vontade. Se algum acontecimento desagradável ou alguma tribulação nos atinge, devemos acreditar que Deus permitiu isso para nossa felicidade, salvação e benefício espiritual ― não somente segundo os planos da eternidade, mas também “Para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom 8:28). Em outras palavras, quando nos entregamos com fé à vontade Dele, Ele até mesmo converte as decepções e os infortúnios em nosso benefício.

Nas situações difíceis devemos lembrar que Deus é amor. Por causa de nós pecadores ingratos, Ele entregou Seu Filho Unigênito: “A fim de que todo o que crê Nele tenha a vida eterna” (Jo 3:15).

Sabendo que o amor é um sentimento perceptível e concreto, podemos demonstrar como ele é profundo e sincero a Deus, analisando nossos pensamentos e nossos sentimentos. Por exemplo, se encontramos prazer em pensamentos obscenos, se temos raiva de alguém, se estamos fortemente presos a algo mundano, se não sentimos disposição para orar ou se a leitura das Escrituras Sagradas aborrece-nos, isso significa que nosso amor a Deus é fraco ou que talvez ele esteja morrendo. Então, temos que verificar, se criamos para nós um ídolo mundano, ao qual estamos servindo em lugar de nosso Criador, “Porque onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração” (Mt 6:21).

No início, nosso amor poderá ser fraco e vacilante. Entretanto, se ele for sincero e tiver a ajuda de Deus, ele aumentará na intensidade como uma faísca e começará a transformar nosso mundo interior. Paralela a essa transformação interior, haverá mudanças em nossos interesses, idéias e senso de valores. Aquilo que antes para nós era interessante e agradável, começará a parecer aborrecido e superficial. Assim, começaremos a preferir um bom livro ou a orar em isolamento, em lugar de teatros, danças e filmes. Dinheiro, conforto e outras dádivas terrenas parecerão de importância secundária para nós. Ir à igreja, participar da Santa Comunhão ou realizar uma ação caridosa tornar-se-á uma tarefa agradável e importante.

Dessa forma, passaremos a compreender aquelas pessoas, que por amor a Deus abandonavam suas famílias e todos os bens terrenos, dedicando-se a serví-Lo. Elas suportavam para a glória de Deus todos os tipos de humilhação, assim como, perseguições, ofensas, espancamentos e até mesmo a morte angustiante como mártires. O apóstolo Paulo, por exemplo, era muito rico e teve uma formação brilhante em sua juventude. Todas as portas estavam abertas para ele por ser um cidadão romano. Apesar disso, ele desprezou todas essas vantagens e se submeteu espontaneamente à inúmeras privações, perseguições, espancamentos, trabalhos, sofrimentos e dor para a difusão do Evangelho.

Ele considerava tudo isso uma honra e um privilégio, o que para outros poderia parecer um grande infortúnio.

“Quem nos separará, pois, do amor de Cristo? A tribulação? ou a angústia? ou a fome? ou a nudez? ou o perigo? ou a perseguição? ou a espada? Segundo está escrito: “Por Ti somos entregues à morte todos os dias, somos reputados como ovelhas para o matadouro.” Mas de todas estas coisas saímos mais que vencedores por Aquele que nos amou. Porque eu estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo nosso Senhor” (Rom 8:35-39).

Assim, se pode tornar forte o fogo de nosso amor a Deus!

Mesmo quando esse amor não é tão intenso como no exemplo citado, ele renovará nossas forças espirituais. De fato, o amor a Deus dá-nos a capacidade de amarmos, até mesmo aqueles que não merecem devido aos seus pecados de ingratidão, orgulho, egoísmo, arrogância, capricho, grosseirísmo, engano, individualísmo, etc. Quem ama a Deus tem uma visão espiritual diante de si, Daquele “O Qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e manda a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5:45) e se lembra do que Ele disse:

“Porque, se amais (somente) os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis (nisso) de especial? Não fazem também assim os gentios? Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5:46-48; Lc 6:27-36).

O bem-aventurado Diadoque assim escreveu sobre a força aquecedora do amor: “Quando uma pessoa sente o amor de Deus, ela começa a amar o seu próximo e começando a amar não para mais… Enquanto que o amor carnal evapora-se por qualquer razão insignificante, o amor espiritual permanece. A alma que ama a Deus e que se encontra sob o efeito da ação Divina, não rompe o vínculo do amor mesmo quando é maltratada. Ainda que tenha suportado do próximo alguma mágoa, mas aquecida pelo amor de Deus, ela volta rapidamente à sua condição benevolente anterior e de bom grado restabelece dentro de si o sentimento de amor a seu semelhante. Nessa alma, o rancor da divergência é completamente tragado pela ternura Divina.”

Por outro lado, se não amamos ao nosso próximo, é impossível amarmos a Deus verdadeiramente. O santo apóstolo João o Teólogo escreve:

“Se alguém disser: ― eu amo a Deus ― e odiar o seu irmγo, é um mentiroso. Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a Quem não vê? Temos de Deus este mandamento: que aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4:20-21). “O que tiver bens deste mundo, e vir o seu irmão em necessidade e lhe fechar o seu coração, como está nele a caridade de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra e com a língua, mas por obra e em verdade” (1Jo 3:17-18).

Todas as religiões reconhecem a virtude do amor ― porém, quase todas restringem essa virtude àqueles que lhes são agradáveis ou próximos de si. Por exemplo, a interpretação do Judaísmo no Antigo Testamento e a prática do Torá ensinava claramente: “Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo” (Mt 5:43). Somente o Cristianismo remove todas as barreiras humanas e nos chama amar a todos incondicionalmente. À pergunta quem é o meu próximo, Cristo explica em Sua parábola do bom samaritano, que o próximo é todo aquele que tem necessidade de ajuda independentemente de sua crença religiosa, nacionalidade ou outras características (cf. Lc 10:25-37).

A característica distintiva de um cristão deve ser o amor abrangente a todos e não somente uma vida contemplativa com precisa observância dos rituais e profunda compreensão dos dogmas. Como Cristo ordenou a seus seguidores: “Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:35).

O mandamento ordena amar ao próximo como a nós mesmos. Entretanto, não se pode dizer, que a capacidade de amar aos outros seja diretamente proporcional ao amor que se tem por si. A experiência monstra que ocorre exatamente o contrário: quanto mais uma pessoa se ama, menos ela consegue amar ao próximo. O egoísmo e o egocentrísmo destroem o verdadeiro amor. Nosso Senhor disse: “Por causa de se multiplicar a iniqüidade, se resfriará a caridade de muitos” (Mt 24:12).

O bem-aventurado Diadoque escreveu: “Quem ama a si próprio não pode amar totalmente a Deus, mas quem não ama a si, pela razão de seu profundo amor a Ele, só esse O ama verdadeiramente. Tal pessoa nunca desejaria a glória para si, mas somente para Ele… A alma amante a Deus e repleta de sentimentos Divinos, procura naturalmente a Ele a glória ― e a si o prazer da humildade. Devido ΰ Sua grandeza, Deus merece a glória ― e o homem a humildade.”

Embora o amor de uma pessoa por si própria sirva como medida de seu amor ao próximo, no entanto “Não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus amigos” (Jo 15:13; ver também Mt 5:42-48). Aqui, nosso Salvador vem a ser o maior exemplo: “Nisto conhecemos o amor de Deus: em ter dado a Sua vida por nós; igualmente nós devemos também dar a vida pelos nossos irmãos” (1Jo 3:16). O pai Pimen escreveu o seguinte sobre essa questão subjetiva: “Se alguém ouvir uma palavra ofensiva e ao invés de respondê-la com igual ofensa, controlar seus sentimentos e permanecer em silêncio ou se alguém for trapaceado e suportar isso sem vingar-se, ele estará dando sua vida ao próximo.”

Contrastando com outras religiões, o conceito de amor aos inimigos é uma virtude característica do Cristianismo. Nosso Senhor Jesus Cristo ensina: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem. Deste modo sereis filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:44-45). “Se alguém te ferir na tua face direita, apresenta-lhe também a outra; e ao que quer chamar-te a juízo para te tirar a túnica cede-lhe também a capa” (Mt 5:39-40).

O Antigo Testamento admitia a vingança “olho por olho, dente por dente” (Lev 24:20), pois nos tempos pré cristãos as pessoas não estavam ainda renovadas espiritualmente, elas eram incapazes de se elevar aos sentimentos do perdão e de amor aos inimigos. O cristão é chamado a aniquilar dentro de si todos os sentimentos maléficos ― e isso ι de tamanha importância, que o perdão de nossos pecados é condicionado ao perdão que temos para com o próximo: “Perdoa-nos, as nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido” (Mt 6:12).

Naturalmente que para perdoarmos ao inimigo, requer de nossa parte um grande esforço interno, nobreza e até mesmo ajuda do Alto. Nosso relacionamento com aqueles que consideramos nossos “inimigos,” sem dúvida alguma, abriga muita subjetividade. Algumas pessoas são mais pressupostas e sensíveis que outras; algumas são impetuosas e outras de temperamento calmo. É interessante notar a seguinte tendência: quanto mais uma pessoa é apegada aos bens materiais, quanto mais vaidosa, egocêntrica e orgulhosa, tanto mais rápido ela se ofende com os outros. Ao contrário, quanto mais ela é inclinada para o espiritual, quanto mais modesta e humilde, tanto mais fácil para ela é suportar as mágoas e perdoá-las rapidamente. Conseqüentemente, se temos raiva de alguém, seria benéfico determinarmos porque nos subjugamos a esse sentimento tão mau. Não seria isso o indício de que possuímos alguma coisa má em nossa alma?

Além disso, quando alguém nos magoa ou nos priva de algo, não é uma calamidade tão grande, afinal de contas tudo nesse mundo é temporário. É muito pior levarmos em nossos corações o veneno da raiva, porque a inimizade torna-nos deprimidos, tristes, irritáveis, hostis e incapazes de nos alegrarmos com outras dádivas da vida e de estarmos em contato com Deus. Imaginemos, que uma pessoa tenha sido verdadeiramente má para nós. Porque envenenarmos nossas vidas e arruinarmos nossas almas? É indispensável para nosso bem estar interior eliminarmos todos os sentimentos ruins de nosso ser, exatamente como afirma o Evangelho: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rom 12:21). São Jõao de Kronstadt, o justo, esclarece: “A vida do coração é o amor, e a sua morte ― o ódio e a inimizade. Deus mantém-nos aqui na terra, justamente para que o amor penetre totalmente em nossos corações: esse é o propósito de nossa existência.”

As pessoas muitas vezes têm medo de perdoar aos seus ofensores, porque não querem passar-se por tolas e não querem mais ser atormentadas por eles. Precisamos colocar-nos acima desses medos mesquinhos, que são implantados pelo demônio. O amor aproxima-nos de Deus, assemelha-nos a Ele e traz consigo todo o Seu poder invencível. São João o Teólogo, o apóstolo do amor, escreve: “Nisto é perfeita em nós a caridade de Deus, pelo fato de termos confiança para o dia do juízo, pois, assim como Ele é, também nós o somos neste mundo. Na caridade não há temor; a caridade perfeita lança fora o temor, porque o temor supõe pena; e aquele que teme, não é perfeito na caridade. Nós, portanto, amemos a Deus, porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4:17-19).

De qualquer modo, o amor aos inimigos ― reais ou imaginαrios ― exige sempre um grande esforηo interior. Justamente por essa razão ele é generosamente recompensado por Deus. O apóstolo São Pedro recomenda: “Sobretudo tende uns para com os outros uma caridade ardente, “porque a caridade cobre a multidão dos pecados” (1Pdr 4:8). Os Santos Pais da Igreja aconselham-nos: “Se tu quiseres que Deus ouça a tua oração, ore primeiro pelo teu inimigo.” Em condições normais, as duas formas de amor (a Deus e ao próximo) fortalecem uma à outra. Entretanto, algumas vezes pode surgir um conflito grave, quando temos que escolher entre ser fiéis a Deus ou fazer algo agradável para a pessoa amada. Nesse caso, devemos preferir a lealdade a Deus, porque como o Senhor disse: “O que ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e o que ama o filho ao a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim” (Mt 10:37). Mesmo quando a pessoa é para nós a coisa mais querida do mundo, pela qual somos capazes de dar a vida, não devemos ceder, caso essa pessoa induza-nos ao pecado ou contra os ensinamentos do Evangelho. É melhor perder a sua amizade do que trair a Deus. É esse tipo de sacrifício que Deus exige de nós, como Ele disse: “E, se a tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é melhor para ti que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na geena” (Mt 5:30).

Se Adão não tivesse submetido-se à esposa, mas tivesse permanecido fiel a Deus (cf. Gên 3), certamente não haveria no mundo tanto mal e a história da humanidade tivesse seguido por um caminhocompletamente diferente ― muito melhor. Por isso, nos ι indispensável, não confundirmos as duas formas de amor, e em caso de conflito, devemos manter-nos fiel a Deus custe o que custar, mesmo que esteja em jogo a nossa própria vida.

Muitas pessoas têm medo do amor, porque se sentem incapazes de se entregarem totalmente às boas ações. Elas têm medo de trabalhos, tarefas, sacrifícios e pobreza, que são segundo dizem associados a isso. Devemos compreender ao mesmo tempo, que o amor não é muitas obras, mas sim sentimentos. Quanto fizemos não é tão importante, mas com que sentimento o fizemos. Nós podemos fazer muito, mas por causa de nossa irritabilidade, grosseria, arrogância e outros defeitos ofendemos àqueles, os quais desejávamos ajudar ou então repelimos aqueles que trabalham conosco.

Por isso, é muito importante alimentar dentro de si inicialmente bons sentimentos em relação às pessoas. O apóstolo Paulo explica perfeitamente a essência do amor: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa, ou como um címbalo que tine. E ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e tivesse toda a fé, até ao ponto de transportar montes, se não tivesse caidade, não seria nada” (1Cor 13:1-2).

Mais adiante, ele explica, quais são os sentimentos próprios do amor e quais não o são:

“A caridade é paciente, é benéfica; a caridade não é invejosa, não é temerária; não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. A caridade nunca há de acabar, mas as profecias passarão, as línguas cessarão e a ciência será abolida” (1Cor 13:4-8).

Partindo desses ensinamentos magníficos, chegamos a outros ensinamentos, para os quais devemos nos esforçar:

  • Manter um estado de espírito tranqüilo, prosseguir modestamente e silenciosamente assim como São Serafim de Sarov nos ensinou: “Adquire a paz espiritual e milhares ao redor de ti serão salvos.”
  • Tratar as pessoas com confiança e benevolência.
  • Desejar o bem a todos.
  • Não manifestar superioridade, mas omití-la e fazer concessões às pessoas.
  • Tentar não notar as falhas das outras pessoas e se obrigar sempre a pensar bem delas.
  • Não julgar os outros e não tentar analisar seus defeitos, mas ao contrário, tentar falar alguma coisa boa sobre eles.
  • Suportar pacientemente as ofensas e não se mostrar ofendido.
  • Rezar pelos outros.
  • Ouvir pacientemente uma pessoa aflita e tentar animá-la com uma palavra generosa.
  • Se for necessário falar a verdade na face de uma pessoa, faça isso calmamente sem irritação. Se isso der trabalho, é melhor rezar por ela.
  • Quando ajudar alguém, é importante fazer com delicadeza, de modo que o recebedor não se sinta devedor.

O mais extraordinário de tudo isso é que todas essas manifestações de amor não exigem praticamente nenhum esforço externo, mas somente uma ação benevolente e boa vontade.

Em geral, não nos é necessário tentar “grandes obras” ou façanhas, mas tentarmos entender até certo ponto para o que Deus está nos chamando. Caso contrário, podemos mais prejudicar do que fazer o bem através de nossa precipitação e auto-confiança. Diariamente, em diversas ocasiões, Deus apresenta-nos oportunidades, através das quais podemos realizar pequenas obras de caridade… e muitos grãos de areia podem ter mais valor do que uma pedra grande. Todo ato de bondade que realizamos a outra pessoa através de nossos sentimentos de compaixão, Deus aceita como se nós tivéssemos feito para Ele: “Na verdade vos digo que todas as vezes que vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt 25:40).

Conclusão.

Assim, o amor é uma grande disciplina, que é impossível se aprender durante toda a vida. No entanto, não há necessidade de nos desesperarmos; temos a vida futura pela frente, na qual seremos capazes de progredir nesse sentimento soberano das virtudes.

Citaremos para concluir as palavras de São Máximo o Confessor: “Devemos amar a todas as pessoas com todo nosso coração, depositar nossa confiança em Deus e servir somente a Ele com todas as nossas forças. Porque enquanto Ele nos proteje, todos nossos amigos permanecerão favoráveis e os inimigos sem forças. Quando Ele nos deixar, nossos amigos voltar-se-ão contra nós e os inimigos seguramente predominarão. Os amigos de Cristo amam a todos sinceramente, embora eles próprios não sejam amados por todos.”

Folheto Missionário número P67

Copyright © 2001Holy Trinity Orthodox Mission

466 Foothill Blvd, Box 397, La Canada, Ca 91011

Editor: Bishop Alexander (Mileant)

Fonte: http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/amor_p.htm





Sobre a Oração

28 08 2015

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Do Livro de Teófano Hermesista

“O Que é a Vida Espiritual e Como Nós Devemos Dispor dela”

Bispo Teófano Hermesista Sobre A Oração

Traduzido por Poslushnitza Vasilisa (Lesna)/ Peter Martininko

Conteudo: A Ciência da oração. Desconcentração das idéias durante a oração. Arrefecimento. A oração curta. O tempo necessário para a radicação da constante lembrança de Deus. A oração como regra.Regra da oração formada pela oração curta. A indispensabilidade de se esforçar bastante antes que veja resultado. É indispensável se forçar a rezar. Preparação para a oração. Ocupações da vida. Despertar no coração algum sentimento por Deus. Negligência e pressa durante a oração. Ainda sobre a pressa na oração. A regra de oração dependente de uma duração determinada. Oração – a raiz de tudo. Ainda sobre a indispensabilidade da oração por próprias palavras. Conselhos individuais, idéias e indicações de outras cartas.


I. A Ciência da oração (da carta 15).

Escreve-me que rezou com dedicação e se acalmou, recebendo uma certeza interior de que vai ser livre daquilo que a maçava; e depois, na verdade tudo se resolveu.

Lembre-se como rezou aqui e tente rezar sempre assim, para que a oração venha do coração e não apenas da boca ou do pensamento…

Não lhe vou esconder, mesmo que já tenha rezado assim, dificilmente conseguirá rezar assim sempre, tal oração é doada por Deus, ou despertada pelo Anjo da guarda. Ela aparece e desaparece, mas disso não podemos concluir que podemos deixar de nos esforçar por ela. Ela aparece quando alguém se esforça, a quem não se esforça ela não aparece. Nós vemos que os santos se esforçavam muito pela oração e com o seu esforço criavam em si um espírito de oração. A imagem de como eles conseguiam isso foi deixada por eles nos seus livros. Tudo o que nos foi dito compõe a ciência da oração, que é a ciência das ciências. Mais tarde vamos falar dessa ciência, agora toquei no assunto só de passagem. E ajunto ainda: não há nada mais importante do que a oração, ou seja, devemos nos esforçar por ela o mais dedicadamente possível. Que Deus lhe ajude em tal esforço.

II. Desconcentração das idéias durante a oração (da carta 31).

O pensamento desconcentra-se durante a leitura das orações – O que fazer? Disso ninguém está livre. Mas aí não há pecado, e sim inoportunidade. Isso torna-se pecado quando alguém desenvolve idéias inoportunas propositadamente. E quando elas fogem despropositadamente, qual é a culpa? A culpa aparece, quando alguém repara que as idéias não estão no lugar e continua a desenvolvê-las.É preciso que seja assim: quando uma idéia começa a escapar, coloque-a logo no seu devido lugar.

Para que no tempo da oração, as idéias se desconcentrem menos é preciso concentrar-se em rezar com calor; e para isso – antes de começar as orações – é preciso aquecer a alma refletindo e fazendo vênias.

Habitue-se a rezar com as suas próprias palavras. Como por exemplo, as orações da noite consistem em: agradecer a Deus pelo dia e por tudo, com que se encontrou durante o dia, de bom ou de mau. É preciso ter penitência por tudo que foi feito de mau durante o dia, pedir perdão, prometendo modificar-se no dia seguinte e pedir a Deus defesa durante o sono. Diga tudo isto a Deus do seu pensamento e do seu coração. As orações da manhã consistem em: agradecer a Deus pelo sono, pela renovação das forças e pedir-Lhe que durante o dia a ajude a fazer tudo em Sua glória. E isso diga a Ele de todo o seu coração e pensamento. E também, de manhã e à noite, diga a Deus as suas necessidades, mais as da alma, e se for preciso as exteriores, dizendo-Lhe como uma criança: – Senhor, vês a minha fraqueza e falibilidade, ajuda, e cura-me! Tudo isso ou do gênero pode ser dito perante Deus pelas suas próprias palavras não recorrendo ao livro de oração. E isso pode ser melhor. Experimente, se der resultado, pode deixar o livro de oração, se não der, é preciso rezar com o livro, se não a oração pode acabar completamente sem sentido.

Para rezar pelo livro e se concentrar nas idéias e aquecer o coração, é preciso tempo livre – além de rezar, sente-se e medite bem sobre o conteúdo de cada oração e sinta-as. Quando começar a lê-las depois disso na oração – da manhã ou da noite – todos os sentimentos e idéias que conseguiu obter enquanto refletia, vão se renovar e aquecer o coração. Nunca leia orações apressadamente. E mais: esforce-se por aprender orações de-cór. Isso ajuda muito a não se distrair durante a oração. E é preciso aprender a rezar como a qualquer outro trabalho.

III. Arrefecimento. (da carta 42).

O inimigo desta disposição radical, consequentemente o inimigo mais grave, você definiu bem-o arrefecimento. Ó coisa mais amarga! Mas saiba que nem toda a diminuição de calor é o destruidor do arrefecimento. Ele pode aparecer em consequência da queda de forças físicas, ou doença. Tanto uma como outra – não faz mal, passa. Grave é o arrefecimento que resulta do prepositado desvio à vontade de Deus, com paixão a algo que não é divino, em oposição à consciência que nos tenta explicar e fazer parar. Isso amortece o espírito e corta a vida espiritual. É isso que deve temer mais, tema como o fogo, como a morte. Ele pode resultar em consequência da perda de atenção em si e a perda do temor de Deus. A isso tenha atenção para evitar tamanho mal. O que diz respeito aos casos de arrefecimento despropositado, resultante da queda de forças ou doença, existe uma única regra: aguentar, não infringindo os habituais costumes pios, mesmo que eles sejam feitos sem nehum gosto. Quem aguenta isso pacientemente, afasta-se logo do arrefecimento e o coração volta a ter o habitual zêlo. Tome isso em atenção e mantenha a partir de agora duas coisas em mente: em primeiro lugar, de maneira nenhuma deixar arrefecer o seu zêlo, e em segundo, em caso de arrefecimento despropositado – puxar e puxar pelos costumes habituais tendo a certeza que essa realização fria das coisas vai fazer voltar a vitalidadde e o calor do esforço.

IV. A oração curta (da carta 42).

Para ser mais fácil habituarmo-nos a lembrar sempre de Deus, os cristãos zelosos têm uma maneira especial, concretamente – repetir sem parar uma curta oração – de duas ou três palavras. A maior parte das vezes ela é ” Senhor, tem piedade! ” – “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim pecador! .” Se você nunca ouviu falar disso, ouve-o agora e se nunca agiu assim, comece então desde já.

V. O tempo necessário para a radicação

da constante lembrança de Deus (da carta 43).

Inspiro-a! Comece dedicadamente e continue sem interromper – logo alcançará o que procura. Estabelecer se há uma venerante atenção unicamente em Deus- e com ela virá a paz interior. Digo: logo, entretanto, não será depois de um dia ou dois. Será preciso meses se não forem anos!Peça a Deus, e Ele Próprio a ajudará.

VI. A oração como regra (da carta 49).

Você pergunta sobre a regra da oração. Sim, é preciso ter regra, devido à nossa fraqueza, para que de um lado a nossa preguiça não se estique e do outro o nosso zêlo se mantenha em medida. Os mais nobres da oração tinham regra e mantinham-na. – Cada vez eles começavam pelas orações estabelecidas, e se depois lhes ia ao encontro a oração independente eles deixavam-nas e rezavam com a sua própria oração. Se eles assim faziam quanto mais nós o temos que fazer. Sem orações estabelecidas nem sabemos mesmo como rezar. Se elas não existissem ficaríamos mesmo sem oração alguma.

Entretanto, não é preciso arranjar muitas orações. Um número pequeno de orações rezadas como devem ser, é melhor do que muitas orações rezadas com pressa, o que é dificil de aguentar, se a sua quantidade não é à medida do esforço.

Para si acho inteiramente suficiente a realização, de manhã e à noite, das orações que estão estabelecidas nos livros, as da manhã e antes de deitar. Só que tente lê-las cada vez com a máxima atenção e respectivos sentimentos. Para ter mais progresso nisso, no tempo livre esforce-se por lê-las todas, considerar e sentir, para que quando começar a lê-las na sua regra da oração, lhe sejam conhecidos os pensamentos e sentimentos sagrados que se encontram nelas. Oração não significa apenas lêr as orações, mas sim, reproduzir em si o seu conteúdo , e dizê-las como se elas viessem da nossa mente e do nosso coração.

Depois de considerar e sentir as orações, esforce-se por decorá-las para já não se preocupar com o livro e com a luz quando chegar o tempo da oração, para que no tempo da sua execução, não se distraia com o que os olhos vêem, e para que seja mais favorável o contato interior com Deus. Você verá o muito que isso ajuda. E também é muito importante o fato de que em qualquer lugar ou situação é como se tivesse o livro de oração consigo.

Preparando-se assim, quando rezar, preocupe-se em guardar o seu pensamento das vaporizações (de idéias) e o seu sentimento da frieza e indiferença, tentando de todas as maneiras concentrar a atenção e aquecer o sentimento. Depois de cada oração faça vênias, quantas achar necessário, com a sua palavra sobre a necessidade que sinta ou com a habitual oração curta. Com isso o tempo de oração prolonga-se, mas a sua força aumenta. Reze mais tempo por si, principalmente quando acabar as orações escritas, pedindo perdão pela distração despropositada, e entregando-se a Deus para todo o dia.

Também durante o dia deve manter a oração com atenção a Deus. Para isso, como já foi dito várias vezes – lembrança de Deus, e para isso – a oração curta. É bom, muito bom aprender de cór alguns salmos e lê-los durante o trabalho ou entre os trabalhos, as vezes em vez da oração curta, refletindo. Isto é um costume dos antigos cristãos posto em prática ainda por São Pakórnio e Santo Antônio.

Passando assim o dia, reze à noite com mais atenção e dedicação, aumente as vênias, e os seus pedidos a Deus e de novo entregando-se a Deus vá se deitar com a oração curta na língua, e adormeça com ela ou com a leitura de algum salmo.

Que salmos deve decorar? Decore aqueles que lhe cairem no coração quando os lêr. Para uns, certos salmos têem mais estímulo do que outros. Comece por: Tem misericórdia de mim, ó Deus (salmo 50 (51), depois, Bendize ó minha alma ao Senhor (salmo 102 (10), Louvai ao Senhor ou minha alma (salmo 145 (146), – os salmos que se cantam na liturgia; – ainda os salmos iniciais das orações antes da santa comunhão: O Senhor é meu pastor (salmo 22 (23), Do Senhor é a terra e a sua plenitude (salmo 23 (24)), Amo ao Senhor porque ele ouvio a minha voz (salmo 115 (116), o primeiro salmo Apressa-Te Deus em me livrar (salmo (69/70, os salmos das horas… entre outros. Leia o livro dos salmos e escolha.

Decorando tudo isto você vai permanecer com o armamento todo de oração. Quando aparecer algum pensamento que a confunda, tenha pressa em se direcionar ao Senhor, com a oração curta ou com a leitura de algum salmo – especialmente: Apressa-Te Deus em me livrar.. e a nuvem que a confunde desaparece logo.

Aí tem tudo sobre a regra da oração, e ainda repito: – lembre-se, que tudo isto é para facilitar, o mais importante é – permanecer conscientemente perante Deus no seu coração, com veneração e cair aos seus pés com dôr.

VII. Regra da oração formada pela oração curta (da mesma carta).

Veio-me à cabeça dizer-lhe mais isto! Pode limitar a sua regra da oração apenas com vênias, a oração curta e as suas próprias palavras. Comece a fazer vênias dizendo: Senhor, tem piedade! ou outra oração expressando a sua necessidade, louvor ou agradecimento a Deus. Para que a preguiça não entre nisso, é preciso determinar a quantidade de orações, ou o tempo que a oração deve durar, ou uma e outra coisa juntas.

Isso é indispensável porque todos nós temos uma singularidade incompreensível. Quando, por exemplo, estamos ocupados com algo exterior, as horas passam num minuto, mas quando começamos a rezar, nem um minuto passa e já nos parece que estamos rezando por muito tempo. Essa idéia não é prejudicial quando a oração é realizada segundo uma regra estabelecida. Quando alguém reza só fazendo vênias e dizendo a oração curta, aí apresenta-se uma grande tentação, pode fazer parar a oração que mal começou, deixando uma falsa certeza de que a oração foi como deve ser. Por isso os oradores benévoles para não se submeterem a essa mentira inventaram o rosário, que se oferece para uso a aqueles que não querem rezar pelo livro mas, por si. Utiliza-se ele assim: dizem -Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim pecador, ou pecadora e passam um rosário entre os dedos, dizem outra vez e passam outro e etc- durante cada oração fazem uma vênia, baixando-se ou caindo ao chão, como quiserem ou então nos rosários pequeninos baixando-se e nos rosários grandes caindo ao chão. Aí a regra baseia-se num determinado número de orações com vênias, onde podem entrar outras orações ditas pelas suas palavras. Para que aí não se deixe enganar pela pressa, ao dizer as orações e a fazer vênias, ao determinar a quantidade de vênias, determina-se também o tempo de oração, para cortar com a pressa, e se ela aparecer complete o tempo acrescentando novas vênias.

Quantas vênias devemos fazer por cada oração, nós temos no livro Sliedovannaia psaltir: no final, e em duas proporções – para os dedicados e para os preguiçosos ou ocupados. Os monges experientes que ainda hoje vivem em dependências de conventos em celas características. Por exemplo: no Valaani ou Solovki, realizam assim todas as missas. Se quiser, ou se alguma vez quiser, pode realizar a sua regra dessa maneira. Mas primeiro esforce-se por realizar como está escrito, pode ser que não haja necessidade de estabelecer uma nova regra. Mas para qualquer caso mando-lhe um rosário. Você faça assim! Repare quanto tempo passa durante as suas orações da manhã, e da noite, depois sente-se, diga a sua oração curta pelo rosário, e veja quantas orações diz durante o tempo que costumava ser preciso para a oração. Esse número que seja a medida da sua regra. Não faça isso durante as orações mas faça com a mesma atenção. Depois realize a sua regra de pé e fazendo vênias.

Ao lêr isto, não pense que a estou a mandar para o convento. Sobre a oração pelo rosário eu própria ouvi pela primeira vez de uma pessoa da sociedade e não de um monge. Muitos homens e mulheres rezam assim. Isso lhe vai ser preciso. Quando rezar com orações que decorou, de outras pessoas, e não a comover, pode rezar desta maneira um dia ou dois, depois reze outra vez com as orações que decorou, e assim – alternadamente.

E ainda repito: A natureza da oração consiste em erguer a mente e o coração para Deus. Estas regras são para ajudar. Não podemos passar sem elas, somos fracos.

VIII. A indispensabilidade de se esforçar

bastante antes que veja resultado (da carta 48).

Escreve-me que não consegue organizar os seus pensamentos, fogem todos e a oração não vai como gostaria que fosse; e de dia entre outras ocupações, encontros com outros, quase não se lembra de Deus.

Não pode ser de repente, é preciso esforçar-se bastante para colocar os pensamentos no lugar, pelo menos um pouco; da maneira como você o esperava: mal começa já tem tudo, – nunca acontece.

IX. É indispensável se forçar a rezar. (da mesma carta).

Você tem um livro de conversas do santo Macário do Egito. Leia a conversa número 19 – sobre o fato de que os cristãos precisam se forçar para qualquer boa ação. Aí está escrito que “é preciso se forçar a rezar se não tem oração de espírito,” e que “nesse caso Deus vendo que a pessoa se esforça muito e que se prende contra a vontade do seu coração, (ou seja, prende os seus pensamentos) dá-lhe a verdadeira oração,” ou seja sem distração, organizada, profunda, quando o pensamento não se afasta de Deus. Mal o pensamento começa durante a oração, comece a estar com Deus sem se afastar, já não vai querer se distanciar Dele, porque com isso está ligada uma espécie de doçura, da qual você prova e não quer outra.

O esforço que se deve utilizar aqui exatamente, já o disse várias vezes: não soltar os pensamentos propositadamente, e quando fugirem sem que o queira, voltar a pô-los no lugar, repreendendo-se com arrependimento e mágoa por tal desorganização. O Santo Klimacus, sobre isso diz que “é preciso fixar o seu pensamento forçosamente nas palavras da oração.”

Quando decorar as orações como lhe escrevi na carta anterior, pode ser que a coisa vá melhor. O ideal seria ir à Igreja, aí se abriria mais facilmente o espírito de oração, porque aí está tudo direcionado para isso; mas para si isso não dá jeito. Então esforce-se em casa por aprender a rezar sem distração e o resto do tempo permanecer com Deus quanto puder. Decorando as orações, não se esqueça de se aprofundar em cada palavra e sentí-la, assim quando rezar, essas palavras vão atrair a sua atenção e aquecer o sentimento da oração.

X. Preparação para a oração (carta 48).

Faça ainda isto. Não se ponha a rezar de repente, depois dos deveres da casa, conversas, corridas, mas preparando-se um pouco para estar devidamente perante Deus.

Estabeleça em si um sentimento de necessidade de orar exatamente nessa hora, porque pode não haver outra. Não se esqueça de renovar na consciência as suas necessidades espirituais, e mais próximo a sua necessidade atual – concentração dos pensamentos na oração, com o desejo de encontrar consolação para elas, – unicamente em Deus. Quando tiver no coração a consciência e sensação destas necessidades, Ele Próprio não deixará os pensamentos fugirem, mas a obrigará a rogar ao Senhor por eles. Mais que tudo você sentirá a sua inteira incapacidade, que se não fosse Deus estaria completamente perdida. Se alguém está em perigo, e tem perante si a face capaz de o livrar desse perigo, será que apesar disso vai olhar para os lados? Não cairá perante ela e rogará? Assim será consigo quando começar a oração com o sentimento de que está em perigo e consciente de que unicamente Deus a pode livrar desse perigo.

Por trás de todos nós existe um pecado – qualquer trabalho, por menor que seja, começamos com alguma preparação, mas a oração começamo-la de passagem – e temos pressa em acabá-la como se fosse um trabalho de passagem à parte de todos os outros, e não o mais importante deles. De onde é que quer conseguir a concentração das idéias e sensações durante a oração nessas circunstâncias? É por isso que ela corre à balda, desorganizadamente.

Não – faça o favor de negar a si nesse pecado, e de nenhuma maneira reze só de passagem. Meta na cabeça que essa relação à oração é um crime, um crime horrível – penal. Considere a oração como o primeiro dos seus deveres, e tenha-a assim no coração. Então comece a oração como o primeiro dever e não como um entre outros.

Esforce-se, Deus será seu ajudante. Mas atenção, tem que realizar aquilo que vos é escrito. Se começar, logo-logo verá o fruto. Esforce-se por sentir a doçura da verdadeira oração. Quando sentir, isso vai atrair e inspirá-la para a oração, difícil e atenciosa.

XI. Ocupações da vida. (da carta 49).

Nós temos uma credibilidade, que é quase geral, de que mal começamos os trabalhos de casa, ou fora, saimos da área dos trabalhos divinos ou que agradem a Deus. Por isso quando nasce o desejo de se louvar à Deus ou se fala nisso, normalmente junta-se com isso a idéia de que é assim, tem que fugir da sociedade, fugir de casa – para o deserto ou para a floresta.

Mas nem uma coisa nem outra é assim. Os deveres da vida e da sociedade, dos quais depende a existência de casas e comunidades, foram estabelecidos por Deus e a sua realização não é uma fuga para a área que não agrada Deus mas sim, a de caminhar em deveres divinos. Tendo essa falsa credibilidade, todos agem assim, preocupados com os deveres da vida e da sociedade, não se preocupando nem um pouco de pensar em Deus. Vejo que essa credibilidade se apoderou de ti. Faça o favor de se livrar dela, e aumente a certeza de que tudo o que você faz agora,em casa ou fora, como filha, como irmã e como cidadã, é divino e agrada a Deus; porque para tudo relacionado com isso existem os próprios mandamentos. E o seguimento deles, como pode não agradar a Deus? Com essa credibilidade você torna-os desagradáveis para Deus, porque não os realiza com a disposição que Deus desejava que eles fossem realizados. Você não está a fazer trabalhos divinos divinamente. Eles perdem-se de graça – e ainda afastam o pensamento de Deus.

Corrija isso, e a partir de agora comece a fazer todos esses deveres com a consciência de que para fazê-los – existe um mandamento e faça como cumpre um mandamento de Deus. Se pensar assim, nenhuma ocupação de vida vai afastar seus pensamentos de Deus, mas, pelo contrário, vai aproximá-lo a Ele. Todos somos escravos de Deus. A cada um Ele deu um espaço e um dever, e observa como é que cada um o cumpre. Ele está em todo o lado, e também olha por ti. Tenha isso na cabeça, e faça cada dever como se lhe fosse ordenado por Deus. Qualquer que seja esse dever.

Faça assim as coisas da casa. Quando vem alguém de fora ou você vai para fora, tenha na cabeça em primeiro lugar que, foi Deus quem lhe mandou essa pessoa e observa se você a recebe ou age com ela divinamente, e em segundo – que Deus lhe confiou esse trabalho fora de casa, e observa se você o faz como Ele quer que o faça. Se você se dispuser assim, nem os deveres da casa, nem os de fora, vão distrair a sua atenção em Deus, pelo contrário, vai segurá-la junto Dele, e fazê-la refletir como fazer determinado trabalho para agradar a Deus. Vai fazer tudo temendo Deus e esse temor vai segurar o seu pensamento inseparável Dele.

Faça o favor de acertar bem o que é que agrada a Deus, dentro ou fora da família, utilizando para se orientar, livros nos quais estão indicados os deveres obrigatórios para cada lugar. Acerte isso bem -para que nas atuais regras de vida e da sociedade, possa reconhecer o que foi trazido pela confusão, paixões e adultério. Depois da sua tomada decisão de louvar a Deus, é lógico que se afaste disso, sem precisar que a lembrem.

XII. Despertar no coração algum sentimento por Deus (da carta 52).

Gostaria de entrar mais depressa nesse paraíso? Faça o seguinte: não deixe a oração enquanto não despertar em si algum sentimento por Deus seja: veneração, agradecimento, magnificidade, humildade, quebrantação ou esperança…

XIII. Negligência e pressa durante a oração (da carta 71).

Onde é que se foi a sua oração? Ela parecia ter começado bem e você até já sentia a sua boa ação no coração. Eu vou lhe dizer onde é que ela se foi. Tendo rezado uma ou duas vezes com esforço e calor, e no Santo Sérgio e tendo sentido uma rápida ajuda em consequência da oração, você pensou que a sua oração já se tinha fixado e que não tem necessidade de se preocupar muito com ela: que ela vai bem por si mesma. Dando lugar a tal idéia, você começou a rezar negligente e apressadamente e deixou de prestar atenção aos pensamentos. Por isso a atenção foi diminuindo, os pensamentos dispersavam-se para todo o lado, e a oração não era sentida no coração. Agiu assim uma ou duas vezes e a oração desapareceu por completo. Comece a oração novamente e peça por ela ao Senhor.

XIV. Ainda sobre a pressa na oração (da mesma carta).

Suponho que tenha começado a realizar apressadamente a sua regra de oração, – à balda, só para a cumprir. – Imponha desde agora como lei – nunca rezar à balda. – Nada ofende tanto o Senhor como isso. É preferível não lêr as orações todas que devia, mas lêr com temor a Deus e veneração do que lêr tudo à balda. É melhor lêr só uma oração ou, caindo de joelhos, rezar por suas palavras do que agir assim. Começou a rezar dessa maneira, por isso não tem fruto. Faça o favor de se repreender por tal negligência. Tenha em mente que ninguém dos que rezam com atenção e esforço não deixam a oração sem sentir o seu efeito. Grande é o bem do qual nos privamos, deixando de rezar negligentemente.

XV. A regra de oração dependente

de uma duração determinada (da mesma carta).

De onde aparece a pressa durante a oração? Parece incompreensível. Entre outros deveres, passam horas,e não parece muito- mal nos pomos a rezar, logo parece que lá estamos há muito tempo, e então começamos a apressar para acabar mais rápido. A oração assim não tem sentido nenhum. O que se deve fazer para não cair nessa mentira? Fazem assim: Destinam para a oração um quarto de hora, ou meia hora, ou uma hora, como lhes der mais jeito, assim o som do relógio – passada meia hora ou uma hora – lhes dá sinal sobre o final da oração. Dessa maneira, começando a rezar não se preocupam em lêr tantas orações, mas em se dedicar a Deus no tempo estabelecido. Outros, determinando para si o tempo da oração, procuram saber quantas vezes podem passar o rosário calmamente. Assim pondo-se a rezar, vão passando o rosário sem pressa um determinado número de vezes e, nesse tempo, em mente estão perante Deus ou conversam com ele em próprias palavras ou lêem algumas orações ou, nem uma coisa nem outra, simplesmente fazem vênias perante a sua imensa glória. Tanto uns como outros aprendem a rezar de maneira a que esses minutos para eles se tornem agradáveis. E é raro quando eles rezam apenas no tempo determinado, mas geralmente duplicam e até o triplicam. Escolha uma dessas maneiras e segure-se a ela sem largar. Não podemos passar sem determinadas regras. Os oradores que se esforçam há muito é que já não precisam de regras.

Já lhe escrevi que decorasse orações e começando a rezar, as lesse de cór sem pegar no livro. Isso é bom, começando a rezar, leia a oração ou o salmo que decorou e receba cada palavra não só com a mente mas também com o sentimento. Se alguma palavra da oração despertar os seus suspiros para Deus, não os corte, deixe-os continuar. A sua preocupação não é lêr tanto ou tanto mas é apenas estar na oração um determinado tempo que você vai saber ou pelo relógio ou pelo rosário. Não há necessidade de lêr apressadamente, mesmo que leia só uma oração ou um salmo durante o tempo todo, não faz mal. Um indivíduo contou que acontecia muitas vezes durante o tempo todo que se tinha determinado para a oração, lêr apenas o – Pai nosso. Porque cada palavra se tranformava numa oração. Outro disse que quando lhe contaram que se pode rezar assim, ele passou todas as matinas em oração venerante, lendo – Tem misericórdia de mim, ó Deus, e não teve tempo de concluir o salmo.

XVI. Oração – a raiz de tudo (da mesma carta).

Tem que se habituar a rezar assim, e se Deus quiser em breve vai desenvolver em si a oração. Aí já não será preciso regra alguma. Esforce-se, se não, não vai prestar para nada. Se não tiver progresso na oração, não espere progresso em mais nada. Ela é a raiz de tudo.

XVII. Ainda sobre a indispensabilidade da oração por

próprias palavras (da carta 79).

Tudo é de Deus. A Ele é que temos que recorrer. E você escreve que não reza. Muito bem! Você resolveu ser muçulmana ou quê?! Como não rezar? Você não precisa ler orações escritas, – mas diga-Lhe em suas próprias palavras o que tem na alma e peça ajuda. Vês Senhor o que se passa comigo? Isto e aquilo, não consigo suportar. Ajuda-me Todo-misericordioso! Diga-Lhe cada bocadinho da sua necessidade, e para tudo peça a ajuda correspondente. E essa será a verdadeira oração. Pode rezar sempre com a sua oração, não lendo orações escritas, não pode é haver indulgências e preguiça.

XVIII. Conselhos individuais, idéias e indicações de outras cartas.

  1. …Não se pode ocupar apenas de coisas espirituais: é preciso arranjar um trabalho manual. Mas deve fazê-lo quando a alma está cansada e não está em condições de lêr, de pensar e nem de rezar … (da carta 3).
  2. …Antes de começar a oração e depois de acaba-la, reze com as suas próprias palavras, e nos intervalos entre as orações coloque as suas palavras … (da mesma carta).
  3. …Insista ao Senhor, à Mãe de Deus e ao seu Anjo da guarda … (da mesma carta).
  4. …O Senhor não é procurador de retalhos … (da carta 38).
  5. …Pode haver inclinação para a direita e para a esquerda. O primeiro caso é zêlo sem raciocínio. O segundo – é preguiça.
  6. …Por isso tem sempre lugar a oração: segundo os destinos, conhecidos por Ti, salva-me!…(da mesma carta).
  7. …O progresso não vem de repente é preciso esperar. Tudo vem com o tempo. O fato de que isso acontece assim, está provado por experiências de pessoas que procuravam e criavam a salvação … (da carta 43).

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Missionary Leaflet # P01a

Copyright (c) 1999 and Published by

Holy Protection Russian Orthodox Church

2049 Argyle Ave. Los Angeles, California 90068

Editor: Bishop Alexander (Mileant)

Fonte: http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/oracao_teofano.htm





Os elementos essenciais da vida monástica

12 08 2015

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A semente foi plantada quando este artigo BECOSA começou a explorar a possibilidade de um instituto monástica na região sul Africano. Este era para ser um lugar de formação contínua e educação de monges e freiras em nossa região. Nós convidamos pensões como a melhor universidade Formadores beneditino e oradores experientes. No entanto, enquanto nós conversamos, chegamos a compreender que não podia ignorar o conhecimento e habilidade adquirida por membros de nossas comunidades. Quase todas as comunidades da nossa associação foi representada por pelo menos um dos seus membros para o programa MFP, e muitas vezes dois, três ou mais membros. Este programa visa atender às necessidades dos que trabalham na formação monástica ou estão se preparando para o futuro, beneficiando do ensino de alguns dos melhores mestres da vida monástica do nosso tempo. Mais de 300 monges e monjas de todos os continentes e diversas tradições monásticas frequentaram este curso. No verdadeiro sentido, é uma experiência de formação de formadores.

Com tantos membros com uma rica experiência de formação monástica, BECOSA Associação já tinha uma substância valiosa a partir da qual foi possível tirar sabedoria e pensamento monástica.

O que finalmente emergiu de nossas discussões foi perceber que a necessidade real era para conhecer o estado BECOSA exatamente o que a vida monástica. Quando expressamos nossas vidas, seja em palavra ou ação, o que vamos dizer? Como monges e monjas, o que podemos dizer sobre o que somos?

Assim, os antigos membros do MFP foram mandatados para expressar isso de uma forma que poderia ser discutida e aplicada em todas as nossas comunidades. Temos agora decidiu publicar este documento no site da AIM e de uma forma que permite que ele seja facilmente distribuído.

Este documento é tanto uma afirmação teológica e filosófica sobre a vida monástica. A vida monástica não é borrada. Ela tem uma definição e uma forma clara e inflexível, o monaquismo permanecendo igualmente empenhados com a vida. Esperamos que este documento em si uma expressão da vitalidade profunda e surpreendente está em jogo no coração do monaquismo.

Viver a vida cristã

Viva a vida monástica é “prefiro nada a Cristo” (RB 71, 11). Se queremos comunicar a essência da vida monástica para aqueles que se juntarem a nós ou ao público em geral, esperamos que esse princípio pode ficar como prova em que dizemos, em nosso modo de viver e o declínio para os outros. Em nossas comunidades, mantemos um ambiente que facilite essa preferência. As nossas comunidades são lugares onde “perfeito amor de Deus que lança fora todo o medo” é palpável (RB 7, 67; 1 Jo 4, 18).

Prefere nada a Cristo exige uma espécie de exploração de si mesmo, talvez uma busca do seu ser interior. Isso significa fazer perguntas sobre si mesmo, sua comunidade, aqueles que estão na inicial ou aspirar a juntar nossas comunidades.

– Como podemos conhecer o Cristo?
– Será que vivemos com Cristo e em Cristo?
– Quem é Cristo para nós?
– Onde posso encontrá-lo em vida monástica? E mesmo onde é que eu acho que para encontrá-lo na vida monástica?

A resposta a estas perguntas pode revelar muito sobre nós mesmos e nossas comunidades. Porque Cristo é o monge ideal para nós, e assim a nossa vida monástica nos configura com Cristo. A tradição monástica fornece-nos com a ajuda do Espírito Santo, de modo particular a imitar Cristo e permitir que Deus trabalhe e viva em nós e através de nós.

Aqueles que estão empenhadas em tornarcontínuo que dura desde o século 4, o desejo de viver como Deus quer, na sua graça e amor superabundante, como pode ser esperado de todos os cristãos.Monaquismo só escolheu para fazer isso com uma intensa consciência de servir a Deus como parte de uma comunidade e como sacerdote, régua e do Evangelho. Mas a vida cristã é a base para o desenvolvimento dessa consciência. A nossa vida cristã não pode ser separada da nossa vida monástica. Por isso, queremos levar a particularidade cristã autêntica e com zelo.

Viver a promessa baptismal

O nosso batismo nos une a Cristo, se por algum tempo após o nascimento ou, para outros mais tarde na vida. Isso significa que somos marcados como pertencentes a Deus, selado na vida e no ensinamento de Cristo, que se torna, assim, o nosso modelo. É a prova de fogo do que fazemos e dizemos.

O encontro com a Palavra de Deus

Cristo é a Palavra de Deus. Este é o título dado a ele. A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo. A relação com Deus é o ponto de partida para conhecer essa Palavra. Devemos estar dispostos a interagir com Deus, a escuta da Palavra de Deus e responder quando entrevistamos.

Oração

A vida monástica tem uma teologia preciso: o caminho pelo qual encontramos Cristo e implantar nossa oração. Se nós precisamos saber como orar, olhamos para Cristo como nosso mestre e exemplo. Ele é a oração especialista supremo. Em cada etapa de sua própria vida, ele se juntou a um lugar deserto para orar. Nós também pode viver a oração em cada passo de nossa jornada, e especialmente neste caminho monástica nos cristifica.

A vida monástica é mais uma disposição interior. O nosso comportamento exterior reflete a transformação que ocorre em nós. Como monásticos, podemos orientá-se neste jornada de exploração da vida monástica em Cristo, especialmente aqueles que estão em formação inicial.A vida monástica é continuamente voltar-se para Deus como a fonte da vida. Nossa fé deve ser uma experiência viva, que deve ter um significado especial para nós e não apenas um conceito ou doutrina. Nós nos evangelizar pela nossa fé. Nós acreditamos em nosso relacionamento com Cristo. Nós confio na Palavra e nós segui-lo.

Outros Sacramentos

Através da nossa fé, dos sacramentos revelar seu significado. Eles construir a nossa relação com Cristo e para a nossa comunidade. Eles expressam a vida que flui de Cristo. Por outro lado, a vida monástica marca a nossa vida sacramental, tanto ao nível da comunidade que a jornada individual. Nós vivemos os sacramentos em nosso caminho uns com os outros e em nosso caminho interior de conversão a Deus. Tudo isso é baseado em nosso relacionamento com Cristo.

Em vez de o Espírito Santo

Monges e monjas são portadores do Espírito. Marcamos o Espírito de Cristo em nosso batismo.Não somente nós cremos na Palavra através do Espírito Santo, mas também temos em nós mesmos. E, sendo portadores do Espírito, nós também somos detentores de Cruz. Nossa vida monástica está intrinsecamente ligada ao mistério pascal. Vivemos este mistério em nossas vidas diárias. Cristo nos deu o seu Espírito, através de sua morte e ressurreição. Nós também temos de tomar nossa cruz e seguir os seus passos.

Pertença a Cristo

Tudo o que temos descrito a vida cristã serve para mostrar que a nossa relação com Cristo é tão íntima e próxima que podemos nos manter longe da presença de Cristo. Nós pertencemos a Cristo. Não podemos fugir dessa realidade ou atrás de nós. Como monásticos, nós abraçamos a Cristo com todo o coração, toda a mente e com toda a nossa alma, e estamos no fogo com seu ensino e da sua vida.

Da teologia da ação (Prologue 20)

becosa13Bento descreve a comunidade como uma “escola de serviço do Senhor” (RB Prologue 45). A escola descrito por Bento é uma oficina onde habilidades de trabalho pode ser afinados e aperfeiçoada.O quadro espiritual da vida monástica deve passar de teologia para a ação. O que parece ser o layout interior na prática? No Prólogo da Regra, Bento XVI escreve: “O que é mais doce, queridos irmãos e irmãs, que a voz do Senhor nos convida! Veja: no seu amor, o Senhor mostra-nos o caminho da vida. Portanto, tomai a correia a fé ea prática de boas ações. Deixemo-nos guiar pelo Evangelho e seguir em frente nos caminhos do Senhor. Então, vamos merecem vê-lo que nos chama ao seu reino “(RB Prologue 19-21).

Para encontrar respostas para as questões acima mencionadas, este é verdadeiramente procuram Deus.

Assim, o nosso ponto de partida é a preferir nada ao amor de Cristo. Queremos viver como Cristo viveu. Queremos agir como Cristo é. Então, a nossa introdução à vida monástica é através de uma vida em Cristo, sob a liderança comprovada da Regra de São Bento. Nós passar esta vida através de nosso ensino e agir aqueles que, novo, vir até nós. Por exemplo:

– Se vivemos com o Evangelho para orientar a lectio deve ser praticado normalmente ea nossa vida monástica deve ser impregnado. Nossa lectio deve ser uma experiência vivida.

– A liturgia é vida para nós, porque é a vida vivida em Cristo. É a comunidade que reza unida. A nossa liturgia deve ser realizado em conexão com a maneira como vivemos a nossa vida comunitária.

– A comunidade é a nossa vida de comunhão. Nós desenvolvemos relacionamentos com nós como Cristo, e este tecido relacional deve ser sentido na nossa maneira de viver a vida monástica.

– Nosso trabalho é a nossa missão. É o nosso apostolado.

– E, finalmente, a conversão deve ser uma experiência que vivemos no fundo de nós mesmos. A conversão é uma transformação nas profundezas do nosso ser e deve ser refletida em nosso modo de vida em Cristo. Nossa conversão é visto pelos outros, e às vezes pode surpreender-nos por isso estamos juízes pobres em relação a nós mesmos.

Lectio

Ouvir é o primeiro passo em nosso relacionamento com Deus. Este é o ponto crucial da introdução à lectio divina . A lectio tornou-se uma das atividades centrais de um monge porque ela nos permite “ouvir com o ouvido de nosso coração” (RB Prologue 1). Em nossa prática da lectio , desenvolvemos fé e confiança no fato de que a Palavra de Deus é Espírito e Verdade. Esta verdade é evidente na forma como nós deixar que a Palavra nos movemos e nos transforme. Nós ouvir e traduzir em ação o que Deus diz na Bíblia pela fé.

A prática da lectio é “buscar o coração de Deus na Palavra de Deus” (Gregório Magno). É por meio das escrituras que passamos a conhecer o Deus que nos ama. Nós ler devagar, metodicamente, com cuidado e repetidamente para encontrar Cristo, e deixe-nos ensinar como seus discípulos. Assim, a maneira que nós somos ensinados, inspirado, confortado e desafiado pelo Evangelho torna-se uma parte da jornada da nossa vida, com as realidades que enfrentamos e os dons que recebemos. A conclusão da Regra (RB 73), os capítulos sobrelectio , obediência e trabalho de Deus, podemos alimentar uma espiritualidade da Palavra em ação.

De qualquer forma, nossa jornada iluminada pela Bíblia não é apenas individual. Nós temos que compartilhar a Palavra com os outros. Quando podemos, tentamos encher nossos pensamentos textos bíblicos.

Liturgia

A liturgia, num contexto monástica é uma liturgia viva, não apenas um desempenho ou uma rotina obrigatória. Ele é para nós escola de oração. Imitamos Cristo na oração com ele. Porque ele próprio usou os Salmos em sua própria relação com o seu Pai, que faria seu grito na cruz (Salmo 22). O mistério pascal está vivo em nós através da adoração que fazemos juntos em comunidade. Assim, temos de aprender a orar por ele, ao participar activamente no que dizemos e fazemos juntos como uma comunidade. A preparação e reflexão tornar-se aspectos cruciais deste esforço. A oração individual é a base dos nossos salmos “para que a nossa mente está de acordo com as nossas vozes” e vice-versa (RB 19, 7). Use a liturgia de elementos, especialmente os Salmos, na nossa oração pessoal pode ser eficaz o suficiente para este culto vivo.

Os Salmos são a peça central de nossa Opus Dei . Como monásticos, tentamos entender qual o papel que eles desempenham em cada escritório e em nossas próprias vidas. Temos de ser capazes de ensinar as pessoas a rezar os salmos, transmitir valor e ver o que eles significam para nós e para o mundo.

Nós compartilhar e celebrar a nossa fé no Opus Dei . Na Eucaristia com Cristo e uns com os outros, começamos a descobrir a beleza da adoração desde que introduzimos nosso próprio corpo dessa beleza. Enquanto a liturgia torna-se um ato sagrado que imita Cristo e seus ensinamentos. O que fazemos como Igreja de Cristo é a nossa resposta ao seu sacrifício de amor. A comunidade que reza unida expressa gratidão para com o amor de Deus para toda a criação.

Comunidade

Esperança, fé, amor e caridade: se um ou outro ponto está faltando em nossa vida comunitária, então nossas comunidades começam a avaria. Todas essas características devem estar presentes em uma comunidade e amor centrado em Cristo que contém tudo. E, como diz Paulo, “o maior de todos os dons é amor” (1 Cor 13, 13).

Como dissemos acima, a vida comunitária é uma vida de comunhão, não só entre si mas também com Deus. É a Eucaristia que nos faz viver corpo de Cristo. A comunidade é realmente “a escola de serviço do Senhor”, onde todos nós trabalhamos juntos na arte de servir a Deus. Servir não é nada mais do que uma expressão de amor.

Todos os capítulos da Regra de São Bento que lidar com diferentes funções no mosteiro – o abade, o despenseiro, mestre de noviços, o hoteleiro, pessoas idosas, etc. – Intimamente refletem o serviço a que Jesus nos chama a todos, pelo seu próprio exemplo e seu novo mandamento de amar uns aos outros como ele nos (João 13 RB 2, 21, 31.35.38.53.57.58.65 e outros) amei .

No serviço, obediência – e muito menos obediência mútua (RB 5, 71) – desempenha um papel crucial. Nós usamos um ao outro através da obediência em comunidade. Assim, começamos a ver toda a vontade de Deus (RB 3). A Eucaristia é o sinal sacramental da nossa vida comunitária, uma vez que constrói a nossa vida comunitária da mesma forma que cria uma teologia da comunidade. Amor, intimidade, amizade e afeto são as características deste tipo de comunhão. Nós confio e acredito na unidade da nossa comunidade que permite desenvolver o diálogo ea comunicação. Em uma comunidade de fé e amor, estamos comprometidos com a estabilidade (que é um dos três componentes do nosso votos monásticos e obediência, RB 58).

Para facilitar esse compromisso, é importante para uma comunidade monástica para saber sua história e de ser capaz de receber a partir dele como muito do que vem de seu sucesso com os seus erros.

A fim de facilitar também o engajamento, a comunidade deve ter uma boa compreensão do verdadeiro lugar de disciplina e as regras que regem a vida da comunidade. A correção fraterna é necessário e saudável, desde que esse direito é exercido com bondade e leva à reconciliação e do perdão.

O principal fundamento da cultura em comunidade é o Evangelho ea Regra de São Bento oferece um caminho que tem provado a viver o Evangelho. Esta é a cultura que temos recebido como monges e monjas. Não há outras considerações não deve substituir isso.

Trabalhando

O trabalho em nossas comunidades devem, espero, ter qualidades em termos de recepção e missão. Além disso, como afirmou Benoît, não devemos ter medo de sujar as mãos. Na medida do necessário, o trabalho manual é parte da nossa vida (RB 48, 8). E qualquer trabalho que fazemos, esta é mais uma maneira de construir a comunidade. Nós trabalhamos para o desenvolvimento humano, para outros, bem como o nosso. Como artesãos, participamos como co-criadores e colaboradores na construção do reino de Deus.

Conversão

becosa14grpQuando fazemos profissão monástica, conversão de vida representa a terceira parte do nosso pensamento. Esta dimensão implica que nós aceitamos a ser liderado por Cristo, que morreu por nós, para que nos tornemos novas criaturas em si (1 Cor 5: 14,17). O Espírito Santo não é apenas aquele que nos cria, mas também é aquele que constantemente nos recria.Tornamo-nos novas criaturas em descobrir o amor de Deus por nós, para que possamos amá-lo (1 Jo 4, 19).Crescimento e mudança são como o fruto dessa vinda de amor em nossos corações (Rm 5, 5). Como já foi dito, esta irrupção é servido principalmente pelo nosso batismo. Assim, lembre-se nosso convênio batismal nos ajuda a permanecer confiante no meio das mudanças necessárias e cruciais que Deus pode possivelmente chamar.

A conversão envolve não apenas a transformação, mas também humildade. Capítulo 7 da Regra de São Bento é um excelente guia para abrir-nos aos impulsos e movimentos do Espírito em nós. Humildade, por vezes, requer uma mudança radical quando sairmos dos nossos próprios caminhos para colocar a comunidade em primeiro lugar nas decisões que tomamos. Temos muito a aprender uns com os outros, especialmente aqueles que tomaram este caminho antes de nós e até mesmo aqueles que virão depois de nós. Benedict enfatiza a importância de consultar os membros mais jovens da antiga, bem como da comunidade e perguntar-lhes sobre o que pensam ou sabem porque “o Senhor muitas vezes descobre um irmão mais novo como é o melhor “(BR 3, 3). É preciso humildade para admitir os limites de nosso conhecimento e necessidades da comunidade e Deus.

Bem como a estabilidade ea obediência andam de mãos dadas, obediência e conversão estão intimamente relacionados entre si, tornando as três partes do mesmo todo um voto aninhada para que complexo. Bento não vê-los como três saudações diferentes, mas como partes da mesma promessa. New chegar em nossas comunidades para entender completamente o significado do voto e que o compromisso realmente significa para eles. Portanto, é importante que um recém-chegado a ler todo o capítulo 58 e repetidamente. O discernimento de conversão é um requisito importante. Este é desejar o puro leite espiritual, para que o crescimento pode acontecer a salvação (1 Pedro 2: 2). Alguns documentos podem ajudar a entender o compromisso:

– O Rito de Iniciação Cristã para adultos católicos traça o caminho de um reengajamento vida cristã das promessas batismais.

– O ritual de batismo no livro de orações Anglicana da Igreja Anglicana da África do Sul ou o livro de oração comum da Igreja da Inglaterra ea da Igreja Episcopal dos Estados Unidos pode ser uma outra fonte documentação importante.

Este ritual lembra-nos as promessas que fazemos, ou que outra pessoa deu em nosso nome, quando nós entrarmos na igreja cristã. Nosso voto monástico é mais uma realização de nosso batismo. Assim, o treinamento na vida monástica é realizada até mesmo durante o curso de um aspirante, que pode precisar de um pouco de catequese e de formação para o espírito monástico. Uma boa base cristã é vital para a vocação de um recém-chegado.

A conversão também afeta vários outros aspectos de nossa vida em comunidade:

– O sacramento da reconciliação não é simplesmente uma maneira para nós para lavar os nossos pecados, mas uma oportunidade de conversão.

– Repetir: correção fraterna pode ser uma fonte eficaz de conversão, uma vez que é feita de forma amigável.

– Além do Capítulo 7, Secção 4 de Regra de São Bento para nós muito claramente listar as ferramentas de conversão. Este capítulo pode iluminar grandemente os meios de obtenção de “puro leite espiritual” que assim o desejarem.

– O desenvolvimento humano e espiritual deve contribuir para o nosso crescimento na salvação. Quando crescemos, é como uma pessoa em todas as suas componentes.

– A auto-consciência não pode ser uma ferramenta de conversão óbvio, mas temos que ser consciente o suficiente para ser monges e monjas. A vida monástica é uma vida de plena consciência. Nós nunca conscientemente manter maus hábitos.

A motivação para buscar a Deus

No capítulo 58 da Regra de São Bento, ele disse que não deveríamos dar uma entrada fácil para novos candidatos na vida monástica. Devemos “procurar saber se o espírito com que eles vêm de Deus” (RB 58, 1; 1 João 4: 1). Esta declaração mostra como São Bento quer que sejamos cuidadosos com a formação dos recém-chegados. Ele também diz que “nós damos-lhes um ex-irmão, capaz de levá-los a Deus. Este irmão está cuidando deles com muito cuidado. Ele vai olhar atentamente para o recém-chegado. Será que ele realmente procura a Deus? Ele é ansiosamente aplica ao serviço de Deus, obediência, testes que fazem humilde? “(RB 58, 6-7). Os treinadores das nossas comunidades têm na maioria dos casos uma responsabilidade grande e até mesmo muito importante da vida monástica. Bento é muito clara sobre isso no Capítulo 58 da Regra. James Otis Sargent Huntington, o fundador da ordem da Cruz gloriosa, escreve na sua Regra que o futuro de uma comunidade está em suas mãos (regra de James Otis Sargent Huntington, c. 32, § 146). O formador ensina não só pelo que ele diz, mas também pelo exemplo. Ele ou ela dá para ver o que a vida novatos em busca de Deus deve ser como. A característica mais importante do treinamento é que isso não acontece em “uma classe”, mas no acompanhamento espiritual ativa dos noviços.

Mas também é importante perceber que a comunidade deve promover um ambiente em que uma boa formação pode acontecer. O treinador desde que a comunidade é um modelo para aqueles que chegam. E assim, boa comunidade treinamento é aquele que pode ver em todas as coisas a busca de Deus. Em certo sentido, todos nós estamos continuando comunidade educativa sobre a tradição monástica. O treinamento não pára com os votos perpétuos.Continuamente aprender, crescer e desenvolver-se como um macho ou fêmea grupo de convivência na unidade é a melhor maneira de ganhar as almas daqueles que entram em nossas comunidades, e aqueles que de uma forma ou outro em contacto connosco. Em outras palavras, nós todos juntos e ser imitadores de Cristo.

Abaixo está uma lista de treinamento “essencial” para a tradição monástica, ele é bom ter conhecimento como monges e monjas que foram introduzidas a esta forma de vida antiga, que respira e dá sempre vitalidade. Alguns destes pontos foram abordados em detalhes nos parágrafos anteriores e são agrupados em categorias gerais, após uma breve introdução.

E Relações com a Comunidade

O estagiário deve aprender a desenvolver relacionamentos e compreender o que significa viver em uma comunidade particular. Criar ligações entre as duas partes exige sacrifícios por parte do candidato ea comunidade. A comunidade desempenha um papel de mentor em como estabelecer essa relação e pode ajudar o recém-chegado a ser formado. Os membros da comunidade devem agir de tal forma que eles têm de provar-se digno de ser imitado. Eles oferecem modelos e maneiras de ensinar a pessoa que está em formação. A comunidade deve estar envolvida neste processo. Aqueles que vêm deve aprender a escutar, a amar os seus irmãos e irmãs, aprender com os outros e os seus exemplos e mostram um cuidado visível e um certo interesse nas propostas e os ensinamentos da comunidade. Existe uma relação entre duas partes e, é claro, o diálogo é crucial. Esperemos que, postulantes e noviças são capazes de procurar Deus na comunidade, em sua vida, e seus membros nas suas relações com a comunidade. O recém-chegado ea comunidade em conjunto para se engajar nesse processo e fielmente.

1- Ouça a amar – ouvir com o coração é o verdadeiro fundamento da vida monástica.

2- A comunidade deve ser o foco cristocêntrica.

3- vida comunitária é crucial nos estágios iniciais de formação.

4- Devemos todos querem aprender uns com os outros.

5- Buscamos Deus na comunidade.

6- Nós pagamos a atenção para o outro.

7- O treinador não é o único preocupado com o recém-chegado individual. A comunidade também é formativa.

Diálogo 8- (ver introdução acima).

9. Compromisso com a vida da comunidade e sacrifício (ver introdução acima).

10- Quando nos reunimos em comunidade, assim como nós somos. A falsa piedade não tem lugar em verdadeiras relações no seio da tradição monástica.

11- Os membros da comunidade têm de imitar a Cristo (ver introdução acima).

12- Quando nos reunimos em relação, nós vivemos “nosso” liturgia (veja acima sobre a Liturgia).

13- A comunidade deve ser um lugar santo, sagrado, um espaço onde o sacrifício tem lugar no qual somos santificados.

As habilidades na comunidade de recém-chegados, pré-requisitos?

Como já disse, a vida monástica preferem nada a Cristo. Esta preferência informa o caminho todo mundo vive. Se tivermos o amor perfeito de Deus, ele irá conduzir fora todo o medo.Esta afirmação era especialmente o capítulo sobre humildade. Este valor claramente monástica permeia todos aqueles que vivem essa preferência. Cristo é o humilde servo que “ter a forma de Deus, não teve ciúmes ocupou o posto que igualou a Deus, mas esvaziou, assumindo a forma de servo, chegando em semelhança de homens. Reconhecido homem em sua aparência, ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz “(Fl 2, 6-8). Isto é o que procuramos quando vemos nossos noviços e postulantes crescer em nossa tradição. Capítulo 58 também descreve muito bem as qualidades de olhar para aqueles que se juntar a nós.

1- faz uma pesquisa, um desejo de Deus? Será que recém-chegado busque a Deus com todo o coração e toda a alma e com toda a sua mente?

2- É a pessoa pode entender uma mensagem integrados na vida comum? Será que ele ou ela está interessada ou dócil / e saber o ponto de vista de seu desenvolvimento humano e espiritual?

3- Será que o candidato busque a Deus na comunidade? (Veja as seções sobre comunidade acima.)

4- O recém-chegado define uma relação de amor definitivo com Cristo ressuscitado e leva outros a esta reunião de diálogo.

5- Compromisso com a vida da comunidade e sacrifício, como dom de si (veja as seções sobre comunidade acima).

6- A Palavra é vivida em toda a pessoa.

7- A pessoa está disposta e capaz de conversão.

8. Será que o estagiário se sente bem com os outros? É que ela conheceu através desta comunidade? Será que vai de falsa piedade sobre esta pessoa?

9- A pessoa deve estar disposto a imitar a Cristo e mostrar sinais de que está bem feito nele.

10- Todos devem entender o caminho ea origem das pessoas em formação.

11- Será que o recém-chegado compreender o significado eo propósito da vida monástica?

12- É o estagiário pronto para ter, a fim de ser ensinada?

13. Quem é Cristo para o candidato?

14- Espera-se que o recém-chegado como oração e é naturalmente inclinado a orar.

15- O recém-chegado deve também amar a Palavra de Deus.

A maioria dos formadores: a arte de ganhar almas

As sobreposições entre as qualidades para procurar em aqueles que estão em formação e aqueles que o treinador considera fundamental possuir ou cultivar, como tal, são bastante surpreendente. Não, nós não estamos tentando fazer com que nossos postulantes e noviças fotocópias de nós mesmos, nem tentando fazer os outros membros da comunidade de robôs.Se assim fosse, os nossos próprios egos estão muito envolvidos no processo de formação.Quem faz o melhor e da maneira mais verdadeira é Cristo através do ensino do Espírito Santo, nas palavras o Papa Bento XVI: “Educar torna-se uma missão maravilhosa se realiza em colaboração com Deus que é o primeiro e verdadeiro educador de todo homem “. Papa Bento XVI afirma em conexão com o batismo. A criança é educada “para o sacramento que marca a entrada na vida divina na comunidade eclesial”. Ele disse aos pais: “Podemos dizer que esta foi a sua primeira escolha educativa como testemunhas da fé a seus filhos: a escolha é fundamental! “(Papa Bento XVI, homilia para a festa do Batismo de Cristo, pregado no Vaticano 08 de janeiro de 2012).

Educamos estagiários para viver novamente do seu Baptismo, para lembrar quem eles são e para quem eles pertencem. A vida monástica pode ser visto como uma demonstração e uma outra expressão da vida batismal em Cristo. Se temos de ser formadores / educadores devemos lembrar que é realmente o instrutor e não impedi-lo. É por isso que devemos desejo de ser treinado por Cristo. Temos que ser maleável para a salvação trabalhando em Cristo. O Papa Bento XVI escreve: “Como adultos, temos o compromisso de recorrer a boas fontes para o nosso bem e para a de quantos estão confiados à nossa responsabilidade” ( Ibid .).

Isto é especialmente verdadeiro quando se é mestre de noviços. Precisamos desenhar a partir da fonte de Cristo, a Palavra e os sacramentos da Igreja. Temos de “nutrir” nós mesmos “com estas fontes, a fim de orientar os mais jovens em seu crescimento.” Para dar, recebemos e buscar a Palavra de Deus na vida da comunidade, na nossa oração e na formação que oferecemos. E acima de tudo, procuramos imitar a Cristo, para serem conformes à medida em que nós ensinamos nossos candidatos e os nossos novatos a fazer o mesmo.

1- Os formadores de ser imitadores de Cristo.

2- Nós, treinadores vêm aos nossos novatos assim como nós somos, abandonando qualquer forma de falsa piedade.

3- Os nossos postulantes e noviças eles podem ver que a conversão funcione através de nós, seus mestres novatos?

4- Do vivemos a Palavra e aceitar para os recém-chegados?

5. Estamos empenhados em viver em comunidade na oferta de nós mesmos.

6- Os formadores para estabelecer um relacionamento amoroso decisivo com Cristo ressuscitado e eles devem ser capazes de levar os outros à reunião de diálogo.

7- Não buscamos a Deus na comunidade?

8- Não oferecemos uma mensagem integrada à experiência de vida?

9- Faça uma pesquisa e desejo dentro de nós, especialmente no que diz respeito a Deus?

10- Temos de garantir a boa vontade ea confiabilidade dos candidatos. Precisamos mostrar um monte de amor e estar preocupado com esta tarefa e, se necessário, discutir com outros especialistas.

11- O acompanhamento é a liderança e companheirismo, à luz da aprendizagem ao longo da vida do viajante que viaja com a gente.

12. Os formadores devem ser capazes de compreender onde os candidatos.

13. Os formadores devem ter um bom entendimento, sólida do significado e propósito da vida monástica.

14. Os treinadores têm de criar um ambiente para o noviciado para ser um lugar de oferta (e, portanto, santificação) dentro da comunidade.

15. Os treinadores têm de estar abertos à mudança e, particularmente, aprender com aqueles que são treinados.

16. Quem é Cristo para nós, treinadores?

17- Devemos amar e incentivar a oração.

18- Devemos amar e incentivar um amor da Palavra.

O efeito de tudo isto

Em sendo guiado e conduzido pela tradição monástica, o nosso objetivo é ter uma atitude verdadeiramente consciente e responsável para a presença de Deus em nós. A vida monástica se torna autêntico testemunho de vida cristã. Em outras palavras, a vida monástica é nada, mas uma vida cristã vivida com seriedade e integridade.

Fonte pesquisada:http://www.aimintl.org/








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